Jamais observei, olhos e ouvidos atentos, em minha longa jornada pelos mais de sessenta anos vividos, a eles podem ser acrescidos mais sete, logo entrarei nos setenta, tanta sofreguidão, insatisfação, ansiedade e falta de enxergar luz onde moram trevas, tantas e tantas receitas de tarjas pretas, predomina a família dos azepans, noutras leia-se antidepressivos, são tantos e tantos prescritos, nos dias de agora, creio, dentro da minha descrença, que os consultórios psiquiátricos vazam pelas beiradas, sobram prescrições aos médicos não especialistas, que se desdobram em unidades de saúde pública a transcreverem os tais garranchos, muitos deles ininteligíveis, por falta de vagas nas oficinas de trabalho daqueles esculápios pacienciosos, cuja consulta privada custa os olhos da caneta. E cobram inclusive o retorno, seja em que tempo for.
A paz, nos dias de agora, não a encontro nem nos ares tidos puros onde moram as vacas, galinhas ciscam piantes, porquinhos grunhem gritinhos sonoros quando lhes falta comida a hora certa, cavalos marcham galopantes, por cima deles peões valentes dizem que não caem da sela, no entanto, quando o garanhão inteiro corcoveia, boleia pra trás, não há quem consiga se manter no arreio, e acaba indo ao chão com os fundilhos duros, sob o risco de quebrar o que não deveria.
De quando em vez, assim que os finais de semana se anunciam, hoje pela manhã, bem cedinho, fui ter a minha roça em companhia de quem entende de cavalos e bovinos.
A razão de levar ao meu sítio um veterinário competente tem a devida explicação por motivo convincente.
Theo Horse, não meu querido netinho que a ele emprestou o nome curtinho, bem escolhido por seu pai, meu genro, depois de perder a visão do olho esquerdo, por onde se monta no animal, embora não lhe prejudicasse a marcha andarilha, ficou ainda melhor que dantes, o aspecto plástico não era dos melhores.
Não queria que ele se parecesse com uma Gisele Bündchen equina. Pois tal delírio apenas nos meus devaneios pode ser palatável. Mas que pelo menos ele, o potrinho castanho, de crina amarelada, um cadinho poderia ficar como eu, nos velhos verdes anos de quando apareci no retrato de formatura em medicina, com um lindo topete armado, um vasto bigodão preto cor de anu, olhos castanhos inquiridores, sem os traços de sênior que hoje o espelho acusa.
Doutor Athos, filho de um colega, emérito e inovador cirurgião proctologista renomeado, da família Carvalho, que ainda milita na Santa Casa, foi o especialista em cirurgia plástica equina que, magistralmente deu jeito na aparência mal acabada depois do acidente que o fez perder um dos olhos após uma invasão por bernes do seu globo ocular. Não fui testemunha ocular do infortúnio do meu querido Theo de quatro patas.
O fato é que a operação foi um retumbante sucesso. Theo potro capado não sentiu nadica de nada. Ficou calminho depois da sedação oferecida a ele depois de uma picadinha de agulha rombuda na tábua do pescoço grosso.
Ao doutor dos animais, Athos, um tanto avesso ao casamento, que logo encontre a sua potranca tão sonhada. E que ela nunca o perca de vista, pois os hormônios do doutor Athos estão em plena efervescência. Até os dias de agora a tarde, quase noite chegando.
Era perto da hora do almoço quando retornamos à cidade. Ali, naquele ambiente lúdico, cercado de animas tidos irracionais, quase encontro a paz que tanto busco.
Pena que a vida na cidade me impeça de parar para lucubrar.
Aqui, onde todo mundo, menos eu e um grupo seleto de “torcedores do contra os carros”, já que somente andamos com o auxilio das próprias pernas, o alarido ensandecido das buzinas, das freadas, das pessoas perdendo a paciência que lhes resta, eu não sei onde escondo a minha, de novo não encontro a paz que tanto procuro.
Ainda bem que hoje, sábado, tarde insossa, mais dois dias longos nos aguardam de barriga pro ar, domingo e segunda são de novo dias de descanso, embora sempre diga que me canso de ficar sem nada a fazer, depois de chegar à cidade onde moro, onde pretendo ficar sepultado no mesmo túmulo dos meus pais, talvez lá encontre a paz que tanto almejo.
Mas, pensando melhor, que o dia do meu velório tarde mais que a morte pretenda me levar.
Já disse, nunca seria demais repetir, que, caso tenha de escolher um dia ideal para me despedir do mundo dos vivos, que este dia caia num trinta e um de fevereiro, ou, quiçá no dia de São Nunquinha depois da meia noite alta.
Por certo, nesse dia lúgubre, citado antes, talvez encontre a paz que os mortos merecem.
Hoje estou a escrever onde sempre o faço. Na calmaria do sétimo andar do meu consultório. Nenhuma vivalma me faz companhia. As salas contíguas estão vazias.
A minha frente nadam placidamente, dentro de um aquário, não sei quantos peixinhos aquarianos.
Sempre que aqui chego cuido de ver se eles têm alguma reivindicação a fazer. Hoje em dia é tempo de manifestações pelo país inteiro. A insatisfação se mostra evidente por onde quer que a gente olhe. Ontem foi o dia do “paro”. De paralisação, de protestos.
Já os meus queridos amiguinhos nadadores, que não precisam respirar, nunca protestaram, ou contra a ração de pouco comprada, muito menos contra as borbulhas de ar que a bomba joga para cima, nem ao menos contra as pedras do fundo da sua morada.
Eles sim, me ensejam paz.
Quem sabe, em outra vida, quando afinal a morte me venha buscar, de novo renasça em mim um peixinho, desde que eu saiba nadar.
Quem sabe assim eu encontre a paz?…
Já que escrever demais não leva a nada. A não ser dar calos nos dedos, e ficar com livros e livros encalhados. Não no fundo do mar.