À sua falta, não sei o que vai ser de mim…

Inda ontem, tarde dando início à noite, o azul do céu ainda imperava soberano no alto, em meio a nuvens rarefeitas, fui ao cinema. Ali estreava a avant première de um filme nascido da inspiração de um autor, o canadense Willian P Young, espírita por crença, um retumbante sucesso com mais 18 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, bem mais que um dedinho cortado à décima parte que qualquer um dos meus quinze, que, não apenas faz acreditar na presença de Deus, como tem o talento de fazerem ir às lágrimas aqueles dotados de sensibilidade ímpar.

Ao lado desse excelente filme, em outra sala contígua era exibido outro, com fila muito mais longa, típico filme norte-americano de ação, numa série que já está na sétima edição, de nome Velocidade Máxima Oito. Fato que bem comprova a exígua capacidade do brasileiro de colocar na cabeça não apenas o chapéu, como bem usá-la no quesito pensar, lucubrar, dar asas a imaginação, filosofar, sofismar.

Em certo ponto da película, linda, tanto nas ideias quanto no cenário, assim que o protagonista encontrou a filhinha desaparecida em circunstâncias cruéis, num sepulcro provisório,  e pôde dar a ela um enterro de corpo presente, assim que a criança foi sepultada num lindo jardim, de posse da família de Deus Pai, a atriz, no papel de Deus, e seus discípulos, derramaram por sobre a cova aberta de fresco gotas muito parecidas a um óleo claro, sobre as quais diziam ser resultado da coleta de todas as lágrimas derramadas pelo pai da linda criança em todos os seus momentos de dor, angústia e aflição.

Mas não se trata de morte, nem de dor, nem ao menos tristeza, embora ela faça parte de minutos nossos, mesmo que a tentemos enxotar dos nossos corações, que desejo escrever nessa crônica de hoje, sábado, vinte e dois de abril, metade de mais um feriado nacional.

Ela versa sobre amigos. Dos muitos sobre os quais desejaria lembrar, deitar nestas folhas de papel, nascidas por intervenção do meu computador, através do seu teclado de teclas negras e letras brancas, todos eles ditados pela minha inspiração que me assalta sem saber a razão.

Já tive amigos cães. Já os tive humanos.

Em criança tinha coleguinhas de muitas lembranças primaveris. Muitos desses amigos já se foram. Para além do azul azul do céu que recém se coloriu. Já outros ainda me acompanham, na minha longa vida, espero por muitos e muitos anos mais.

Caso fosse citá-los a todos, os amigos de fato, não da onça, como são chamados os amigos apenas nas horas de alegria e beberrança, se os nomeasse, não por ordem da força da amizade, nem por ordem alfabética, poderia dar começo à lista por qualquer um deles: Januário, Zé Arlei, Gibinha, ele todos já foram chamados a presença Dele. Éramos, em nossa juventude perdida, chamados de os Quatro Mosqueteiros. Agora só restou um deles. Não o D’Artagnan, muito menos o Porthos, ou o Athos, muito menos o Aramis. E sim o escritor que vos escreve – o Paulo Rodarte.

Esses amigos são os mais longevos que minha mente se recorda.

Já agora, perdida a mocidade e não a inventividade, muito menos a capacidade de ficcionar a realidade, não tendo a intenção de confundir os leitores na definição de amigos e colegas de profissão, neste caso tenho incontáveis colegas esculápios que mourejam na mais nobre das profissões ( essa conversa não partiu de mim e já foi o tempo que isso era verdade), mais uma vez declamo: “ se entre cães encontrei amigos, entre os da onça continuarei a amar os bichos”.

Vamos aos tempos de agora. O mês de abril já ameaça virar maio. Hoje ainda faz calor. Em maio deve começar o frio.

ELE, com todas as letras em maiúsculo, não apenas me considero seu amigo, é um colega dotado da mesma sensibilidade maldita de que sou possuído, escritor fecundo, creio que um ano mais idoso do que o calendário conta, antes sua carantonha feia era vista num jornal da cidade, de nome Tribuna de Lavras, ao lado da minha mais feia ainda; agora, em sua enfermidade, tornou-se não apenas mais amigo, quase uma sombra que me acompanha, no whatsAp, enviando-me mensagens da mais pura amizade, poder-se-ia dizer amor.

Um amor diferente. Distinto. Mas com a mesma pujança de quando a correnteza bate na pedra da cachoeira que despenca do alto, mais forte depois de uma chuvadonha.

Ele, meu amigo, de tempos pra cá, tornou-se meu melhor amigo. Depois que os demais partiram. Os citados antes.

De vez em quando passo por sua casa. Ele, um dos seus cuidadores, pessoas extraordinárias, depois de deixarmos a sua querida e amada esposa entregue aos seus afazeres, me acompanha em minhas curtas jornadas.

Uma vez primeira fomos a Ribeirão Vermelho. Ele, o meu amigo, do meu lado, no banco do carona na minha caminhonetinha Estrada Cabine Estendida. E o seu enfermeiro no assento de trás.

Em outra ocasião fomos até meu sítio, na zona rural de Ijaci. Fomos todos gargalhando, pilheriando, até lá. Ontem de novo o apanhei, após outro whatsAp dele, fizemos um city tour pelas ruas apinhadas de carro da nossa querida Lavras. Mais uma curta viagem, tomara a dele, a um lugar mais alto, bem no alto, azul, demore muito mais.

Naquele curto trajeto da sua casa a minha, ao pararmos a frente a conhecidos, no meu condomínio, fiz questão de parar a caminhoneta. Foram fugazes momentos. Foi quando notei a emoção que tomou conta do meu caro amigo.

Nas duas ocasiões em que paramos, para cumprimentar amigos, percebi a saírem-lhe dos olhos do meu amigo gotas salinas, dos dois cantos laterais da sua visão sensível. Notei que ele chorou, copiosamente. Após exclamar em tom de sonora angústia que uma terrível e insidiosa moléstia o estava matando. Embora, na sua valentia de mosqueteiro, o quinto, resistisse estoicamente a sua presença nefasta.

Deixei-o em casa. Seu cuidador se despediu de mim. Ainda me lembro do esforço hercúleo que meu amigo, da mesma idade minha, entrou em sua casa.

Durante o filme A Cabana confesso que, no momento em que o pai acabou de sepultar o cadáver ainda insepulto da filhinha querida, quando os deuses pai, filho, e espírito santo, derramaram o tal óleo resultado das lágrimas derramadas em toda a vida amara do pai, não segurei as minhas.

E quando meu amigo Pedro Coimbra, grande escritor, jornalista dotado de sensibilidade igual ou maior do que o seu coração, vier a faltar? Não sei o que vai ser de mim.

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