Amo as manhãs frescas como as de hoje. Tenho sonora aversão pelas noites escuras. Adoro sair de casa imerso no clarume da lua que, pouco a pouco, observa o sol nascer, iluminando tudo com seu hálito amarelo. Parece que o sol não tem o costume de escovar os dentes. Talvez seja essa a razão da amarelice do seu sorriso, dos raios de sol os quais comparo aos nossos dentes, muitos humanos não os têm num brancume perfeito, por falta de escovação apropriada.
Já a noite, escura e sossegada, por ela não tenho paixão. Considero uma perda de tempo passar tantas horas vazias sem nada a produzir, nenhuminho texto, por pequeno que seja, nenhures trabalho literário, como me apraz escrever nas madrugadas, como a que hoje me acordou. Durante o sono, poucas horas passo na cama, nenhuma inspiração me assalta. Um preto branqueia-me os pensamentos. Aliás, nada penso durante a noite. Penso que a própria noite não a ama. A noite não dorme. Passa envolta num lençol escuro, teria a noite olhos fechados? Até inda agora, aos sessenta e sete anos, completarei sessenta e oito dia sete de dezembro, não consegui descobrir se a noite dorme, ou passa, como eu, fingindo dormir.
Já conheço aquela senhora, que talvez, a meu exemplo, não aprecia a noite, com aspecto de menina moça, desde quando era casada com um amigo meu.
Bem sei dos seus dotes de dona de casa. Não sei se ela, além de ter sido amada esposa, dona de casa exemplar, mãe extremada, tinha outra ocupação além dos enumerados acima.
Quando seu amado marido nos deixou viúvos, ela de homem de baixa estatura, eu de um amigo chegado, imagino o quanto ela sofreu. Como deve ter acontecido aos filhos, aos netos, se é que meu amigo, seu marido, conheceu-os.
A minha hoje amiga tem diminuta estatura. Talvez a medida que ela inspire seja igual a do seu marido falecido. Mas, o peso que brota dela é mais leve que um buquê de rosas amarelas, ou de outra cor qualquer.
E como anda a minha amiga a qual me inspirou essa crônica de agora! Ela não corre, como eu, nos finais de semana, nos domingos tempranos, na esteira da academia a qual frequento no debrum das tardes quase mortas.
Hoje mesmo, num dia atrás, ao descer a rua, em direção a onde estou, no meu consultório de urologia, idem onde dois computadores pedem descanso, e não os atendo, passei por ela no meio do caminho. Eu vinha de cima. Ela da parte mediana da cidade. Talvez, penso, da mesma casa onde morava com o marido e seus filhos que hoje lhe deram netos.
Ela anda veloz como o casal de seriema pernalta que corre junto pela pastaria, saltando cercas, fugindo de nós, como se fossemos capazes de fazer-lhes mal. No máximo pode acontecer um atropelamento, deixando os corpichos magricelas do casal de seriema esmagado na estrada poeirenta no período de seca, barrento nas águas em tempos de chuva mansa.
Hoje a vi subindo a rua. Ela caminhava solitária, sem uma das suas filhas. Com quem anda por vezes nas ruas.
Já eu, como de hábito, desço em minha própria companhia, bem acompanhado pela minha solidão, por vezes compartilhada por quem comigo cruza nas descidas diuturnas.
Não vou declinar nem o primeiro nome muito menos o sobre da minha querida amiga andarilha lépida. Vou chamá-la, simplesmente, de “Madrugar das Madrugadas”.