Por mais que me apressasse

Hoje o dia me viu mais tarde que o costume. Já era sete e poucos minutos quando deixei minha casa entregue ao seu quarto desarrumado, ao seu banheiro molhado pela ducha revigorante que tomei, a cozinha com o liquidificador ainda dentro da pia, depois de ser usado na intenção de bater um pó branco em meio a dois copos cheios de água, a qual mistura de carboidrato uso todas as manhãs, a fim de me dar a energia que preciso para fazer frente às minhas múltiplas atividades diuturnas. E olha que são inúmeras.

Ao sair da portaria o varredor das ruas do condomínio , o madrugador José Carlos, já estava com metade do serviço pronto. E ele sorriu de mim, não para mim, já que ambos disputávamos quem iria acordar mais cedo. E nesta manhã de hoje, onze de maio, ele, certamente venceu e mais uma vez me convenceu que deixa sua casa bem mais precocemente do que eu saio da minha.

Ganhei a rua, mas, no entanto, o mourejador José Carlos me venceu na disputa de quem teria mais pressa em deixar a cama. Ele em verdade ganhou de mim nesta guerrilha salutar.

Para compensar o tardio que me acompanhou no dia de hoje, dia ensolarado, não frio como ontem, quando a temperatura mostrada no relógio de uma pracinha perto da minha casa acusava mais de quatorze graus, por certo iria subir, a hora do meio dia ela atingiria quase vinte e cinco graus, esporeei as pernas com o chicotinho que trago dentro de mim chamado de endorfina. Ele não é feito em couro duro e sim de um produto fabricado pelo próprio organismo, vem de dentro quando a vontade e a atividade física ditam.

Passei perto da igreja principal exatos vinte  minutos depois  das horas de ontem. Ela já estava de portas abertas, esperando os fiéis que dentro dela pensam encontrar a paz que tanto almejam. Essa mesma paz que não encontro, nem dentro do íntimo de uma igreja, pois o lugar onde ela se esconde fica inatingível, embora se amoite dentro do meu próprio âmago, num lugar inexpugnável, nem eu mesmo sei onde fica tal esconderijo obscuro.  Espero, antes que seja tarde demais, achar o tal lugar onde fica repousando numa rede balouçante a tal sonhada paz. Que tem outros nomes de batismo: sossego, calma, tranquilidade, ficar horas perdidas olhando as ondas do mar chegarem à areia da praia branca, onde brincam crianças lindas.

Já no passeio, quase onde estou agora, de novo dei de olhos num sem- teto dormindo a sono pesado num abrigo improvisado de uma marquise. Foi quando perguntei a mim mesmo: “ como pode alguém dormir um sono tão sôfrego num lugar desolado e insalubre como aquele? Se eu mesmo quase não consigo pegar nele em minha cama macia” ?

Foi só olhar pro lado de onde o pedinte dormia para conseguir dirimir-me a dúvida. Ao lado direito de onde ele dormia se via um pozinho branco resto de uma cheirada na véspera do dia de hoje. A droga de vida na qual ele se chafurdava se confundia com a chamada droga pesada, talvez fosse ele usuário de cocaína ou uma aparentada perto. Não pude comprovar minha suspeita.

Já passava das sete horas dessa manhã de sol risonho quando adentrei a portaria do meu prédio onde tenho consultório. Ali proseavam dois amáveis e confiáveis porteiros: o que passou a noite em vigília e o que lhe iria render no serviço. Cumprimentei-os apressadamente. Estava em fato atrasado.

Nesta quinta-feira, onze de maio, ainda me restava menos de uma hora para escrever um texto que fosse. Ainda não tinha o título ou  o motivo sobre qual, ou sobre quem, iria escrever nesta manhã de hoje. A partir das oito meu lado médico entra em cena. Depois deste horário o escritor sai do palco, avidamente iluminado não por luzes da ribalta, e sim pelo intenso brilho do sol que adentra com furor pela janela, não fosse a proteção verde das duas persianas que servem de anteparo a luz amarela do astro rei.

Assim que minha pequena chave destrancou a porta verde, enfeitada por arabescos em ferro batido, presente de uma querida paciente, oriunda dos bons tempos quando aqui cheguei, na década de setenta, ao olhar em direção ao mostrador do relógio ele sorriu galhofeiramente para mim, a dizer: “olha cara, você está atrasado em mais de meia longa hora. Corra para recuperar o tempo perdido. Vamos, apresse-se! Caso o atraso se repita vou puni-lo acrescentando menos horas aos minutos de sua já longa vida, que escorre pelo ralo, como as águas caem da ducha do chuveiro no seu banho de hoje cedo”.

Tive de acabar este texto em menos de meia hora. Nunca escrevi algo tão veloz. Agora já são oito horas da manhã. Em um minuto chega o paciente agendado para as oito. Junto a ele o médico entra em cena, nesta vida apressada, na qual vivemos ávidos por parar os ponteiros do relógio, mas, até o momento presente não tivemos  sucesso na empreitada de viver a vida sem olhar as horas. A correria, mesmo que inoportuna, faz parte uníssona de nossa malfadada vida.

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