Já tive amigos de todas as idades. Desde os novinhos, crianças levadas, como eu fui, na tenrice dos meus verdes anos, àqueles velhinhos trôpegos, abengalados, cheios de enfermidades, dependentes do cuidado de terceiros, que vivem de teimosos, pois ninguém, em são raciocínio, deseja a chegada da morte, mesmo no derrocar impiedoso dos anos.
Hoje tenho incontáveis colegas militantes não em algum partido político. E sim na ciência que antes usava branco- a medicina. Alguns deles os creio amigos. Já outros, indiferentes, que por mim passam sem ao menos um bom dia, mesmo sabedor que a vida desassossegada torna-os apressados, a medicina não lhes dá tempo de pensar em outra coisa, que não seja salvar vidas, minorar dores, curar dissabores é mais do contexto da psicologia, entre os que envergam a mesma farda, médicos, como eu, entre eles coleciono raros amigos.
De tempos pra cá descobri, numa praça de esportes, num clube que sempre me atrai ao cair das tardes, agora mesmo vou para lá, um rapaz descarnado, usando um par de óculos de lentes claras, dentro do vestuário da piscina.
Ele estava a cuidar de um irmão pequenininho, levado da breca, com o desvelo de um pai a zelar pelo bem estar de um filho não muito crescido.
Logo cuidei de entabular uma prosa curta com o tal rapazola. Ele me ensinou várias coisas no decorrer do agradável colóquio. Como se consertava computador enguiçado, como fazer quando ele trava, algumas dicas que me permitiram depreender naquele moço como seria o feitio de um cientista.
Como apreciei-lhe o jeitão esquisito convidei-o a ir ao meu consultório assim que pudesse. E ele o fez no dia seguinte. Na parte da tarde a sua presença alegre e atenta se fez anunciar a minha querida secretária, a adorável e prestativa Zaninha.
Foi quando descobri algumas curiosidades sobre meu novo amigo, batizado, por ele mesmo, em seu Face, de Donatelo.
Era estudante de uma escola pública, durante o período da noite.
Donatelo tinha um sonho. Até então descolorido de cores lindas como as do arco-íris.
O meu mais jovem amigo tinha um desejo reconditamente escondido dentro da cabecinha fervilhante de ideias geniais. O de ser um grande cientista, inventor, descobridor, de coisas e loisas até então não pensadas por nenhum ser humano dono de uma criatividade engenhosa.
De família pobre, pai genético desde o nascimento não lhe deu guarida, mãe um tanto ausente, com quem não tinha um bom relacionamento, dois irmãos menores, pai postiço, ótima pessoa.
Por várias vezes, quando o convocava pelo Face, ele aparecia, do nada, à antessala do meu consultório. Sempre esfregando as mãos, timidamente.
Assim aconteceram idas e vindas e voltas, por mais de três vezes, ou mais delas.
Quando deixava a sala onde escrevo, e exerço a medicina, quase sempre o amigo Donatelo me acompanhava até o tal clube de muitas lembranças ternas.
Hoje de novo ele apareceu aqui. Por volta das duas da tarde.
Donatelo gostaria que fizesse algumas correções numa carta onde tentava uma reconciliação com uma garota que ainda amava. O final do enlevo apaixonado se dera por culpa exclusiva dele, do meu mais novo amigo, o Donatelo.
Em poucos minutos fiz o que ele pediu. Gostaria de ter mudado, não o sentido do que ele escrevera, e sim corrigir os senões praticados. Creio ter tido sucesso na empreitada encomendada.
À hora em que ele aqui assentou-se, antes da carta remendada, dele escutei que gostaria de conversar mais um pouquinho, a sós, ele e eu, apenas nós dois.
Donatelo começou dessa maneira a confissão (foram mais ou menos estas as suas palavras): “Doutor Paulo- não me dou bem com minha mãe biológica. Ela me estranha. Meu pai postiço, sim, tem demonstrado amizade por mim. Minha mãe acabou de me proibir de passar por aqui. Ela sempre faz assim com meus novos amigos. Não sei qual a razão de ela se comportar desse modo. Talvez pense que todos os homens maiores sejam como seu ex. Levianos e violentos, maus maridos, quando mais precisava deles em casa suas presenças eram ilustres ausências. Sei que ela sofreu os diabos em sua companhia. Fui testemunha ocular do acontecido. Foram anos e anos de desavenças importantes, que, felizmente não repercutiram na minha formação, até os anos de agora. Modernamente penso, e muito, em me afastar de casa. Com um amigo da minha idade formar uma república de estudante, para tentar ser feliz e mais nada. Por último, antes de sair, Donatelo ainda me confessou, antes, num dia de extrema angústia, tentou dar cabo da própria vida, num suicídio felizmente mal sucedido”.
Ao fim da tristonha e sentida confissão, antes de me despedir do meu novo amigo, fiz-lhe votos de sucesso em seus sonhos ainda descoloridos. E que, quando precisasse, não só da minha pena corretiva, quando tivesse uma carta a corrigir, ou caso lhe conviesse desabafar, o ar hoje, lá fora, se faz leve, para mim, não se acanhasse em de novo aparecer, sem ser preciso de anúncio, ou de marcar consulta.
A breve confissão do amigo Donatelo talvez tenha lhe feito bem. Pra mim foi ótimo ouvir da sua boca aquelas breves palavras, que de começo me soaram roucas, mas depois foram suavizando-se, cadinho a cadinho, como o canto de um passarinho triste e desafinado, ao deixar, pela vez primeira, o ninho confortável e seguro dos pais passarinhos.