A delação do dedo-duro

Em tempos de denúncias cheias, muitas delas vazias, quanto mais se mexe em merda mais a mão fica com mau cheiro, o país soçobra, fica à deriva, balouçando em alto mar, o desemprego cresce, a falta de dinheiro rema na mesma mão, a crise vomita, com seu hálito fétido, os bancos da praça ficam lotados de gente à-toa, de papo pro ar, a cidade ressente-se da falta de dinheiro girando, os consultórios médicos, odontológicos, e equivalentes, cada vez mais ficam a mercê deles mesmos. E quem precisa de trabalho fica desempregado, nesta ciranda que gira, roda, como a roda gigante do parque de diversão que um dia parou na cidade, e, não tendo público arriou a lona e foi embora, sem ter nada de lucro, o prejuízo foi enorme, o dono do tal parque antigo teve de demitir todo o mundo e mudar de ramo. Pena que não conseguindo emprego em outra função acabou engrossando a fila dos sem fazer nada, que abraçava quarteirão.

Assim caminha a nação, a qual batizaram de Terra Brasilis, ou, popularmente, Brasil.

Numa cidadezinha perdida entre a serra alta e o morro pontiagudo nasceu e cresceu um meninozinho raquítico, que só não morreu graças à benzedeira do lugar. Uma senhora tida como milagreira, que em verdade fazia milagres como o famigerado Zé Arigó.

Seu nome era Tonico, em verdade um apelido, já que na certidão dos nascidos estava escrito Antonino.

Os pais eram ilustres desconhecidos. Pois, segundo constava naquela casa dos pequenos, uma caridosa senhora era a dona dos meninos abandonados, provedora do bem das crianças desamparadas, nenhum casal assumiu a paternidade do menininho esperto, vivo, franzino, que parecia assistir a tudo ao derredor com seus olhinhos inquiridores.

E ele cresceu, desenvolveu-se pouco, ganhou a altura de uma pequena azalea, um arbustozinho do tamanho bem menor do que a minha imaginação ágil. Mas, na escola onde estudou notabilizou-se por ser inteligente, mas um tanto quanto conivente com as podriqueiras entre os piores maus elementos do lugar.

Foi aluno entre os piores o melhor. No português era o tal. Na matemática normal. Nas ciências era o pioral. Na geografia e no estudo da história do seu país dava o quinal (dava aula) nas professoras, era mestre no assunto.

Antes de deixar o segundo degrau, como queiram, o segundo grau, foi expulso por distribuir colas eletrônicas no exame do ENEM. A partir de então não mais estudou.

Como Tonico não queria seguir o exemplo dos sem- tetos, ficar na praça fumando maconha, ou sendo craque em fumar crack, um amigo, político, ex- vereador, foi eleito a deputado pelo seu estado natal, empregou o conhecido, seu cabo eleitoral, como seu assessor para assuntos que de nada diziam respeito.

Tonico passava o dia inteiro a escutar as trambiqueiras da assembleia, onde os deputados ficavam de braços cruzados, no “dolce far niente” a que estavam acostumados.

Ficou experto em toma-lá-dá-cá, e outras safadezas mais, como funcionavam as propinas, os por fora, os debaixo do pano, quantas notas de cem cabem na mochila enorme, quanto custa, em euros, uma licitação fraudulenta para ganhar a concorrência para construir a hidroelétrica de um rio que nunca existiu no Piauí, divisa com o Maranhão, e coisas e tais.

Passados dois anos seu cupincha, o deputado fulano de tal, filho de cicrano, parente do beltrano, foi levado, pela polícia federal, à força de um par de algemas, num camburão enorme, junto a outros meliantes do mesmo quilate, a uma delegacia em Curitiba. Foram de ônibus interestadual, pois no país, o mesmo de nome Brasil, rondava uma crise sem par.

Ali chegados, num dia fresco, como o de hoje, dezenove de abril, outro camburão os esperava. Foram diretos para um presídio lotado de gente como eles. Como não tinham curso superior, ou diplomas universitários foram depositados em celas comuns, sem televisão, frigobar ou comodidades afins.

Enfim foi agendado o dia para a famigerada delação premiada. O juiz, de nome parecido a touro, só que ao invés de t era m a primeira letra, sem o u do meio, apareceu de terno escuro.

Tonico foi arrolado como testemunha do deputado amigo, o mesmo que o havia empregado, salvando-o do ócio antecipado.

Foi levado a Curitiba de carona num caminhão leiteiro. A viagem durou três dias e cinco noites.

A jovem testemunha de defesa bem sabia de tudo um pouco. Como funcionava o esquema, quanto valia uma propina atual. E quanto pesava a mochila recheada de notas de cem dólares.

No dia do depoimento Tonico entrou no Fórum usando um boné. Foi alertado pelo segurança do lugar que não podia entrar ali com a cabeça coberta. Aos trancos e safanões foi posto para fora a pontapés e pisões. Afinal, como não queria dividir a cela escura com outros colegas marginais, eles eram colarinhos brancos e engomados, e o Tonico nem camisa de colarinho tinha, acabou pedindo um traje social a um aparentado, que morava na capital do Paraná, e entrou na sala onde aconteceria a delação premiada.

O ambiente era solene. Mal se ouvia o zunzunzum de uma abelha piando.

Antes de entrar na sala da delação aconteceu um acidente com o dedo que o urologista usa para examinar a próstata dos que têm mais de quarenta e cinco anos de idade. Não do médico especialista, e sim da testemunha de defesa, vulgo Tonico, em verdade era Antonino o seu nome primeiro. Tonico deu uma topada na maçaneta da porta, com tal veemência, que acabou não apenas quebrando a tal, como fraturou o próprio dedo indicador da mão direita.

Não precisa dizer qual o veredicto do juiz nomeado com um nome parecido ao de touro.

O deputado foi condenado a devolver todo o dinheiro roubado. E ainda a ficar quase dez anos no xilindró.

A delação do dedo duro, de nome Tonico, foi um desastroso fracasso. Para o réu, bem dito.

E para o país, de nome Brasil? Deixo a vocês, meus leitores, o veredicto.

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