Doar, dar, distribuir ao léu sem olhar a quem, aquele ato singelo de estender a mão a quem precisa sem sonhar sequer em ver do outro lado um gesto de agradecimento, ou de retribuição, um pueril “muito obrigado senhor”, pode ser notadamente mal entendido, principalmente em tempos de caça aos votos, de eleição.
Nem sempre fui assim. Poder-se-ia dizer assado.
Antes que a folhinha acusasse, com seus dias e suas horas dançarinas, nos tempos verdes da minha lembrança, assim que na minha querida Lavras aportei, pessoas que mal me conheciam não faziam bom juízo de mim. Não no que se refere à competência profissional. O médico urologista em verdade trouxe, não somente, na mala um bisturi de esmerado fio, depois de um ano na Espanha, bem como conhecimentos de vanguarda a serem postos em prática por aqui. Foi aquele urologista de barba castanha, bigode da mesma cor, cabelos longos e ideias não tão longas como as de hoje, usando um tamanco branco, jalecos bordados com as asas da borboleta azul (e meu nome em arabescos lindos Dr Paulo Rodarte), confesso: era considerado um tanto ansioso, resmungão, metido mesmo, pensado ser o dono do cavalo branco, quando, entretanto, meu potrinho Theo é castanho escuro.
Talvez por imaturidade minha, por pensar que tudo deveria ser a meu bom sabor, as enfermeiras, muitas ainda convivem nos mesmos hospitais, os três foram reduzidos a dois, faziam mal pensar do que fui.
Mas, mais uma vez peço-lhes perdão. Não de joelhos, pois ainda não costumo me curvar, a não ser a quem mereça mostrar o descalvado amplo que entrou no lugar da minha cabeleira bem cuidadada, cuidadosamente escovada, sendo um bom secador testemunha assopradora do que aqueles idos anos mostravam.
Posso ter sido mal entendido, devido a azáfama laboral que aqueles verdes anos ensejavam, me desdobrando em atividades febris, embora com a temperatura corporal em tons normais, operando nos três hospitais, tendo de me levantar a noite, a fim de tentar aliviar dores e talvez compensar a vontade imensa que me assaltava no começo da profissão, de ser logo reconhecido não apenas um bom especialista, melhor pessoa, não sei se logrei sucesso. Penso que não.
Foi apenas no outono inverno da minha velhice que não apenas as minhas atitudes mudaram de cor. Eu mesmo mudei de lado. De negro asa de urubu para amarelo rosa bem cuidada.
A explicação para tal metamorfose, como admiro as borboletas, que, uma vez saídas do casulo feioso se transforam em lindos insetos alados, pena tenham elas vidas tão curtas, com certeza é o costume que tomou conta de todo meu eu. O talento, manifesto depois de mais experimentado, uma vez passados os quarenta e tantos, creio que na mesma noite quando meu pai nos deixou, de escrever demasiado, de estar atento ao cotidiano lindo, basta deixar os antolhos de lado. E nunca mais usá-los.
A tal sensibilidade exacerbada tem culpa nessa história toda. O sentir demais deve ser imputado como testemunha de defesa da nova pessoa na qual me tornei, apesar de muitos tentarem acomodar-me aos ombros culpas maiores que as tenho.
Mesmo assim, por vezes não compreendido, tomado como rude, grosseiro, hiperativo, por dormir menos que deveria, tenho medo de depois da noite não acordar e ver a luz de um novo dia, mesmo que me culpem das culpas que não me são devidas, faço fortalecer meus costados, malho em ferros na academia, corro como uma lebre fugindo do lobo malvado.
Nos tempos de agora, sempre que passo pelas ruas, andando levado por pernas próprias e não por rodas de autos, cumprimento pessoas, mesmo a desconhecidos, ato pelo qual muitas vezes sou retribuído, e se não, do outro lado a pessoa não retribui ao meu bom dia, não me contrario. Faço de conta que em verdade não acho pesadas as culpas atribuídas a mim, mesmo que a maior parte não sejam devidas. Meus ombros, hoje, são mais largos e fortes de quando era mais jovem, embora ainda me ache um menino. A olhar por baixo da saia da professora, a mesma que antes tinha pernas grossas e lisas, que, da mesma forma que uma linda novilha baldeira, prestes a ser montada pelo touro fecundo, se transformou numa vaca velha e pronta a virar, dependurada nos ganchos de um açougue, em carne de boi de segunda.
Bem que tenho tentado me metamorfosear em pessoa mais afável, menos rude e tida como grosseira. Da mesma forma que tento, persisto na tentativa, vã, as vezes, de ficar mais atento aos que outrem pensam de mim.
Mas, conforme me foi dito, dito que reedito: “burro velho não pega marcha”, considerando-se que não me considero asno, nem o seu aparentado o jumento, qual seja o burro, ou uma linda égua coiceira, se por acaso pensarem que meu dito, saído do destempero de uma hora ruim, foi de mau alvitre, mais uma vez digo que tenho tentado, debalde, tornar-me uma pessoa melhor. Pena que por vezes não consigo. Mesmo depois de me esforçar em demasia.