Hoje desci a rua me sentindo como um poste torto. Um que fica logo num cruzamento movimentado, do lado direito da rua, pertinho do hotel simpático, agora em mãos trocadas.
Por que tal comparação? Logo eu, idoso menino, que não apenas anda aprumado como corre da mesma maneira, braços dobrados nos cotovelos, distâncias infinitas, próprias a viagens de médias distâncias afeitas aos carros?
Tal escrito, tal lucubração, faz alusão ao dia que amanheceu no dia de hoje. Três de maio, bem pertinho do dia das mães.
Essa quarta-feira nasceu fria e cinzenta. Dia muito parecido àquele quando minha mãe se fez ausente da gente, isso no ano longínquo de dois mil e cinco, não sei bem em qual dia tristonho aconteceu. Lembro-me sim, de detalhes do seu passamento.
Estava no hospital, aqui pertinho de onde tenho meu consultório. Chamaram-me ao telefone. Naqueles idos anos o médico filho dela não tinha o tal celular. A ligação foi no telefone fixo, da Santa Casa, onde estava operando, não sei se uma próstata crescida ou uma enorme pedra no rim. Fechei a cavidade com pontos certeiros, em curto período de tempo.
Estava usando um fiatizinho azul, de propriedade do meu pai falecido cinco anos antes. Não usava as pernas como me assaltou o costume nos tempos de hoje.
Em menos de dois minutos estava naquela casa da Rua Costa Pereira, onde sempre passo no cair das tardes.
Uma tia querida estava ao seu lado. Minha esposa lhe fazia companhia.
Amparada por mim minha mãe, trôpega, ofegante, fomos juntos ao mesmo hospital onde estava momentos antes. Percebi, pelo aspecto frágil de minha querida e saudosa progenitora que algo bem grave estava ocorrendo em suas entranhas. Ela contava com oitenta e três anos de idade. Um dia antes mesmo ela se achava aparentemente bem. Embora a sua moléstia cardíaca já fosse evidente dentro do seu coração.
Ainda me lembro das suas últimas palavras, ao meu lado: “Paulinho, será que vou morrer”?
Dona Rute entrou no hospital caminhado trôpega do meu lado. Uma cadeira de rodas acudiu em seu socorro assim que estacionei o fiatizinho nesta mesma rua por onde desço todos os dias. Pelo elevador entramos lépidos na sala de operação. Meu primo, angiologista competente tentou, debalde, fazer entrar um marca passo pela sua corrente sanguínea, a fim de salvar-lhe a vida, mas, todas as tentativas foram vãs. Seu coração frágil pouco batia. E eu apanhava da vida, perdia o combate para a morte, ao assistir, impávido, as tentativas infrutíferas de trazer de novo minha querida mãe ao mundo dos vivos.
Foram quase duas horas de tentativas frustradas. Mais uma vez fui testemunha de quando a morte chega nada podemos fazer, embora tentemos, arduamente, retardar-lhe a presença inoportuna, em certos casos, fazer com que aquele ser humano fique mais tempo entre nós. Como médico deveria ser acostumado a conviver entre dois opostos : morte e vida, doença e saúde. Mas não me acostumo, até no presente momento onde me encontro, aos sessenta e sete anos de viver apaixonadamente pela vida, da morte quero distância.
Foi aquele o dia mais rico em angústia por que passei nos anos todos até então. Não sei se outros virão a partir de agora. Tomara, não.
Talvez, por esta razão, ao descer a rua nesta quarta-feira, dia três de maio, bem perto do dia das mães, ao passar nas imediações daquele poste de ferro torto, senti-me como ele. Além de encurvado sobre mim, cabisbaixo, tristonho, macambúzio e amargurado.
Como não havia consultas marcadas para a manhã de hoje passei a tomar café numa padaria simpática, onde nasceu meu romance nomeado de “A Moça Alegre de Sorriso Triste – Madest”.
Madest não mais trabalha lá. E sim outras personagens do meu livro, como a Moça Girafenta do Caixa, e outras mais, que não são citadas nas páginas brancas, cheias de letras negras, do meu romance já esgotado.
Ao assentar-me a uma mesa perto do balcão negro, bem ao lado, duas mesas do lado direito, uma linda moça, pele clara, cabelos escuros, de estatura mediana, pernas grossas e perfeitas, não foi possível antever se as tais pernas eram da mesma cor da do rosto, pois uma calça azul marinho a elas cobriam. Mas não me encobriam o desejo de olhar em direção àquela moça séria, compenetrada, que nem por um momento retribuiu-me ao olhar. Notei que ela enviava um whatsApp ao celular. Por certo não era pra mim, pois o meu i-phone não acusou nada de novo.
Dez minutos depois chegaram dois amigos a mesma casa de pães. Eles me cumprimentaram afavelmente, e assentaram-se a mesma mesa onde eu estava. Já havia tomado meu cappuccino quentinho e comido um misto quente especialidade da casa.
Bem perto das sete horas da manhã, deste três de maio, quase dia das mães, ao descer a rua sentindo dentro de mim uma amargura imensa, um poste retorcido de velho, ao deixar a padaria, ao pagar a conta, onde estava a mesma moça Girafenta do caixa, amável e solícita, sempre com um sorriso cordial a enfeitar-lhe os lábios finos e rubros dado a um batom cintilante, observei que a moça da mesa ao lado já não mais estava ali.
Na mesma mesa apenas restou um guardanapo amassado, um cesto de pão vazio, e uma xícara com resto de café com leite. Quase nada mais.
Despedi-me da moça do caixa com um acabrunhado bom dia. Não pude despedir-me da moça do lado.
Agora, oito da manhã, vendo o céu ainda cinzento, nuvens densas encobrem o sorriso do sol, não sei se verei novamente a moça da mesa do lado.
Teria sido ela uma miragem? Mais um fruto da minha imaginação criativa? Ou simplesmente, em verdade, ela existe de fato.
Com a mesma certeza certa, e triste, como o dia da morte da minha mãe querida. Dia de lúgubres lembranças, que inda hoje passeiam dentro de mim.