Que pena que ele cresceu!

Um grande aquário de água doce me faz companhia desde tempos de antão. Por ali, naquela piscina espelhada, onde se observa o borbulhar de gotículas de oxigênio, pois nem os peixes convivem sem ele, nós, muito menos, já passaram incontáveis seres cobertos de escamas, de várias espécies e dimensões. Pela experiência acumulada, nestes anos todos a observar os peixes, quando chego ao consultório, onde exercito meu outro lado do rosto, o do urologista escritor, logo cuido de alimentar os remanescentes. Pois ontem havia tantos. Trasanteontem quantos. Já hoje, ao recontá-los, tarefa quase impossível pelos seus movimentos constantes, contatei que faltavam dois. Justamente os maiores que custaram mais caro. Os pequetitos continuam a nadar com a mesma sofreguidão com que escrevo. Talvez mais. Por este motivo, sempre que meu aquário cede espaço, solicito ao entendedor de peixes que me traga justamente os de menor tamanho. Os mais resistentes à vida aquática que elegeram para viver.

Outra reflexão que os peixinhos aquarianos me fazem ver é que a serenidade mora junto a eles. Ao revés do que acontece a minhalma irrequieta.

Peixes que nadam naquela água límpida como a alma das pessoas boas via de regra não crescem. E, salvo melhor engano não se reproduzem, a não ser em mãos de quem entende de reprodução de alevinos. Deixando as considerações de quem pensa ser especialista em aquarismo fora do aquário deixo aqui, nesse texto de hoje cedo, feriado nacional, as minhas lucubrações sobre o crescer, envelhecer, criar juízo, perdê-lo, ir em direção a senilitude, ficar inerme a um leito, melhor em casa do que num hospital, e, logo no momento triste que um cortejo fúnebre se fizer presente, absolutamente não desejo que o dia em que tiver de morrer chegue, mais cedo ou mais tarde, passear pela vida inteira sem deixar descendentes, nem que seja uma saudade latente, de um ou dois filhos, que bom se um deles me fizer presente um neto, a continuação de mim mesmo, pois, mesmo que deseje, aqui não ficarei para semente, nem que sonhe com a eternidade.

Há exatos nove meses meu primeiro neto nasceu. Ele recebeu o nome de Theo. Participei, entre afoito e apalermado, junto ao pai do meu neto, de quando o obstetra competente o retirou do útero da sua mãe. Tenho as fotografias deste grande dia na memória do meu celular. Embora tenha apagado a maior parte das fotografias que entulham os arquivos vivos do meu i-phone novo, jamais conseguirei deletar as lembranças daquele parto cesáreo, da carinha expressiva do meu netinho a descortinar a luz da sala de cirurgia, ser afagado pelas mãos carinhosas de sua mãe, minha adorável filha, de nome de mulher guerreira, como a sua mãe, Bárbara, do dia quando o meu neto nasceu. Ontem, nove meses se passaram desde aquele inolvidável dia.

A cada dia passo por sua casa. Pertinho de onde estou a escrever.

Antes ia duas vezes ao dia. Na parte da manhã, ao cair da tarde, quase noite.

Agora, recomendado não por ele, e sim pela prudência que os anos me ensinaram, apenas visito meu querido neto depois das atividades que penso me fazem rejuvenescer, numa academia de um clube fincado naquela rua de tantas lembranças que só não se eternizam por uma máxima que aprendi, nestes sessenta e sete anos longos, pois dizer que voltaremos aos verdes anos de nossa vida se trata de mera quimera, que logo se dissipa como a névoa branca que o sol descobre.

Theo, ao nascer, era bem pequenininho. Quase do tamainho dos peixinhos menores e mais resistentes que no meu aquário nadam. Creio que uma fita métrica, espichada ao comprimento maior, daria conta de afirmar com quantos centímetros o Theo nasceu.

A partir da primeira semana, ainda envolto em panos, era ainda um nenezinho, um pimpolho minúsculo, como fui há sessenta e tantos anos atrás, durante as visitas ao meu neto, ao lado deles estavam os pais corujas, constatava, mais e mais, que o Theozinho deixava espaço a um Theo maior. As lindas roupinhas não mais cabiam em seu corpicho espichoso. Tinham de ser trocadas por maiores. Os sapatinhos, tantos que ganhou de presente, mais e mais deixaram de ser apenas vestes dos pés, para serem, ou doados a algum bebê que precisasse, ou simplesmente deixados no armário branco do lindo apartamento onde moraa o Theo com seus pais.

A cada dia que passava a ver o Theo mais e mais ele crescia. E eu envelhecia. O velho não cresce. Ao contrário, mingua em dimensão.

Dois meses depois do nascimento do não mais recém-nascido Theo já lhe antevia, em pouco tempo, o não mais bebezinho, não era e nunca foi chorão, como o avô babão, iria ficar o dobrou do que é agora.

Nunca me preocupei em medir o crescimento do meu neto, como a pediatra dele sempre faz, durante a consulta, que aconteceu no dia de ontem. Como de regra, por sorte minha, meu consultório fica um andar abaixo da doutora Luciana, a coleguinha de escola da minha Bárbara, desde quando as primeiras letras nas duas entraram. Não com a voracidade com que elas adentraram dentro de mim.

Ontem vi o Theo na consulta. Antes ele passou por aqui. Não me viu a escrever.

Não sei quantos centímetros mais ele ganhou. Fui eu quem ganhou de presente a linda visita fugaz do meu querido Theo.

Amanhã, depois de depois de amanhã, em um ano, dois, anos depois de agora, o Theo terá crescido muito mais. E eu não terei crescido nem um centímetro a mais, e sim a menos.

Ele vai ter mais idade. Eu, envelhecerei, de vez.

Logo o Theo vai estar da minha altura. E muito mais.

Em poucos anos, eu, velhinho, corcundinha, curvado sobre o peso dos anos, um senhor de idade, perdida a mocidade, à beira de me incorporar a terra, mais cedo ou tarde, o meu neto, nunca é demais repetir-lhe o nome, Theo, será que o verei doutor, ou escritor?

Não importa a cor da porta. O importante, desde que o Theo de agora bebê vire um garoto, um jovem estudante, um adulto, importante? Não importa o tamanho da porta.

Antes disse: “que pena que ele cresceu”!

Não foi bem assim que quis dizer.

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