Nomes trocados

Meu avozinho querido, por parte de mãe, Rodarte, com o Abreu pouco tive contato, embora da mesma forma me fosse mui caro, em tempos idos era dono de um cartório de registro de nascimento. Não é do meu tempo, diziam-me, que minha mãe Rute era sua partner naquele ofício. Por vezes fico pensando nos dois, naquela salinha apertada, em meio a livros amarelados pelo tempo, registrando nomes dados por inspiração de pais, avós, de outras pessoas estranhas, cada um mais esdrúxulo que o anterior.

Daqueles anos verdes e nascidos dantes saiam cada nomúnculo mais curioso que o colega. Deles fazem parte: Aberta Demais de Oliveira, Ábias Corpos da Silva, Ácido Acético Etílico da Silva, Amável Pinto, Antônio Manso Pacífico Sossegado, Antônio Morrendo das Dores, Ava Gina, Carabino Tiro Certo, Chevrolet da Silva Ford, Defuntina Silva Cruz, Domingos Pinto Justo, Espere em Deus Mateus, Faraó do Egito Souza, Inocêncio Coitadinho, Janeiro Fevereiro de Março Abril, e por aí desfilam cada coisa, que até eu duvido.

E os tais nomes que um dia o dono, um tanto quanto arrependido por ter sido batizado dessa forma, resolveu trocar? São tantos que nem meu avô Rodartino Rodarte (o dele também era estranho, não concordam?), muito menos minha querida mãe daria conta de se lembrar.

Já o nome que inventei inda agorinha, creio não fazer parte da lista citada em nenhum cartório da vida, foi tudo invencionice do escritor que mora dentro de mim.

Era dia do trabalho quando nasceu Jurubeba.

O pai da criança nele botou esse nome devido a tal planta de onde fazem chás de sabor amaro, distribuída, como praga, em todo o Brasil, sobre a qual dizem ter efeito medicinal, soberbamente com efeito no emagrecimento.

Embora o Jurubebinha nascesse magricelinha, um fiapo magro de vida, com menos de meio quilograma de peso morto, fora as fraldas, quase sempre cheias de um cocô mole, fedido, pastoso, dir-se-ia que o nenê não chegaria a seis meses de idade, mas, contrariando as previsões pessimistas, chegou.

Aos dez o Jurubeba da Silva Mourejador, assim o apelidou, sem muita sustância um tio doutor, por pensar que o sobrinho fosse dar coisa na vida, já que mourejar indica labutar. Ao revés do que a criança acabou se tornando, um zero a esquerda, mais que isso.

O que mais o jovem Jurubeba apreciava fazer era acordar bem cedinho. Nem bem a galinha anunciasse o ovo a sair do fiofó eis que o menino, o que nada queria com o trabalho, embora nascesse no dia de hoje, primeiro de maio, feriado nacional, para ele todos os dias eram feriados, nada o fazia pegar na enxada, ir de foice em punho tentar carpir o sarandi em que se tornou a horta da sua casa, morada de cobras verdinhas com as couves da horta da avó, ou ajudar ao pai, sujeito trabalhador, em nada o seguiu nos passos. Passou a mocidade, a tenra idade, de papo pro ar, jogando conversa fora nos bancos da praça principal da vila onde morava, engrossando a folia parada dos seus iguais de ócio puro.

Quando alguém ao Jurubeba, que perdeu o apelido de mourejador, sabe-se a razão, perguntava por que motivo acordava tão cedo, dele se ouvia a reposta, na ponta da língua de trapo gasto: “quer saber”? Para ficar mais tempo à-toa”.

Já que tanta gente troca o nome, como hoje nos acostumamos aos que trocam de sexo, de Maria Vai Com as Outras fica João Com o Pinto Cortado, no caso do rapaz nascido no dia do trabalho, com ele nada queria, para Jurubeba Dolce Far Niente, em italiano “doce nada fazer”, foi quando agora mesmo, quase meio dia do dia primeiro de maio, ao descer a rua, pelo mesmo passeio do lado direito da mão direita, deparei-me com uma cena inusitada.

Uma estátua viva, daquelas que tentam nos passar a imagem de coisa morta, depois de intensos e cansativos momentos de pé, sem mover um lábio sequer, aproximou-se de mim pé-ante-pé, devagarzinho, com aspecto faminto, tinto em cinza chumbo, nela reconheci o Jurubeba agora feito estátua, quase morta de fome.

Dei-lhe uma moeda das grandes. A única que tinha no bolso vazio da calça apertada que uso agora.

Nos breves segundos passados ao seu lado fiz-lhe, de chofre, uma pergunta: “e agora Juru (abreviei-lhe o Jurubeba). O fato é que tinha pressa em chegar a onde estou.

Ele, com aquela calma dos tranquilos, em resposta a minha inquisição, que foi “qual o seu nome de agora, já que estamos no dia do trabalho, e você não quer nada com ele”?

“Quer mesmo saber? Já tive tantos nomes e apelidos, que me cansei de todos eles. Vou procurar seu avô Rodartino. Quero me rebatizar. Já que hoje, primeiro de maio, do ano de 2017, caiu no dia o qual detesto, até a última geração, que tal me epitetar de: Jurubeba Desertor do Trabalho Duro. Como sobrenome vou me intitular, pena que vai ficar longo demais meu nome comprido. Jurubeba Leão do Norte Desertor do Trabalho Duro, Salve-me Deus, de Quando me Derem uma Enxada para Capinar, que me Excomunguem, Peço-lhes Encarecidamente, Não, Minto, pelo Amor do Senhor, Adeus Trabalho, Nem Mesmo um que Pague Bem, Não me Permitam Pegá-lo, Finalmente, de Bem com o Banco Vazio da Praça, Local dos Desocupados e Amigos do Ócio, que Não Seja Ele, o Início do Fim”.

Não sei o que pensa meu avô falecido, um que andava o tempo todo com um terninho azul escuro, usando um suspensório por cima de uma camisa branca, e nos pés uma sandália de couro marrom. Talvez ele concorde, com o aceite de minha mãe Rute, sua escrevente, dona de uma linda letra de professora de curso primário.

Essas trocas de nomes ainda são bastante comuns nos dias de hoje. Como são comuns as passeatas no dia do trabalho. Dia em que deveríamos estar trabalhando, não escrevendo bobagens.

 

 

 

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