Sou-lhes conivente no crime, se é que ele existe

Hoje me preparei, como de vez anterior, como sempre passo por uma escola estadual, no lado direito do passeio, pelo portão adentro, peço para falar com o diretor, amável senhor, me identifico, embora ele já me conheça, desde tempos antes, ele me apresenta à professora de português, uma das minhas faces, a de escritor ela mal conhece, leio uma crônica aos alunos do ensino médio, deixo na biblioteca da escola meu derradeiro livro. Pena que hoje, antes das sete da manhã, vi-me frustrado em minha pretensão. O portão azul forte estava fechado. Uma nova greve começou, tomara ela não dure muito, tomara. A princípio não entendi, pois ontem ele aberto estava. Não pude tentar incutir cultura nas mentes muitas delas obscuras daqueles jovens em busca de um ideal. Um ideal mais e mais distante de ser concretizado, num país tão lindo, com tantos encantos mil, de nome Brasil.

Estamos à véspera de mais um feriadão. A partir de hoje, vinte de abril, o país para. Famílias inteiras deixam suas casas em busca de outras plagas. Praias, cidades do interior, no meu interior já vivo eu, são os destinos mais procurados. Muitas encontrarão percalços em seus caminhos: engarrafamento de carros, azáfama no quentume da areia, mar poluído, preços à hora da morte, saldo bancário no vermelho vivo, o meu ameaça ficar desse modo, cães vadios poluindo os passeios com suas cacas ainda frescas, a mídia continua a mostrar (não suporto mais assistir a tantas delações premiadas, a tantos políticos ameaçados de perderem a sua conta na Suíça, tendo de devolver aquelas somas estapafúrdias aos cofres públicos, em hora ruim toda a dinheirama volta a fazer parte da ladroagem toda, numa ciranda viciosa a que não nos acostumamos, apesar de amarmos o nosso Brasil como todos amam seus filhos, netos, e aparentados (se bem que muitos parentes apenas se lembram da gente quando em apertura financeira).

Por falar em crime, hoje ocupa o noticiário desde o norte ao sul do país, quantos colarinhos brancos hoje estão presos, amanhã retornam a bandidagem, os pobres, pretos e prostitutos amargam cadeia em penas longas demais, sem terem quem os defenda, não podem pagar fiança (bem conheço o sistema prisional abordado no meu livro O Mundo das Sombras). Ontem, ou foi num dia destes, ao passar pelo camelódromo, conhecido por Shopping Popular, um logradouro enfiado num local assaz conhecido por moradores de Lavras, onde se compram mercadorias tidas como piratas, bazares ocupados por donos de ilibada conduta tanto ética quanto moral, tomando como exemplo a família do Demétrius, um amigo meu do Face, futuro advogado, a mãe do rapaz, um tanto quanto desanimada pela crise por que passa, não apenas a lojinha do filho, como as demais, por uma questão, para ela de vital importância à sobrevivência do negócio.

A razão, com ela aperto-lhe a mão, como a de todos os camelôs que ali ganham a vida, honesta e dignamente, é a concorrência desleal que sofrem mercê da quantidade de ambulantes que pelos passeios proliferam. Sem pagar imposto, ilegalmente, que, além de dificultar a vida dos caminhantes, como eu, oferecem os mesmos produtos, DVDs piratas, outras quinquilharias, aos montes, sem a mesma qualidade duvidosa dos produtos vindos da Vinte e Cinco de Março, ou do vizinho Paraguai.

No caso do amigo Demétrius, quando um destes DVDs não roda bem, ele oferece um equivalente, que, caso não mostre o filme com suas legendas ou cenas perfeitas, posso de novo trocá-lo por outro igual.

Sei que, dito e reeditado sempre, que pirataria é crime. E que a lei pune, com o mesmo rigor não apenas quem vende, como quem compra filme pirata.

E quem comete os tais crimes contra a economia popular? Os tais políticos corruptos, os empreiteiros que fazem parte dos propinodutos, os que tentam levar vantagem em tudo, certo? Conforme disse a lei de um ex-jogador de futebol, que anda sumido da mídia. Ou os agiotas que se dizem ágeis no trato com o dinheiro, assaz encontrados em momentos de dificuldades que tanto nos afligem.

Ontem passei pelo camelódromo. Percebi, de soslaio, que a mãe do futuro advogado estava preocupada com a queda nas vendas dos seus produtos.

Conforme ela mesma atestou, a causa é a comentada antes.

Já estive na cadeia, na intenção de retratar a vida de alguns dos seus personagens. No meu livro, já esgotado, de nome O Mundo das Sombras. Ali, naquele cenário obscuro e violento, composto de três departamentos: o Seguro (onde os presos não podem se misturar aos demais), o Inferno, onde ficam espremidos tantos os homicidas, os em débito com a pensão alimentícia, assassinos comuns, os que mataram em legítima defesa; e o Albergue, onde estão aqueles que dentro em breve estarão livres, muitos retornam de novo, pois a sociedade, principalmente em tempos de crise, hipócrita, não permite a reintegração do preso a ela mesma.

Ali, no Mundo das Sombras, aprendi muito. Meus professores foram eles próprios. Muitos se tornaram amigos, como a Célia Barra Mansa, minha personagem que hoje mora livre, numa casinha tosca, local onde a visitei um par de vezes.

Me foi dito que comprar, ou revender filmes piratas é crime. Como incidiram em crimes muitos ocupantes da cadeia de antão. Hoje o mesmo lugar mudou de nome (virou Presídio Municipal de Lavras, maquiaram a cadeia antiga com um pó de arroz de má qualidade). Mas pouco mudaram as condições de vida dos encarcerados: lugar de preto, pobre e prostituta. Os três Ps, a que fui introduzido, nas minhas visitas ao Mundo das Sombras.

Hoje, anos são postos de lado quando ultimei a derradeira página do meu livro. Hoje, dias depois de ter passado no camelódromo, a ouvir a reclamação procedente da mãe do Demétrius, penso, com meus senões, sem medo de me equivocar. Sou-lhes conivente nos seus crimes, se é que eles existem, de fato.

 

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