Sai Cledina entra Josiane

“A morte e a vida são contrárias. São irmãs. A reverência pela vida exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir”. Assim um dia afirmou, com muita capacidade, o grande cronista Rubem Alves, nascido em Boa Esperança, a mesma cidade onde nasci, embora lá não tenha crescido, num momento de rica inspiração. Tempos depois ele veio a falecer. Creio Rubem Alves estar em paz, num lugar lindo, pois ele permitiu que a morte chegasse, depois de tanto nela falar, reverenciando a vida, sabiamente, sabedor que tanto a vida, quanto a morte, são contrárias, embora convivam harmonicamente, no mesmo sossego que pregou nosso Senhor Jesus Cristo, uma vez crucificado por obra e graça de seus filhos. A quem amou com todas as suas forças, deu a vida por nós, morreu com serenidade, aceitando a morte como fez com a vida, da qual se despediu um dia, num sorriso de candura e resignação incomparáveis.

Mais uma vez preambulei sem dizer a que vim.

Falar em vida e na morte para muitos é vã filosofia. E muitos não apreciam essa conversa ruim.

Mas, médico, lidador tanto com um lado da moeda, como do adverso, a vida e a morte são lugares comuns.

Médicos têm, por inclinação, a missão de trafegar entre uma e outra. Muitos jovens esculápios, não bem formados, não conseguem transitar pela mão certa. E entram na contramão da estrada, também chamada de vida, não conseguem evitar as indesejáveis colisões, batem o carro e do choque saem desnorteados, apalermados, sem saber de quem foi a culpa pelo fracasso de não chegarem ao diagnóstico correto, levam a família do paciente ao desespero, principalmente quando a relação médico paciente não foi cordial, desse entrechoque nascem as frequentes reclamações, principalmente quando o doente é usuário do serviço público, que não oferece condições de bom atendimento, mais uma vez a culpa do ato falho recai sobre o pobre profissional de saúde, fincado na trincheira de um guerra inglória, onde é o alvo principal das querelas tantas que enfrenta no seu cotidiano cruel e mal pago mais uma vez é o médico, pobre dele, de cada um de nós.

Tenho vasta experiência neste assunto.

Aos sessenta e sete anos pensava ter idade para me aposentar. Não da urologia, das cirurgias, que tanto me aprazem praticar. E sim das unidades de saúde, tanto num posto de saúde perto de onde estou, quanto de um mais longe para onde vou às quartas e quintas- feiras, não consigo ir pelas próprias pernas. Vou de lotação mesmo, graciosamente, graças à minha idade longeva, aos mais de sessenta e cinco anos a gente não paga mais circular.

Ontem foi dia de ir ao tal posto de saúde perto.

Deixei meu consultório quando meu relógio de parede mostrava mais de nove e meia da manhã. Ali cheguei pontualmente as dez. A tal unidade de saúde estava com gente saindo pelas paredes e janelas fechadas. Por dois motivos principais. A campanha de vacinação contra a gripe e os usuários normais.

Adentrei, depois de pedir licença a um enorme fila de pacientes, tive de me esgueirar por uma fresta minúscula, quase dando de ombros em mulheres e homens, o tal posto de saúde era de tamanho exíguo, mal permitia a presença de mais ou menos vinte pessoas, ali se apertavam mais de cinquenta, e, afinal, consegui assentar-me àquele banquinho tosco, assinar o ponto, e começar a chamar os consultantes da manhã.

Uma atenciosa e velha conhecida enfermeira tentou auxiliar-me na chamada dos pacientes. A maior parte esperava num banco distante da minha sala. Por este motivo não ouviam o meu chamamento.

Depois de meia hora de consultas, a maioria, simplesmente, encarecidamente, me pedia para transcrever pedidos de exames, outras que rabiscasse receitas de outros colegas ausentes, uma minoria queria o urologista que atendia em outro local. E era encaminhada a mim mesmo. Deplorável desconexo. Inegável, ininteligível mal entendido, pura burocracia de mau paladar, pois em tempos recentes fui transferido a outra unidade de saúde, para exercer a minha outra face, a de urologista praticante. Quando, perfeitamente, poderia atender ali mesmo, com mais conforto aqueles que gostariam de ouvir, do meu dedo indicador da mão direita, como estava a saúde da sua próstata idosa. Coisas e loisas de um sistema emperrado, mal amado, de um país chamado Brasil.

Ontem duas senhoras esperavam do lado de fora as suas vezes.

A primeira a entrar foi dona Cledina.

Clarinha como nuvem sem sinal de chuva, ansiosa, falante como papagaia linguaruda, amigável como tantas que ali procuram, não apenas o alívio de suas dores, bem como a cura tão desejada. Por vezes não alcançada.

Assim que dona Cledina entrou na minha sala foi logo abaixando a calça. Ainda bem que usava calcinha branca.

Entre assustado e atônito olhei o que ela queria me mostrar. Era uma mancha enorme, roxa, logo na parte interna da coxa. Como urologista pouco entendia do assunto. Logo a aconselhei a procurar um dermatologista.

Foi dela que partiu o diagnóstico sobre a etiologia da tal mancha. Ou seja a causa de tal acontecimento: “doutor. Foi macumba mesmo, mal olhado de um fulano de tal, que não gosta de mim”! Na hora da fala da afoita dona Cledina não consegui conter o riso. Segurei a boca, mas ela abriu, mostrou os dentes, sorri disfarçadamente, mal tive sucesso na empreitada.

Assim que ela deixou a salinha acanhada, com o papel do encaminhamento na mão direita, como um troféu, sorridente, agradecida pelo atendimento fugaz, ainda bem com as calças levantadas, pela mesma porta aberta adentrou a dona Josiane.

Da mesma forma espevitada, entre angustiada e tristonha, sintomas alarmantes de doenças tidas como emocionais.

Dona Josiane não abaixou as calças. Ao revés. Ficou amuadinha ao seu canto, por fim assentou-se à cadeira, por sorte não caiu de costas pra lua.

Ela, depressiva, em uso de medicamentos de uso contínuo, deixou a sala mais calminha e levemente animada. Depois de saber que eu, além de médico sou escritor, mostrei-lhe meu Mugido de Vaca e Cheiro de Curral, escondido naquela pasta de couro negra, trazida da Argentina, ali conhecida por Burral.

Era perto de onze horas e meia quando deixei aquela unidade pública de saúde pensando, tanto na morte, como na vida. Como bem Rubem Alves filosofou.

Assim que dona Cledina saiu entrou Josiane. Pela mesma porta, com os mesmos queixumes, quase idênticos.

Ali, para onde rumo agora, quase sempre é a mesma coisa.

Por aquela porta aberta ora entra a depressão, ora a ansiedade se manifesta. Doenças tão ou mais prevalentes quanto a pobreza nesse nosso amado e tão sofrido Brasil.

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