Nos anos que me carregam no colo, embora aos quase setenta o peso da idade não me pesa, penso assim, por vezes penso na morte.
Aliás, todos devem se preparar para quando ela vier. Um dia, cedo ou tarde, ela vem, mesmo sem ser convidada ela aparece, montada num corcel negro, em pelo, vestida de cor triste, sem se deixar ver em sua face esquelética, branca, esquálida, intrépida e resoluta, a ela não podemos dizer não: “volte mais tarde”.
Já disse, numa crônica recente: “caso um dia tiver de morrer que não seja num dia como este. Que seja numa noite escura, chuvosa, quando relâmpagos riscam o céu, urubus avoem baixo, pássaros negros acompanhem-nos no séquito fúnebre, viúvas chorosas se condoam de meu corpo insepulto, semblante tranquilo, face lívida, assustada, pela vinda súbita e inusitada da tal senhora vestida de preto, a mesma amazona que apareceu do nada montada no cavalo negro como a noite quando minha passagem para a outra vida sucedeu”.
E eu continuo, em minha narrativa sobre quando o último suspiro acontecer: “desejo que sejam postos em volta do que sobrar de mim incontáveis livros, dos tantos que escrevi em vida. Até hoje foram quinze, não sei quantos nascerão até eu passar de mim para o que vai ser depois de mim. Não quero ver lágrimas derramadas durante o meu velório. Embora não as possa ver. Quero sim risos, gargalhadas, comentários alvissareiros sobre o que fui. Não digam inverdades sob a mira dos meus olhos cerrados. Quero garotas lindas, de corpos malhados em horas baldias nas academias. Não desejo ouvir comentários desairosos sobre minhas pernas fortes, sobre meu abdome um tanto abaulado, embora tenha tentado, debalde, me livrar dele quando malhando pesado como aconteceu na manhã de hoje, sete de maio. Afinal, assim que me levarem ao campo santo, o façam orando em silêncio, aceito, de bom agrado, harpas tocando, liras entoando, violoncelos vomitando sons graves, todos em harmonioso conjunto, habilmente regidos por um maestro urubulesco. E antes que desçam meu ataúde branco a sepultura escura, acendam uma luz dentro dela. Para que, quando meus restos mortais sejam incorporados a terra, que eu, pela última vez, sinta que a luz me acompanhou nos minutos finais. E com ela a saudade dos que ficaram a prantear minhas exéquias”.
Hoje, domingo, dia que começou friento, nevoento, cinza, deixei a cama entregue aos seus lençóis. Quem dorme ao meu lado sente frio. Dorme envolta num pijama morno. Já eu, mais idoso que minha querida companheira, durmo envolto apenas na minha pele clara, sem nada mais a acalorar meu corpo idoso, sob a pelagem de um menino, que de muito já se mandou dos seus verdes anos.
Queria correr. Não sei pra onde. O fato que a cama não mais me atraía.
Deixei o portão do condomínio correndo lentamente. Despedi-me de quem dormia sem poder desejar-lhes boa noite, já que eles estavam dormindo, e não podiam escutar-me a saudação.
Parti acelerado rua abaixo. Gostaria de ir bem distante. Talvez em direção a Ijaci, ou a Ribeirão Vermelho, como de costume faço aos domingos tempranos.
Nem bem percorridos míseros dois quilômetros, poucos eram considerando-se os mais de cinquenta vencidos em dezembro último, em sete horas e meia de lenta carreira, assim que tentei cruzar uma faixa de pedestres no cruzamento da rua que passa ao lado da Santa Casa, nem sete horas da manhã eram, ao passar ventando por aquela via importante, que nos leva à praça principal da minha querida Lavras, um ônibus circular, utilitário sempre usado às quartas e quintas feiras quando me desloco do consultório em direção ao Ambulatório Médico de Especialidades, fincado na zona Norte da cidade, pertinho do campo do Fabril, quase fui atropelado de lado pelo ônibus da Autotrans. Sorte que não era aquela a minha hora fatídica. Creio ser esse dia mais longe ainda, tomara.
Pessoas, conhecidos, vizinhos, se preparavam para entrar na Igreja Matriz.
Eu, idoso, sênior, senhor de mim, revoltado pela descortesia do motorista do circular, conheço bem alguns ótimos profissionais, daquela mesma empresa, num ímpeto soltei impropérios vários, oxalá não tenham sido escutados pelos amigos. Assim que quase refeito do susto de novo esporeei as pernas corredeiras e fortes. Deu vontade de entrar na lotação e enfiar a mão na fuça do condutor nada amigável. Ao revés dos demais os quais considero amigos e confiáveis profissionais do volante. Por sorte dele, talvez a minha, assim que o ônibus parou num ponto mais abaixo, eu, irado, gostaria e tomar a lotação, pela porta da frente entrar, não usar da gentileza que sempre dela lanço mão, não mostrar minha carteira de sênior, a que me faculta usar ônibus sem pagar, preço o qual considero justo, e sim interpelar com veemência o mal profissional, pena que não tive tempo de anotar a placa muito menos o número identificador que fica estampado em local visível dentro e fora do veículo automotor.
Segundos depois abortei o desejo de ir correndo ou a Ribeirão ou Ijaci. Virei as pernas em direção a rua onde sempre passo ao cair das tardes. A Rua dos Rodartes, da casa de número 152, ao LTC.
Uma vez na esteira, um tanto quanto ressabiado pelo susto passado, foi nela que descarreguei minha ira. Corri tanto que o suor, misturado ao rancor despregavam de mim com a força de uma cascata azeda. Foi mais de uma hora longa de corrida rápida.
Durante aqueles sessenta e tantos minutos pensei em tantas coisas…
Lucubrei mais uma vez sobre morrer e viver. Sobre como seria o meu velório. Sobre o que colocariam dentro do meu caixão. Sobre quem choraria, ou quem acharia engraçado ver um sênior- menino sendo sepulto tão precocemente. Sobre quantos livros me acompanhariam na derradeira jornada.
Hoje, bem cedo, tive a vida por um fio. Um tênue e franzino fiapo de linha, a que divide ao meio a vida e a sua antítese.
Foi bom estar novamente do lado de cá. Contente em olhar a vida do lado de fora do túmulo escuro, onde um dia estarei, parte de mim.
Cansei de falar em morte. O dia de hoje está lindo. Céu tinto de azul, nuvens brancas conspiram contra o azul do céu. Como a morte conspira contra a vida. Nesta ciranda linda que é viver pensando no dia do juízo final. E, afinal, qual o juízo que fazem de mim?
Comecei falando de morte, e terminei mudando de assunto. São coisas e loisas de quem escreve demais. Tomara que o resto de vida que me espera, continue assim.