Acalento de um sonho

Embora dormindo pouco, saio da cama antes das seis da manhã, não depois de deitar e imediatamente fechar os olhos, apenas consigo falar em sono propriamente dormido por quatro, cinco ínfimas horas, sonhos não fazem parte do meu fugaz sono.

No máximo, mais jovem, criança apenas, talvez, não me lembro muito bem, mas, ah!, recordei-me inda pouco de um sonho que tive.

Era véspera de Natal. Morava ali, naquela rua que se permite ver pelos fundos, por onde sempre passo ao cair das tardes, naquele mesmo quarto que dá para onde escrevo, janelas marrons, agora fechadas, onde dorme minha querida irmã Rosinha, meus pais ainda vivos e em saúde perfeita, na sala da frente, fronteiriça ao velho hospital onde trabalhei assim que retornei da Espanha, era montada uma pequena árvore natalina, não me lembro de que material era feita, se de um pinheirinho verdinho, se daquelas artificiais compradas em lojas assim que dezembro começa, não dormia a noite de véspera sonhando com os embrulhos ali deixados, por um Papai Noel no qual cria, embora agora esse bom velhinho tenha caído no descrédito, mas ainda creio no Deus Pai. O mesmo bom Deus que me permite sonhar com lindos presentes, desde que a criança que vivia no meu interior tenha se comportado segundo os ditames da boa conduta, e tenha logrado conseguir notas altas, tenha passado de ano, não simplesmente atravessar de um ano a outro depois de se encantar com os fogos de artifício que pipocam nos céus.

Uma vez adulto, hoje passado desta fase, embora ainda não decrépito ou ancião não me sinta, os sonhos se tornaram mais e mais rarefeitos. A exemplo do ar que me entra pelas narinas quando o inverno começa, mais e mais exíguo, dado ao entupimento que meus dois narizes sofrem, por uma rinite devida ao ressecamento dos vestíbulos nasais.

Tempos velozes marcaram minha caminhança pela vida. Daquele meninote artioso pouco sobrou.

Hoje, perto da aurora da minha velhice, prestes, daqui a minguados três anos entro na casa dos setenta, ainda em saúde quase perfeita, algumas arruelas e parafusos precisam ser apertados, para que a máquina completa funcione a contento, tenho assistido, estático e assombrado, a tantos sonhos de meninos serem ou não concretizados.

Foi no dia de ontem que o fato retrato se deu.

Pela minha sala de médico-escritor adentrou um jovenzinho de baixa estatura. Moreno trigueiro, esperto, já conhecido de uma academia para onde migro sempre assim que a labuta de consultório termina.

Sabia que ele tinha um sonho. Ser jogador de futebol profissional.

Já o havia visto numa partida naquele mesmo clube vizinho da casa onde sonhei com a vinda do Papai Noel. Em realidade o jovem, de nome Marquinho era um craque em potencial. Um atacante veloz, habilidoso, bom de fôlego e bom na escola.

Soube, por um amigo, ex- jogador de bola, personagem do meu livro a sair em dois ou três meses, de nome “Por quem os sinos não dobram”, que retrata a vida curta de um jogador nos campos da Europa, que para o seu país voltou hábil em cinco idiomas, além do pátrio, que o jovem Marquinho iria tentar a sorte em gramados europeus. Precisamente na Suíça, paizinho assaz desenvolvido, enfiado em cenários magníficos, onde se tem a proficiência em pelo menos quatro idiomas. Além de dialetos vários, dependendo do cantão vivido.

Marquinho agora tenta aprender o italiano pois muito dele vai precisar durante a estada europeia. Além do inglês, do francês, do alemão, o garoto Marquinho vai ter de esquecer o seu português, pelo menos nos anos em que vai tentar concretizar seu sonho de ter sucesso na difícil jornada de jogador de futebol.

Dobrado o ano, quando agosto vier, o jovem Marquinho vai partir para a Europa. Com ele, em suas malas lotadas de saudades antecipadas, vai como tutor o meu amigo ex-jogador, que lá já experimentou o sabor amargo da desilusão, além de ter vivido momentos felizes, embora saudoso do seu rincão. E mais um amiguinho chegado, também levando na bagagem sonhos mil.

Talvez, seguindo as pegadas do meu amigo, inspirador do meu novo livro, o jovem Marquinho não tenha sucesso na dura empreitada de ver o próprio sonho virar de sonho a coisa palpável. Ser famoso, como Neymar, como foi com um ou dois dos Ronaldos, e tantos brasileiros que se celebrizaram no chamado ópio do povo, o esporte mais amado em todos os continentes, seja no hemisfério norte ou sul, onde quer que a televisão esteja ligada. Em que canal for.

Ou, pensando em colorir os sonhos de amarelo ou vermelho, seja em azul ou de qualquer tonalidade de cor, o simpático e ativo Marquinho pode voltar rico e famoso. Ou ficar por lá mesmo, desfrutando da vida curta de jogador.

Quando criança sonhava pouco.  Em ganhar uma bicicletinha de rodinhas brancas na noite de Natal, dia vizinho do meu aniversário, sete de dezembro. Por azar, ou seria sorte, dezembro era o mês mais lindo do ano, pelas datas quase coincidentes.

Não sei o que era escrito no diário do pretendente a jogador de nome citado antes. Se dezembro era um marco em sua vida curta, ou se um mês igual aos demais.

O fato é que eu já acalentei incontáveis sonhos. Muitos deles viraram pesadelos.

Já para o garoto Marquinho, que em agosto se transfere para o futebol suíço, tomara, mil vezes escrevo tomara, o acalento do seu sonho seja igual ou melhor de quando, na véspera de Papai Noel descer pela chaminé, por baixo do meu pinheirinho de Natal descobri, olhinhos brilhosos, a linda bicicleta de rodinhas amarelas toda embrulhada em papel celofane transparente de azul brilhante.

Oxalá o acalento do sonho do pequeno Marcos se torne real. Como foram muitos sonhos meus…

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