Uma vaca, por favor!

Já disse que aprecio cães. Adoro cavalos. Não tenho gosto pelas galinhas. Qualquer bicho, dito irracional, embora considere o revés certos animais que os possuem. Mas as vacas, sejam grandonas, pequetitas, tintas em branco e preto, feitas em listras zebradas (já viram alguma assim?). A elas declaro uma paixão antiga. Mais que a idade da serra que daqui se avista, ruminando a saudade da chuva que se foi e não tem data para deixá-la verde de novo.

A melhor raça de vaca não é a pura – PO, como os entendedores apresentam em exposições de gado leiteiro. Aquelas que enchem o balde e o deixam transbordar, depois de alimentadas ao exagero, lambendo o cocho cheio de capim picado miudinho, ou cana de canela grossa, melhor ainda silagem de milho com cheiro de azedo.

As tais vacas puras exigem muitos cuidados. Interessante que elas fiquem em ambientes climatizados, sem a interferência de parasitos que adoram enfiar-se ao seu couro duro, provocando sinais de desmazelo, os abomináveis bernes e carrapatos, seres oportunistas como certos sujeitos que se locupletam de cargos elegidos por nós mesmos, vivem na mordomia das câmaras estaduais ou federais, não bastante o salário gordo que recebem ainda se aproveitam das benesses do cargo, recebendo “por foras”, a mando de quadrilhas, não as assistidas nas festas juninas, e sim as que pagam propina a fim de receberem benefícios nas licitações fraudulentas que estão sendo julgadas em âmbito federal. Tomara a operação que cuida de trancafiar tais salafrários não finde tão cedo. Ou trocando em graúdos, não pare jamais.

A raça de vaca a qual prefiro, sobre ela recai minha maior paixão, deixando de lado a paixão que minha Rosa formosa me inspira, não troco minha mulher por nenhuma boiada de qualquer raça for, é a chamada por gente da roça das Minas Gerais de “vaca- tatu- com- cobra”. Isto é: vaca mestiça, também chamada de Girolanda, resultado do cruzamento de vaca pura, preferencialmente touro holandês puro de origem, com vaca de espécie zebuína, orelhuda e chitada, ainda por cima baldeira.

Passei anos e desenganos tentando entender várias coisas na vida das vacas. E acabei não entendendo, a perfeição.

Por que razão a vaca é preta, em grande parte das ocasiões, e o leite espumante, ao sair das tetas, é branquinho como algodão? E outra questão que lhes indago, nos anos todos passados espremendo o mamilo das vacas, se vaca com quatro peitos fornece leite na mesma quantidade da de três? Ou da de dois? Nunca é demais dizer que as tais pessoas maravilhosas, desculpem-me o atrevimento de chamar vaca de pessoa, quando na seca arrombam o arame farpado, passam ao pasto vedado do vizinho do lado, e, naquele ato atrevido podem rasgar o úbere no arame cheio de farpas pontudas, dando um enorme prejuízo ao dono, já descabelado com o preço do leite enfraquecido e o da ração a mil por minuto.

São dúvidas que ainda trago dentro do âmago do meu cerne. Que só os vaqueiros calejados e experimentados podem me dar à luz, embora não parem (vi, agorinha mesmo, no professor Google, que o verbo parir não se conjuga na terceira pessoa do singular), do verbo parir, um dia longe de hoje em dia. Mas deixem estar!

Passei longos e sofridos anos trocando bezerros e bezerras por vacas novatas na arte de darem leite. Quando ia ao curral do vizinho esperto, e observava, olhos desatentos, uma vacona linda, dando trinta litros de leite em uma só ordenha, ficava maravilhado. Logo propunha um negocinho ao dono dela. Acontece que o safado entendedor de passar manta no coitado do fazendeiro médico-escritor-poliglota, nunca fui agiota, o Geraldo deixava a Braúna dez dias sem ordenhá-la. E quando a levava ao meu curral a danada da vaca tida como ótima apenas enchia um quarto do balde de cinco litros. O mesmo leite branco da vaca branca. Nesse caso entendo a razão de da vaca branca minar leite da mesma cor.

Foram tantas e tamanhas catiras feitas que nem me lembro de quantas mantas levei. Ao fim de quase trinta anos brincando de fazendeiro de fim de semana que quase acabei devendo as calças à cooperativa que não cooperava com os pequenos produtores.

Felizmente, ao fim de mais anos que os desenganos me fizeram abrir os olhos, passei as tetas, as vacas foram juntas a um amigo que entendia de ruminantes e suas crias berrantes famintas.

Hoje ainda amo as vacas e nem tanto os animais que as possuem.

Para a minha roça, antes chamada de prejuizenta, agora só lá apareço para andar a cavalo, dar prosa a gente boa da roça, ver de olhos saudosos as minhas vacas calminhas no próprio pasto, todo formado em capim para engordar vaca de costelas à mostra, tudo roçadinho, curral limpinho, cochos cheinhos de trato, gente de ali mesmo assando carne na brasa, tomando cerveja gelada nos dias de ócio, que são pouquíssimos lá, onde a vaca passeia feliz, de bucho cheio, berrando nostálgica de saudade dos bezerrinhos novinhos recém-paridos, que ficam no cercadinho apropriado, lugar quentinho e asseado, ai que saudade eu tenho, de quando era criança novinha, nas férias de dezembro, passava o mês inteiro na roça perdida nos sertões da vizinha cidade de Perdões, lugar de onde veio minha querida e amada mãe Rute.

Já hoje, mais feliz de quando era responsável indireto pela saúde da minhas vacas, refém de figuras em extinção, como sofri nas mãos caludas deles todos!, os tais dinossáuricos retireiros, quando compareço a minha rocinha amada, agora arrendada a gente boa, por tempo indeterminado, o Roberto, o arrendador é uma pessoa determinada a ser feliz, junto a sua linda família, faço-o deixando as preocupações de lado. Elas ficam na cidade. Onde o médico urologista ainda milita em sua área complicada.

Hoje cedo, como faço diuturnamente, assim que deixo os portões do lindo logradouro onde vivo, numa casa feita por minha mulher, bom dizer que ali não sou inquilino, não pago aluguel, meus olhos passeiam por uma pracinha enjeitada. Já falei dela em outras citações.

Na parte de baixo fica uma pizzaria movimentada quase sempre. Diametralmente oposto fica um bar onde se ouvem boas músicas sertanejas, principalmente aos domingos noites estreladas.

Vezes tantas essa pobre pracinha, de lugar feito para enfeitar as cercanias, passa a ser latrina de cães e as duas árvores da parte alta servem de esteio onde se amarram cavalos. Pobres animais, os mais lindos que a natureza criou, em minha opinião de quem ama as vacas.

Hoje cedo, bem de manhã, ao passar pela Praça Tenente Souza Lima, seria este mesmo o seu nome?, dei com o que deveria ser grama transformado num sarandi danado. Sarandi, em linguagem rurícola, é um mato denso, onde nem vaca faminta entra, com medo de cobra peçonhenta.

Ao deixar a pobre pracinha a sós em seu desmazelo perpétuo, foi que, mais uma vez imploro, aos órgãos incompetentes: “Uma vaca para pastar a grama- capim!, por favor!, antes que as cobras e os lagartos pastem a minha pena faminta de deixar no papel minhas impressões. Que muitos podem achar descabidas e de mau gosto. Mas eu não penso assim. Muito menos as minhas ex-vacas que ruminavam e ainda ruminam, o quão grande é o meu amor por elas. E não tanto aos animais que as possuem”.

 

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