Hoje, ao abrir as persianas da minhalma, descortinou-se a escuridão

Ontem choveu um bom bocado.

Não onde estava a passar o fim de tarde, entrando noite adentro, na intenção de ir a uma reunião de meus confrades, médicos escritores, que terminou quando o relógio apontava perto de dez da noite. Foi um agradável encontro, ao qual peço perdão aos colegas que lidam não apenas com a vida dos outros, como também dotados de uma sensibilidade ímpar, pois apreciam poetar, cronicar, entram pelo caminho das letras unidas, e sou bastante ausente das horas em que eles ali ficam naquela sala espaçosa, morada de nós mesmos, da tal entidade que congrega a nossa classe, de nome CRM.

Deixei a capital mineira com a noite mostrando-nos a face escura. Não chovia, como aconteceu no dia anterior na minha querida Lavras.

Aqui aportamos por volta das duas da madrugada. O meu sono foi frugal. Como da minha companheira de jornada.

Uma vez desperto tudo aconteceu como dantes. Uma ducha morna fez questão de tirar o resto de sono que pairava dentro de mim. Um cafezinho magro nem tive tempo de tomá-lo. Mais tarde cuido disso.

Hoje, 27 de abril, logo o mês de maio mostra as caras, a manhã amanheceu fresca. O sol encoberto, uma chuvinha miúda me fez apressar os passos. Estava sem a companhia de um guarda-chuva.

Quase, na hora em que me encontro agora, sete da manhã, não se pode ver o azul do céu. Mais tarde talvez ele se mostre da cor que adoro. Não me sinto bem em dias nublados. Quando as nuvens cinzentas colorem o azul de outra cor, que não aquela, minhalma fica da mesma forma. Taciturna, angustiada, introspectiva, da mesma cor do céu cinzento que hoje acordou.

Dizem, no que acredito, piamente, que quando a neblina baixa o sol racha. Sábio ditado popular.

Mas, pensando sobre a chuvadonha que ontem despencou por aqui, ao descer a rua percebi sinais evidentes de sua passagem: chão molhado, folhas verdes despencadas, sacos de lixo jogados onde não deveriam, até uma sombrinha morta se mostrava bem perto do passeio. Foi quando perguntei aos passantes qual seria a causa da morte da sombrinha? Decerto foi a chuva forte. Ela morreu antes da hora de sua dona poder abri-la. Como algumas crianças vêm a falecer precocemente, a um chamado extemporâneo de Deus Pai.

Como disse antes não me sinto bem em dias cinzentos. A minha alma se acinzenta também. Meu coração não consegue sorrir. Como seria o sorriso dos corações? Deve ser um sorriso vermelho, não branco, pois a cor do sangue é vermelho rutilante. Da mesma cor do sorriso dos corações.

Hoje cedo cheguei ao consultório mais tarde que o costume. A explicação salta aos olhos. Foi devido à viagem a capital do meu estado. A não tão bela Belo Horizonte. Como era nos bons verdes anos quando ali estudei.

Logo logo o sol deve se abrir. No momento, sete e trinta e seis minutos, o cinza predomina.

Nunca seria demais recordar que, em dias assim, o interior do meu interior mostra-se da mesma cor. Minha alma fica triste. Creio que muitos iguais ficam da mesma forma tristonhos. É a vida, nossa, de vocês todos.

Ao chegar a onde escrevo, como ainda sou médico, a partir das oito da manhã, a primeira providência foi abrir a persiana verde recém- consertada. Com ela abri as duas bandeiras da janela de vidro. Mas não foi o bastante para desfraldar a tristeza que dormiu dentro da minhalma.

Ainda persiste, dentro de mim, a escuridão. Tomara logo, bem precoce, ao nascer o sol, a anterior cinzentice lúgubre da minha alma, sensitiva e sofredora, mude de cara. Tomara.

Foi o que aconteceu logo a seguir. Pena, mesmo com o sorrir do sol, minhalma continua da mesma maneira, amargurada, ensimesmada, tristonha e encabulada.

Simplesmente sou assim.

De nada adianta tentar abrir as persianas de minhalma. Se dentro dela continua a escuridão.

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