Um dia destes vi, cambaleante pelas calçadas, um sujeito moreno amarronzado, frágil, magricela, pareceu-me a princípio ter quase cinquenta anos, depois foi provado mais, de onde exalava um odor forte de cachaça da ruim (quem diz entender que pinga é boa não sabe o sabor de uma limonada feita na hora), foi então que o segui.
Fiz menção de conversar com ele. Fomos andando juntos a mais em cima da rua principal. Amistosamente o inquiri sobre onde trabalhava. Foi quando o senhor, olhando para mim, ao reconhecer dentro de um dos meus tantos eus o lado médico urologista, balbuciou que já havia se consultado em meu consultório, justamente o lugar onde estou agora, a escrever a crônica de hoje a tarde, véspera de um feriado alargado, dia 28 de abril, do qual se aproveitaram alguns sindicatos, para ensejar a deflagração de um movimento grevista que pode contaminar com o ócio toda a dimensão nacional. Com um amontoado de prejuízos a já tão notoriamente conturbada situação financeira verde e amarela.
Em absoluto me posiciono contra as greves quando justas. Em verdade não me oponho a movimentos de qualquer natureza desde que as passeatas sejam feitas em conformidade com a lei. Desde que a paz predomine. Não aconteçam badernas, nem ponham fogo nos ônibus, nem promovam arruaças em nome de qualquer sindicato, mesmo sendo um não simpatizante com a sigla da bandeira vermelha, assinada com duas letras em maiúsculo, apesar de considerar minúsculo o cara que a deu começo (desnecessário grafar aqui a sigla PT).
“Stamos em pleno mar. Doudo no espaço brinca o luar. Dourada borboleta” (trecho de O Navio Negreiro, Castro Alves).
Não vou continuar a poesia de um dos maiores poetas da língua portuguesa. Como penso que alguns movimentos grevistas devam continuar a dar prejuízo a já tão sofrida nação, a qual deram o nome de Brasil.
Hoje já é feriado nacional. Alguns profissionais liberais ainda trabalham. Muitos médicos já fecharam os seus consultórios. Já outros, menos afortunados, em dia de plantão, por vezes mal remunerados, atendem como podem, com as armas de pouco fio de que dispõem, dobrando noite, varando dias, nos Ps da vida. Leiam-se pronto- atendimentos, URPAs, pronto- socorros, e por aí caminha a saúde pública enferma de nosso amado país. De mal a ruim.
Por volta da volta das onze horas, quando deixei o consultório, e fui vacinar-me contra a gripe (pena não disporem de vacinas contra a falta de decoro, de total descalabro contra a pessoa humana, principalmente para os que não têm dinheiro, da falta de humor, de alegria, de uma vacina simplesinha contra a dor de cotovelo, quem não a tem?), ao subir a rua principal, nos arrabaldes da praça, naquela hora não apenas cheia de verde oriundo das árvores bem como de pessoas que reivindicaram coisas nas quais acreditavam, parei um cadinho para escutar as falas empolgadas dos palestrantes, que vociferavam gritantes contra o governo constituído, na hora entupi meus dois ouvidos com meus fones de ouvido. Não restam dúvidas que fechar os ouvidos é a solução contra a dissolução, não diria ser remédio contra soluço, ou para parar o susto, quando as criancinhas se assustam.
Uma vez desistido de continuar na praça a ouvir os comícios, jovens lideranças do sindicato tentavam se fazer escutar, outros desescutados partiam a lugares melhores, mais sadios, nossos ouvidos não são pinicos, nem latrinas do mundo, persisti na minha subida pela Rua Direita. Fui guiado pela mão destra.
Mais arriba, andando trôpego, como tartaruga manca, ia o tal rapaz, não mais um rapazola, cambaleante, andando de um lado a outro, o mesmo citado no começo da minha crônica de hoje a tarde.
Ao vê-lo naquele estado de tropeguice manquitola, fiz questão de trocar algumas ideias com ele.
Perguntei-lhe quais as reivindicações feitas. Qual o mote do seu sindicato. Qual a razão da paralização do dia de hoje. Por que o “Fora Temer” que todos cantavam desafinadamente.
O senhor, trôpego de cambota, com as pernas não tortas, cambaleando sofregamente, não sabendo quem era ele, após reconhecer em mim seu doutor, me fez lembrar um amigo do peito, de nome Pirunguinha, bom sujeito, mas vê-lo sóbrio é quase um defeito, acabou ficando para trás.
Uma vez em casa, minha e da minha família, bem pequena, por sinal, foi que pensei no que escrever na tarde de hoje. Véspera emendada de um grande feriado nacional.
Stamos, não em pleno mar. Não doudos no espaço, nem brincando ao luar, muito menos assistindo a douradas borboletas esvoaçarem de flor em flor. Vindo a morrerem depois.
Estamos sim numa situação delicada em nosso amado rincão. Quase de calças nas mãos. Assentados nas praças da desilusão. Com os chapéus abaixados à cata de esmolas, de pires na mão.
Ao ver o tal senhor cambaleante, trôpego, mal se aguentando nas próprias pernas, foi que me veio à baila o título dado ao texto de agora. Que saiu quentinho dos dez dedos das minhas duas mãos.
É ou não é: “Uma greve trôpega”?