Sinto-lhes a falta. Por onde eles andam?

Um dia destes, andando num supermercado, em meio àquela fila imensa de gôndolas lotadas de produtos, unzinho só, ao qual estava acostumado. Depois de meia hora de procura infrutífera, sem encontrá-lo, já desanimado da busca, inquiri ao gerente da grande loja se por acaso ele sabia o paradeiro de uma marca de café expresso especial, já que as demais não me apeteciam. O rapaz, bem mais jovem que meus anos ensejavam, teria ele menos de trinta?, e eu, já no debrum dos quase setenta, garantiu-me que iria pedir ao fornecedor o tal produto. Mas não me garantiu por quanto ele apareceria lá, junto aos demais expostos nas prateleiras entulhadas de outras marcas.

Deixei a casa das compras com certo desalento. Não tão infeliz como quando perdi um amigo, dos poucos que colecionei vida adentro. Da mesma forma, embora não fosse possível reencontrar aqueles amigos poucos, eles hoje moram no céu, perto das asas dos anjos, parti deixando o gerente da loja incumbido de adquirir aquela marca de café expresso de minha predileção. Embora só beba café duas vezes ao dia, uma xicarazinha apenas, adoçada levemente.

De outra feita, ainda sobre procuras, buscas sem encontrar o que desejava, quantas foram elas, tantas, que nem me recordo tantas, tantas que foram, em minha vida de tantos e tantos anos de buscas infrutíferas. Perdido entre meus sonhos de poeta, sem ao menos sê-lo, de fato.

Hoje tenho sessenta e sete anos de existência. Em pouco estarei sessenta e oito. Muito em breve não mais viverei aqui, procurando coisas impossíveis de serem encontradas, quiçá em outra vida lograrei sucesso na procura. Embora saiba que aquele cafezinho expresso, daquela marca especial, certamente apenas é encontrado em lojas cafezeiras, não em cafezais imensos, que se perdem de vista na planura do horizonte infinito enquanto durar a infinitude do meu grito.

As buscas infrutíferas não têm produzido frutos em minhas buscas solitárias.

Já procurei tantas coisas que não foram encontradas, outras achei-as, não no lugar devido, e sim noutros pouco usados, que, caso fosse declinar todas elas, uma crônica longa não seria capaz de enumerá-las todas. Já o que não queria achar, foi achado, depois de breve procura.

Assim caminha a desumanidade dos percalços da idade. Um idoso procura a bengala. E, a seguir da busca infrutífera, dá de canela nela, partindo-lhe o osso frágil da perna manca.

Uma linda moça casadeira busca o parceiro ideal para viver ao lado dela para sempre. Dois anos depois de encontrado o presumível príncipe encantado descobre que ele nada mais era do que um sapo morto e mal cheiroso, que, de tanto coaxar por um amor impossível acabou assim: morto, apodrecido, infeliz, exaurido.

Outro exemplo que gostaria de citar, depois dessas resumidas citações, de procurar e não descobrir, buscar e não encontrar, foi quando fui testemunha presente, confesso que não foi um presente ao estar ali, foi num dia perto, na semana que começou com um feriado, e, pela quase metade ainda vai se estender por mais quatro dias, finando no próximo sábado, depois dele entra o domingo, recomeçando tudo de novo, semana adentro, final dela a frente.

Uma família, composta de pai, filhos, netos, estava à mesa de jantar.

O pai, idoso, doente, tomou a cabeceira da mesa ampla.

A esposa, ainda em boa saúde, tomou a palavra para agradecer, em oração, não apenas pela mesa farta, pela saúde dos filhos, entre eles incluso os netos, e demais descendentes diretos ou não.

O resto dos circunstantes não fizeram silêncio. Ao revés, o filho mais velho levou o garfo cheio à boca, cheia de dentes não tão brancos, muitos em falta, e, numa frase infeliz deixou pai e mãe falando sozinhos, sem terem sucesso na oração, que foi relegada ao olvido do esquecimento. Um neto, já não criança, ao ouvir o pedido de graça feito pela avó, a breve oração que não teve fim, já que foi interrompida logo ao começo, deixou a mesa levando o prato cheio a comer na sala da televisão, onde se exibia uma linda mulher, seminua, fazendo sexo a três. Os demais presentes à mesa se comportaram como animais metendo o focinho no cocho creio de capim misturado a ração. Não precisa dizer que o jantar acabou, melancolicamente infeliz, como ao seu começo.

Noutro dia, da mesma forma infeliz, assisti a outra cena que me fez pensar na procura de hoje, escrita nesta manhã, uma terça-feira fria, começo do mês de maio.

Um pai, zeloso da sua paternidade, junto a mãe, amantíssima, sempre presente ao lar onde moravam, junto aos filhos maiores de idade, que ainda era filhos-cangurus, desempregados, amigos do ócio, alguns deles usuários de drogas ilícitas, após tentar chamar a atenção do mais jovem, um catatau obeso, com o dobro da força do pobre progenitor, levou um supetão com tal impulsão, que caiu pra trás, sendo levado de maca ao hospital geral. Por sorte dele só ocorreram fraturas várias, em pouco deixaria a casa das enfermidades, mas só poderia andar de posse de muletas, manquitolando, talvez, para sempre.

Outros acontecimentos fúnebres, embora em nenhum deles tenham saído mortos, apenas feridos no âmago das suas almas, dos tais fui testemunha ocular. Ou foram ingratidões de filhos aos pais. Ou desavenças por motivos fúteis. Ou desacertos por razão de falta de gratidão, de respeito, de malquerença, de desamor ou outro de mesmo quilate, pena não ser do quilate de um diamante lapidado. Ou mesmo de uma pedra bruta, que, nas mãos de um ourives vai se transformar numa joia de inigualável valor.

Um dia, no mesmo supermercado, imenso, num dia de compras, ao percorrer as gôndolas da casa, noutro dia distinto de quando perguntei ao gerente pela marca do cafezinho expresso que apreciaria comprar, em outra prateleira, no final do corredor, a minha busca foi outra.

Ao lado de utensílios de limpeza, de vassouras e escovões, de sabões e desinfetantes, tentei achar outros produtos, que, ali não estavam expostos a venda.

Foi debalde procurar uma coisa simplesinha, que não é servida como alimento, à mesa de jantar. Da mesma forma não encontrei outros produtos, em falta em qualquer prateleira de supermercado.

Deixo aqui, nesta lista pequena as tais mercadorias, que não são comestíveis ou de se usarem como vestimentas, roupas da moda, ou démodés.

Elas são chamadas de: respeito, agradecimento, reverência, solidariedade, ética, decência, honestidade, sentimentos puros, como os que exalam do perfume das flores, na primavera, ou em qualquer das estações.

Como tenho sentido a falta destes produtos! Que pena não se possa comprá-los, seja nos supermercados, ou numa lojinha de conveniência, num postinho de gasolina qualquer…

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