Não me sabia capaz

Indiferente aos anos e desenganos que a vida me fez de presente, desde quando menino criança, aprendendo as primeiras letras, nunca fui capaz de tirar notas boas nas ciências dos numerais. No máximo passava de ano. Nunca os repeti. Quando não ficava no quadro de honra, notas no degrau mais alto, o boletim sorria e puxava o sorriso dos meus pais, tais eram as notas perto do dez, nove e meio era nota ruim. Sabidamente no português, embora, naqueles idos anos não fosse escritor, e nunca sonhara sê-lo.

Anos e anos mais tarde, como o tempo anda veloz!, corcoveia como um cavalo bravo, redemoinha como potro a ser domado, e não nos permite sonhar voltar ao revés, de velho retornar aos verdes anos de antão, de sênior passar a jogar bolinhas de gude, brincar de finca e bete, de idoso, manquitolando, correr como o casal de seriema corre, conto nos dedos quantos anos fazem, creio que a primeira crônica escrita por mim foi na noite da morte do meu pai, de nome – “Réquiem a um pai sem limites”, passei a escrever todos os dias, respeitando as noites, pois nos velhos anos pensava que elas fossem feitas para dormir. Agora não penso assim.

Ainda me lembro, lembranças até hoje me atraem, de tanto levar textos novos a um tio querido, Tio Chico Rodarte, que morava na casa de baixo da dos meus pais, sempre a hora do almoço, ele, tentando tirar uma soneca, ainda não enfermo, bebendo aquela latinha de cerveja semi- quente, já recostado à cama, de saco cheio de tantas revisões, doutor Francisco Rodarte (que alma boa era ele) tinha o costume de rabiscar minhas crônicas com um caneta bic fanha, manchando as folhas de papel de azul escuro. Num dia longe, que saudade do velho Chico, ainda bem que tia Sonia ainda lhe sucede, num meio dia quando passei por sua casa, ele, sonolento, depois de revisar e corrigir um texto recente, maculá-lo todo com sua caneta azul, lançou-me à queima vergonha uma exclamação que dela não esqueço: “Paulinho, você deseja ser escritor”?

Saí de sua casa com uma dúvida a me consumir o cérebro irrequieto, que se mantém da mesma forma até os dias de hoje. Em verdade sou? Ou ser escritor é mais um dos meus sonhos primaveris, embora estejamos no debrum do inverno, manhãs frias e cinzentas, como a que amanheceu no dia de hoje, quatro de maio?

O fato é que escrever tem a virtude de apaziguar minha inquietude, dar vazão a quase tudo que borbulha dentro de mim, como a pastinha de Sonrisal faz assim que inserida num copo d’água, logo as bolhas desaparecem cedendo lugar a um sabor inconfundível de água gasosa,  pela qual tanto sou apaixonado, assim como a vida entre as letras formadoras de palavras tantas, tão rica é a língua portuguesa, mais bela ainda a que é falada em Portugal.

Escrevo a cada manhã cedo quando adentro ao meu consultório. Até as oito da manhã deixo a porta por onde entram os pacientes fechada no ferrolho. Passo de um computador a outro com a lepidez de um beija- flor osculando a flor em busca do pólem amarelo.  No que estou agora escrevo crônicas. No outro, defronte, escrevo romances e coisas afins.

Como disse, depois que a madrugada temprana deixa espaço para as oito da manhã, começam a entrar os consultantes. Antes que a manhã se transforme em meio do dia saio da sala ampla com uma vista deslumbrante na intenção de atender em outros pontos da cidade. Assim acontece de segunda a quinta-feira.  Nos sábados e domingos o doutor cede lugar ao atleta, ao fazendeiro aposentado, de novo, quando o tempo permite, volto aqui mesmo,  e me transformo no escrevinhador compulsivo.

Ontem tive um consultante especial. Estava prestes a deixar o consultório para me exercitar numa academia aonde sempre vou ao cair das tardes. Era um rapaz ruivo, olhos claros , físico talhado em horas e horas de academia.

As suas queixas eram de natureza pequenas. Em fragrante contraste ao tamanhão do meu consultante.

Assim que a consulta teve fim passei a conversar sobre outros assuntos diversos.

Aquela era a primeira consulta que  o jovem ruivo fez comigo. Não o conhecia dantes.

Apresentei a ele minha outra identidade. Disse-lhe que apreciava escrever, e a ele perguntei se por acaso o mesmo  gostava de ler.

O jovem, bem mais do que meus anos ditam, de pronto asseverou que era um bom leitor, além de ser formado em educação física, na mesma capital que tão bem me acolheu quando recebi o canudo de médico especialista em urologia.

Acabei mostrando alguns dos meus livros ao consultante.  Ele, admirado, poder-se-ia dizer assombrado, não pelo assombração o dito cujo que um tio Abreu contava a nós moleques, na sua fazenda das Três Barras, e sim pelo escritor que a ele se descortinava.

Li duas crônicas de escritas recentes ao interlocutor assentado à cadeira de frente a minha.

Percebi, durante a leitura, que não apenas seus olhos claros e ouvidos, os dois, brilharam durante a leitura.  Como ele apreciou aquilo tudo.

Ao final do entrevero, depois de prescrever-lhe os fármacos que o ajudariam a se livrar dos seus queixumes, de explicar-lhe a conduta que deveria ter uma vez tomado os remédios, o jovem se disse curado. Comprou meu “Mugido de Vaca e Cheiro de Curral”, prometeu ler todos os cento e oitenta e oito textos, foi inserido a minha legião de amigos do Face, e, o que me encantou a sua saída, foi a deixa final que ele me deixou.

“Doutor, confesso.  Foi a melhor consulta que fiz em minha vida. Entrei aqui pensando encontrar apenas um médico especialista. Mas, depois de conhecer-lhe a outra face, a que escreve, me sinto curado. Não vou tomar o fármaco receitado. Prometo segui-lo em seu site. Vou acompanhá-lo de perto pelo Face. Agora que passei a ser seu amigo”.

Já percorri muitas situações felizes em minha longa trilha pelos caminhos e descaminhos da medicina. Já fiz cirurgias fantásticas. Já cometi senões em muitas receitas inspiradas nos meus conhecimentos de urologia. Já tive enfermos que criticaram a minha conduta.

Mas, a partir de ontem, três de maio, foi a primeira vez, espero não ser a derradeira, que me senti capaz de curar sem que a pessoa assentada a frente de onde estou, faz uma confissão como essa.

Tudo graças ao escritor que reside em um lugar especial, dentro das muitas faces que tento alojar, dentro de um dos tantos eus que proliferam no mais recôndito esconderijo de uma alma irrequieta, que só vai se aquietar não sei nunca. Tomara nunca mesmo, oxalá…

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