Hoje acordou um dia de sol. Céu claro, azul até demais. Um friozinho próprio da época nos obriga a vestir um casaco leve. Pena que logo depois ele volta ao armário onde ficou escondido meses a fio, ao lado de outros que como ele são usados no inverno.
Nada contra o tempo de frio. Nele se alimenta melhor, dorme-se mais profundamente, apenas as chuvas se mostram ausentes, para retornarem ao fim do ano, quando de novo o verão esquenta, as roupas das mulheres mostram mais o que elas usam por baixo da roupa de cima, e há quem não use nada, apenas os contornos caídos ou empinados das curvas sinuosas ou decadentes que são próprias da maior ou menor idade.
Maio já mostra que o calor foi embora. Junho mais frio faz. Uma vez chegado Julho ele fica um bom bocado mais calorento. Já agosto os ventos de agosto levantam de novo as saias das fêmeas, mais uma vez elas devem se cuidar para não deixarem ver mais que o pudor indica, ou não, contra indica.
Nada disso, citado nos parágrafos de cima, mostra tristeza. Apenas comenta sobre a temperatura, se alta ou mais de acordo com as estações do ano. Que são menos evidentes no país da gente, onde tanto a alegria quanto a falta dela são frequentemente observadas pelos nossos olhos, basta que eles estejam atentos, pois, quando em desatenção nada disso é visto, muito menos revisto.
Durante a minha curta caminhada ao meu consultório, nessa quarta-feira, dez de maio, pelo lado direito do passeio, sol lambendo o entorno com sua língua amarela, poderia ser considerado triste. Não foi visto, nenhum sem teto dormindo ao relento, coberto apena por um manto abandonado num lixão qualquer, ou a ele feito presente por uma alma caridosa.
No meio do caminho, na parte alta da cidade, ao contrário da tristeza, na qual tentava me inspirar, percebi um jovem profissional de saúde, um fisioterapeuta conhecido, dar mostras de cidadania, recolhendo as fezes do seu pet numa sacolinha apropriada.
O meu percurso, a exemplo dos dias anteriores, não durou mais de dez minutos. Não parei em nenhuma padaria como fazia antes. Hoje faço meu frugal desjejum em casa mesmo, para depois, uma vez no consultório, reforçá-lo com força maior.
Assim que liguei meu computador, o maior deles, onde escrevo crônicas, já que o outro, um pretinho, nomeado de notebook, serve para romancear, ao abrir os portais noticiosos, os que tratam das notícias do dia, quase sempre ruins e tristonhas, as boas são sonegadas, fui sabedor de coisas podres, de prisões feitas pela operação lava-jato, pelo acareamento entre um ex-presidente e um juiz com fama de durão, de balas perdidas que encontraram alvos indevidos, de desastres que agrediram a natureza já empobrecida pelas mãos do próprio homem, de bandidos soltos quando deveriam estar entre grades, principalmente os de colarinhos brancos, pouco amassados pela prensa que a justiça deu no pescoço dos donos dos colarinhos quase brancos, de desastres com vítimas fatais, que perfeitamente poderiam ser evitadas pela prudência e ausência de álcool no sangue dos condutores de carros, das politiquices abjetas que as câmaras dos deputados passam tempos a discutir, dando aqueles espetáculos horrorosos que a televisão de quando em vez mostra, e de nada adianta acionar o controle remoto, noutra emissora a tela mostra a insossa e ridícula propaganda eleitoral gratuita, desgraciosa, dizem-na obrigatória, são tantas coisas tristes, a exemplo, ao abrir a página do portal UOL, um belo informativo virtual, assombrou-me os olhos aquilo, que dizia, em letras miúdas, que a linda e moderna Curitiba seria a primeira cidade a ter o jornal impresso seu dia contado.
É sabidamente triste constatar tal funesta novidade. O que vai ser dos leitores que adoram postar os olhos naquelas letras miúdas, usando ou não um par de óculos de grau? Vai ser chegado o dia quando, nos bancos das praças, aqueles logradouros ocupados por amigos do ócio, aposentados, que laboraram a vida inteira, e agora desfrutam do merecido descanso, ao invés de comprar jornais nas bancas apropriadas, têm de adquirir computadores móveis, plugá-los à internet, correndo o risco previsível de vê-los afanados dos seus colos desavisados.
E, sobre os livros em papel, cheios de letras variadas, formadoras de palavras, a maior parte delas líricas, embora muitas sejam atrevidas e de mau gosto, qual serão os seus futuros? Os livros editados, no meu caso são mais de quinze, em mais meio ano nasce mais um, virarão sucata, ou peça de algum museu dinossáurico?
A novidade que me foi passada na manhã de hoje, linda, pródiga em luz do sol, a temperatura passa de frígida a amena, sobre o desaparecimento dos jornais impressos, pelo portal UOL, foi, não apenas triste, mas bastante e levianamente real.
Hoje desci a rua no mesmo horário de quase sempre. De olhos atentos ao entorno.
Numa parte do caminho assistia a coisas alegres. Noutras, em outras, não tanto. Entre tristezas e alegrias mora a beleza da vida? Não seria a residência da beleza apenas tinta em coisas alegres? E como vamos saber a diferença entre a tristeza e a alegria caso não estudarmos uma e outra? Ao lado do arco-íris antevemos uma enorme queimada. Ao lado de uma criança sorrindo , no lado de cá, sentimos a dor de outra faminta.
Sei que é triste viver sem alegria. Como bem sei, como médico, como é difícil conviver entre as enfermidades sem cura! Como o câncer final de um amigo querido.
Mas, a alegria e felicidade que me entranhou profundamente ao âmago, assim que essa crônica chegou ao fim, compensa os insalubres instantes de tristeza ao ler as más notícias do dia. Que começou em sol brilhante, e pode terminar em cinza escuro.
Pode ser triste acordar de um jeito. E adormecer sentindo, cá dentro, toda a amargura do morrer estando sequioso por viver.