Quase do tamanho da história daquele hospital

Sei, desde quando aqui cheguei, bem antes de vir da Espanha, que aquele hospital, bem no centro da minha amada Lavras, cidade a qual não troco por nenhuma visitada, com seus problemas, quem não os tem?, que a idosa Santa Casa de Misericórdia tem mais anos que o próprio berço que a recebeu.

Uma vez menino, aos cinco anos de novo, embora nascido em Boa Esperança, daqui de Lavras me considero, quando ralei a testa ao cair do trampolim da piscina do clube fronteiriço da casa onde cresci, para onde me desloco todas as tardes, do consultório a morada dos meus pais, ali faço uma lépida visita à querida irmã Rosinha, troco a farda de médico para a de atleta usado e gasto pelos anos todos, malho na academia, onde tantas moças lindas e rapazes sobre os quais prefiro não comentar sobre seus corpos inteiros tentam ficar em forma, e conseguem, e, por volta do começo da noite retorno à minha residência, depois de dar uma passadinha encantada pelo apartamento onde mora meu querido neto Theo.

Pra onde ia quando de testa rachada, de perna esfolada, até, nos anos idos quando estudava medicina na capital das Minas Gerais, fui operado de fimose pelo grande doutor, conciliador, que tinha um consultório logo a frente do pavilhão antigo, Doutor Silvio Menicucci, onde ficávamos, ao cair das tardes a ouvir seus sábios conselhos, junto a eles outros esculápios ali permaneciam até a hora quando o relógio dizia que seria o momento exato de voltar ao lar.

Sempre que alguma doencinha , um mal estar, uma dor de barriga, uma lesão pequena devido a um escorregão, quando o beijinho doce da minha mãe Rute não resolvia o imbróglio, a quem recorria? Mais uma vez era ela, a sacrossanta padroeira dos pobres e descamisados, a doutora de concreto e telhas, paredes azulejadas e caiadas em branco diáfano e transparente, uma entidade meritória, de rica memória, que acudia a todos os que podiam, bolso recheado de moedas em forma de notas graúdas, e também os desassistidos pela sorte, os indigentes, naqueles verdes anos não existia o sistema único de saúde. Alcunhado de SUS.

Depois que o menino se transformou em jovem doutor, pioneiro na Urologia aqui, a quem pedia arrego quando o bisturi tremia, não era usado com maestria, e as grandes operações eram difíceis demais para a minha verdice profissional? Mais uma vez era o velho ancião, o mais vetusto e ético nosocômio que nasceu aqui, na minha querida Lavras do Funil que a represa de mesmo nome engoliu.

Uma vez de volta àquela casa, bem me lembro do velho pavilhão da Santa Casa, todo velho, precisando de pintura nova, dotado de um bloco cirúrgico onde goteirava forte nos dias de chuvas intensas, os serviçais vestiam a roupa do velho hospital, muitos ainda teimam em não se aposentarem, a exemplo cito alguns, caso me esqueça de outros que me desculpem a falha: o Mamede, um fazia de tudo, por vezes enrolava, o enfermeiro Zé Maria, com a velha e proverbial tranquilidade, que sai do hospital depois do plantão e vai tomar uma cervejinha no bar Cisne, o mais velho esculápio em serviço (estaria faltando com a verdade?), que parece morar lá, pediatra à moda antiga, de nome Zé Carlos, o não tão velho Loiola, doutor Célio de Oliveira, foi ele quem me trouxe de volta da Espanha, depois de esperar pacienciosamente três longos anos de residência médica, outros decanos da medicina da Santa Casa, permita chamá-la de Santa Causa.

Foi depois que edificaram o bloco de trás, que dá para a Rua Misseno de Pádua, prédio moderno, hoje mais ainda, continuamente reformado pelos novos provedores, que, como eu, amam o velho hospital, a ele dedicam não apenas a vida bem como o coração, eles partem e a Santa Casa permanece salvando vidas, acalentando sonhos dos novos profissionais de saúde que ali militarão, depois de afiados os estetoscópios e bisturis, pena que agora estes instrumentos quase não são usados, em detrimento das últimas conquistas da medicina, que, a exemplo de uma camaleoa muda de pele ano a ano, mês a mês, dia a dia.

Agora o velho hospital fica mais e mais jovem, apesar de ter mais idade do que a cidade que o acolheu tão bem.

Quando aqui finquei os pés, tendo as mãos como cúmplices, confesso haver cometido um pecadilho menor. Ou seria de maior vulto? Não queria outro profissional de mesma qualidade, qual seja da mesma especialidade, a qual elegi como minha – a Urologia.

Como me acostumei a operar apenas auxiliado por enfermeiros, foi eu mesmo quem os treinou a entrar no campo cirúrgico, passei anos baldios pensando ser capaz de acompanhar, passo a passo apressado, os avanços da medicina. Foi um equívoco do qual me penitencio, deixando aqui, nesta crônica de hoje, um conselho aos médicos que me sucederem: não tentem conquistar o mundo apenas a sós com sua falsa e pretensa impressão de que são capazes de fazer tudo numa empreitada solitária. Unam-se a outros iguais, se não iguais, procurem falar a mesma língua, mesmo que a sua linguagem se torne áspera e rude aos ouvidos pouco afinados com o que aprendeu em sua nobre arte de curar. Uma só andorinha não faz verão. Juntas elas avoam lindas, e conseguem sobreviver com suas asas frágeis às intempéries dos ares.

Como afirmei parágrafos atrás confesso ter me esquecido de alguma pessoa que ainda milita na querida Santa Casa.  Não tenho memória suficientemente capaz de me recordar de tanta gente boa, dedicada, que ama aquele hospital, que fica pertinho de onde estou a escrever.

Foi agora mesmo que aconteceu.

Ao descer a rua, deixando minha casa entregue às suas paredes, ao seu conforto, ao seu condomínio rico em verde, ao passar perto de um bar-restaurante de muita história para relatar, à porta do mesmo anteparei-me com uma senhora, um tanto trôpega, parada na porta do mesmo bar famoso. Ela ia amparada por uma jovem auxiliar. Não a reconheci, de pronto.

Essa senhora, pouco mais nova que a Santa Casa, ali já vivia quando cheguei da Espanha.

Era numa salinha logo à entrada da parte nova que ela passa horas baldias dos seus dias dedicados ao querido hospital cuja história se confunde com a dela.

Assim que o novo pavilhão foi construído ela ainda fica no mesmo lugar.

Antes era com a tal senhora, a qual passei no dia de hoje, conversei brevemente, que acertava as contas dos recebimentos dos pacientes tratados nas dependências hoje modernas do velho hospital.

Agora penso que os pagamentos são feitos a outras pessoas, mais jovens mas não tão amantes do velho nosocômio, como a velha senhora com certeza é.

Sei que um dia a Dona Marieta, natural de Itaúna, no entanto lavrense de corpo inteiro, num dia, tomara longe, vai estar ausente daquela salinha miúda, onde existe uma televisão, de poucas polegadas, uma mesa onde ela antes contava e recontava a féria do dia, de onde se podia ouvir seus afáveis “bons dias e boas tardes”.

Mas, sabedor do quanto a Marieta ama a Santa Casa, desde os tempos das irmãs, quando aqui cheguei elas já haviam deixado o hospital, muitas partiram rumo ao céu, bem sei que ela, Dona Marieta, embora seja um cadinho só mais nova que o velho hospital, tanto a Santa Casa, para mim uma santa causa que ela abraça, com todos os profissionais que ali prestam serviço, de excelente qualidade, ambos, a querida Santa Casa, quanto a Marieta, são partícipes das mesmas lindas histórias , que os dois, e nós todos, temos para contar…

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