Sempre imaginei, desde criança, dotado de imaginação criativa, enxergando andorinhas onde voavam pardais, que o passado deveria estar guardado num porão escuro, de uma casa velha, ambiente mofado, morada de morcegos e insetos noctívagos, logradouro evitado por aqueles que desdenham do que ficou para trás, e preferem ficar pensando no presente, no futuro, sem saber que tudo isso, o passado, reflete não apenas no tempo de hoje, assim como no que vem pela frente.
Mas, quando o mesmo passado me cutuca, da janela de onde escrevo percebo-o me olhando pelos olhos daquela rua de tantas lembranças singelas, por onde sempre passo ao cair da tarde, entro nas casas de parentes, numa de cima ainda mora uma tia querida, noutra, onde meus pais moravam dentro dela mora uma irmã, de nome Rosinha. Já as demais, em sua grande maioria, agora sofreram uma transformação radical. De residências familiares viraram moradas onde médicos exercem sua notável arte, a de curar quando o caso tem cura, e de consolar quando a presença da morte é inevitável.
Aquela rua me faz sempre olhar o passado com olhos não apenas de nostalgia como de saudades imensas. De quando era criança, da minha cada vez mais longínqua infância, da esperança de descobrir, naquele pinheirinho feito árvore de Natal, presentes espalhados de véspera por meus pais, não o velhinho de barba branca, como hoje estou, caso deixasse a minha crescer, no qual cria antes de me tornar um idoso descrente. Não na vida, e sim na ventura de ter tido pais como eles dois, e não poder cuidar com mais desvelo de ambos quando as enfermidades adentraram-lhes o corpo frágil, por culpa única da idade provecta. Ambos vieram a se despedir da vida em meus braços incapazes, como médico, tanto de devolver-lhes a saúde, bem como a juventude perdida, em nossa longa estrada a ser percorrida.
De vez em sempre, caminhando, pelas próprias pernas, ainda fortes e corredeiras, vou com elas duas a lugares nos quais não tinha a intenção de ir adiante. Assim foi no dia de ontem. Domingo, véspera desta segunda-feira, depois de mais um feriado alongado.
Queria ir ao cinema. Sem o concurso de um carro.
Deixei a minha caminhonetinha estacionada a frente de minha casa. Ela apenas é usada aos finais de semana, quando tenho de ir à minha roça, levando em sua caçamba poeirenta coisas que não posso levar em meus braços, não tão fortes como minhas duas pernas musculosas.
O filme que estava em cartaz era de ação, emoções fortes entrariam por nós adentro, depois de cenas espetaculares recém-emersas daquela tela gigante. Em 3-D, através de óculos especiais, que nos foram ofertados por amáveis jovens postados à entrada daquela casinha escura, local onde ainda se pode namorar, comendo pipoca quentinha, além de uma latinha de refrigerante, vendidos a preços não convidativos, num quiosque de posse do cinema mesmo. É uma forma louvável de engrossar a receita dos cinemas, já que em dias normais eles ficam apenas entregues à presença dele mesmo. Com as luzes apagadas, as poltronas desprovidas do assento dos amantes da sétima arte, sem a tela estar iluminada pelo filme em exibição.
Como disse fui andando, com meu fone de ouvido a escutar uma boa canção das antigas, escolhendo como percurso locais por onde costumava andar em tempos pretéritos.
Pela rua Direita fui pelo passeio do mesmo lado.
Dobrei novamente a mão direita, passando pertinho do prédio onde tenho consultório. Dessa feita não passei pela rua citada antes. Para tentar economizar minhas pernas andejas galgando um morrão enorme, conhecida antes por Rua do Mirante. Mesmo assim uma descida gigantesca me esperava. Que passeios mal cuidados deslizam através dela!
Uma vez perto do Tiro de Guerra dobrei novamente à esquerda. Em dois minutos estava subindo outra rua bastante familiar, onde morei em tempos mais jovens. Ao olhar o mostrador negro do meu aple watch percebi que faltavam apenas cinco minutos para a sessão do cinema começar. Deveria me apressar.
Uma vez no alto de outro morro passei na cara de uma casa imensa, que eu mesmo edifiquei, assim que o médico que ainda mora dentro de mim aqui aportou vindo da Espanha. Foram mais de dois longos anos de construção, catando pregos esparramados, olhando os diligentes pedreiros em suas fainas laborais.
Ainda tenho saudades dela, pois foi ali que meus filhos cresceram, de onde saía num carrinho azul para mais uma jornada nos três hospitais; daqueles quatro quartos enormes, das duas salas ainda maiores, da varandona que passeava por quase toda casa, tanto no andar de cima quanto mais abaixo, nos seis cômodos de banho, no espaço gourmet, dotado de um barzinho que não sei se ainda vive lá, no vazio que une os dois andares, pé direito elevado, na sala ampla feita biblioteca onde meu computador vivia incomodado pelos meus dedos agitadores, onde escrevi o livro “O Mundo das Sombras”, o qual retratou a vida dentro de um presídio, a antiga cadeia de Lavras, o espaçoso local onde ainda piscina a piscina, um área de churrasco, um enorme jardim bem cuidado pelos moradores de agora. Tomara não me tenha esquecido de outras dependências da única casa que fui capaz de edificar, pois a partir de então só tenho construído livros, empilhado letras, acastelando sonhos.
Assim que passei pelo portão, de duas bandeiras, da garage, onde dois pivetes afanaram minha moto novinha, percebi uma delas caindo aos pedaços, de tão velha.
Empurrei uma das partes do portão enorme que rangeu e quase foi ao chão. Lá dentro da enorme casa dos carros estava apenas um veículo. Não pude saber, pelo adiantado da hora, se os inquilinos ali estavam. Muito menos interfonei.
A fechadura da bandeira de cima do portão de ferro pintado em cinza deveria estar quebrada. Não se podia trancá-la. Foi por ali que adentraram os dois menores de idade que roubaram minha moto e ficaram impunes, justamente por serem os menores inimputáveis perante da lei. Infelizmente. É a lei.
Ao deixar o meu antigo lar, entregue a moradores que cuidam como podem daquela casa imensa, se torna difícil tratar com esmero tantos e tantos metros quadrados, com quase quarenta anos de construção, ao vê-la de portão caído, enferrujado, rangendo ao menor esbarrão, foi que me levou a escrever, mais uma vez, sobre o passado.
Ele não está soterrado. Muito menos olvidado. Nem deve ser enterrado, em tempo oportuno. Isso é, nunca.
Ontem, ao passar por aquela casa, não tão antiga, de recentes memórias, ao ver aquele portão entregue ao abandono, ameaçando cair, quase um escombro, fui longe, há um tempo perdido entre a bruma dos anos.
Que saudade, não apenas daquela casa enorme, como também do meu passado. A ele volto, dou marcha-a-ré, sempre que posso. Tomara que ainda possa, por anos e anos mais.