E quando eu me tornar?

Ontem, ao cair da tarde, vendo-a morrer, de ela nascer a noite, depois das duas  entra madrugada, a manhã de um novo dia, sucedem-lhes a tarde, noite, e por aí caminham os dias e as noites, a nossa vida é assim, ao subir da academia pra onde sempre vou, ao cair das mesmas tardes passei na morada da minha filhota linda, do seu marido compenetrado, a fim de passar uma vista dolhos encantados na figura lírica do meu primeiro neto.

Os pais do Theo estavam embevecidos a contemplarem o fruto daquele amor, de pé no beiral do seu bercinho branco, tentando alçar seu primeiro voo, embora Theozinho ainda não saiba voar.

Creio que meu genro, vestido a caráter para malhar, e minha filha, se preparando para um banho, ao me perceberem a chegada, sem a mochila companheira, logo deixaram o Theo para que eu tomasse conta dele, até que os dois voltassem das suas intenções enumeradas antes.

Com que felicidade, genuína, coisa de avô, tomei meu neto pelos braços, levei-o à sala perto, liguei a televisão, para assistirmos, os dois, pela Netflix, a um programa infantil.

A televisão nos transportou aos nanicos anos da minha infância. Já que o Theo ainda estava na dele. Canções como: “a galinha pintadinha, atirei o pau no gato, fui no tororó”, e símiles, tomaram conta de nós por umas boas duas horas.

Theo ficava focado tanto na televisão quanto nas figuras, em desenhos animados, tanto da galinha pintadinha, quanto no pau que foi atirado no gato, ainda admirado pelo tal tororó. E eu mais ainda. Cantei, sonhei, pensei, durante as duas horas oníricas as quais passei junto ao meu querido neto.

Antes das sete daquela linda entrada da noite de ontem deixei a casa do Theo e fui em direção a minha.

Quase onde mora a seringueira desterrada, fincada a contragosto numa pequena praça, se ela pudesse voar bateria os galhos transformados em asas em direção à Amazônia, de onde a transladaram sem o seu aceite, deparei-me com uma figura velha conhecida.

Era um idoso, antes, em poucos anos, ainda cheio de vitalidade. Agora ele não mais pode caminhar segundo os ditames das próprias pernas. Carece de um cuidador para se deslocar, já que por ele mesmo não consegue. Meu amigo velho mora numa casa contígua à minha. Jaz deitado a uma cama, vivendo nos descontos, dando trabalho aos outros, despesa que ele mesmo custeia, já que tem uma aposentadoria gorda. Aquele senhor, alquebrado pelos anos, tem a ventura de ter uma família que lhe oferece respaldo, em sua velhice frondosa em anos.

Meu pai, aos setenta e sete  veio a falecer em meus braços, vítima de pertinaz enfermidade. Ainda me lembro de minha mãe, já idosa, cuidando dele, com a capacidade frágil que a idade a dotou. Muitas vezes, durante o banho, quando meu pai não conseguia apoiar-se em suas próprias pernas acabava caindo dentro do box do chuveiro, ela me chamava ao telefone. Não morava na casa onde cresci. E sim noutra perto, que daqui, de onde escrevo, se deixa vez pela metade. Quando podia para lá acorria. Quando não, outros amigos o socorriam. Naqueles idos anos ainda não haviam os cuidadores, lucubro, anjos sem asas que felizmente agora são convocados à guerra, quando famílias de recursos deles precisam.

Lá, onde meus olhos podem avistar, vive minha querida irmã Rosinha, moradora da mesma casa onde meus pais viveram grande parte das suas vidas. Pena que hoje eles estão em outro local, creio, dentro da minha crendice de idoso que ainda não me considero, estou num momento fecundo da minha existência terrena, um logradouro onde reina a paz, contornado por lindos jardins, onde flores multicores são zelosamente cuidadas, a exemplo dos enfermeiros que nos dias de hoje cuidam dos idosos que não mais conseguem zelar por seus restos mortais. Que antes tomaram conta de filhos, netos, e descendentes diretos.

Na mesma rua, de tantas e quantas lembranças eternas, mora o que sobrou de uma tia querida. Dodó, apelido carinhoso que os tantos amigos nela inseriram, hoje vive ligada a modernidades médicas que nela mantém um sopro fugaz de alento de vida. Caso seus filhos desatarem aqueles respiradores, desligarem o oxigênio continuamente bombeado, retirarem as sondas, stomas, deixarem as suas débeis veias em paz, tia Dorinha iria morar no mesmo lugar do seu marido, ao ladinho exato dos seus pais, dos meus, e de tantos pais e avós que moram no céu.

Tenho falado muito em morte, nas últimas crônicas. Tenho escrito com extrema voracidade sobre o céu, no outro lado da vida, se é que eles existem. Tenho deixado de lado a antítese do céu, nomeado inferno, lugar encapetado, habitado por capetinhas fogosas, que dançam sedutoras de pecado ao redor de fogueiras labarédicas.

Tenho me estendido tanto em comentar sobre enfermidades pertinentes à velhice, em idades avançadas, como se eu mesmo já me tornasse uma daquelas pessoas dependentes de terceiros para continuarem vivos. Seria um vaticínio em causa própria? Já que sou piamente credor no destino que cada um de nós tem traçado, não nas linhas da palma da mão, nem na transparência de uma bola de cristal.

Ontem foi um dia especial. Embora todos sejam cópias xerox dos demais.

A tarde passei a ser pajem do meu querido Theo. Por horas amenas e felizes.

Uma vez perto de casa, embora não o tenha visto, sei que naquela casa, pertinho de onde moro, vive, cuidado por uma cuidadora, tutelada por uma família que acolheu o seu idoso com o carinho de pai, ou avô, continua a sobreviver mais um velho.

Naquela casa da Rua Costa Pereira, de número 152, viveram meus pais. Onde hoje mora a Rosinha. Na casa de cima, poucos números adiante, ainda vive, embora não considere aquilo vida, mais uma tia querida. Cercada de mimos dos filhos e netos.

Noutras casas da minha cidade, e de outras, vivem pessoas presas à existência por um sopro de vida. Penso, me perdoem os que pensam diferente, que a mesma vida deve ser desfrutada em saúde. Não num leito de hospital, sem ao menos conseguir levantar um dedo da mão, esboçar um pequeno gesto, tentar se fazer entender que não está de acordo em viver artificialmente, ligado a aparelhos, como um vegetal vegetante, que ainda respira quando apreciaria não mais respirar. Por favor, lhes suplico: “caso eu ficar assim, deixem-me partir”! É o testamento que, caso não o deixar por escrito, entendam, ao lerem esta crônica, ela foi portadora da minha derradeira vontade. E não precisa ter firma reconhecida em cartório. Vale o meu desejo manifesto nestas linhas todas.

Como epílogo, nos afinais, quando assim estiver, sem a capacidade de escrever, de pensar, de caminhar, de amar, de me apaixonar, não a chamada paixão que o tempo cuida de sepultar quando a beleza da borboleta azul fugir das minhas lembranças, quando aquele corpo escultural der lugar a carnes caídas, seios em pelancas que olham em direção ao andar inferior, uma vez que as nádegas se perderem em meio a celulites tamanhas, quando não mais conseguir ditar os meus desidérios, deixo aqui, na linha do fim, essa pergunta, expressa como um último pedido, como se moribundo fosse: “quando eu me tornar aquilo, ou aqueles, quem vai cuidar de mim”?

Tomara meus filhos, netos, oxalá, todos eles, ou parte deles, tomem conta do que sobrar do velho decrépito que tomou conta total ou parcialmente do que fui, e não mais sou.

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