O assunto aposentadoria tem sido posto à baila, tornou-se assunto da praça, amplamente discutido, tanto pelo governo quanto por aqueles em vias de, conseguirem, afinal, ficar no banco da praça a olhar o vazio, sem nada a fazer, acordando mais cedo para ficar mais tempo à-toa, jogando conversa fora com os amigos, vendo cães vadios a copiar-lhes a forma de viver, distribuindo migalhas de pão amanhecido aos pardais, em suas algaravias na mesma árvore fadada a morrer, quem escapa da morte?, eu não, tomara vocês me acompanhem, não empunhando a alça do caixão, desejo-o cheio de livros meus, deixem as flores de fora, pois tenho alergia a elas, e não a tenho pela vida, muito menos pelo trabalho, que não apenas dignifica como engrandece o homem, entre parêntesis, leia-se, mulher.
O governo colocou em votação na câmara dos safados (exceções existem), uma lei que estende a aposentadoria a mais anos que hoje se contam. Parece, não sou versado em leis, que a tal medida foi aprovada, não por unanimidade, pois toda ela é burra.
Caso essa lei não recebesse o aval da maioria dos deputados a previdência social iria à bancarrota, como a rocinha do Zé Mané fechou as porteiras, pois ele mal entendia o porquê do leite ser branco e a vaca preta, muito menos a razão do milho não ficar bonito quando não plantado na lua certa, nem muito menos o porquê da vaca apenas aceitar a monta quando na época do cio, da mesma forma acontece aos outros animais, como a égua, a galinha não?, a porquinha sim, a cabritinha da mesma forma, apenas a mulher aceita o macho de qualquer maneira, basta uma piscadela de olhos, uma carteira recheada de notas graúdas, ou a bordo de um carrão do ano (não me olhem com olhos de soslaio, ou contrariados, as feministas).
Deixando a câmara, o governo, os políticos, de lado, perdidos em suas querelas infindáveis, a bordo da ladroagem a que estamos acostumados, voltemos ao afinal, finalmente, por fim.
Eu sempre procurei, já escrevi sobre este assunto, incontáveis inúmeras, infindáveis vezes.
A fonte da juventude eterna sempre foi um sonho colorido da humanidade. Viver, com saúde, e bem, mais do que aconteceu a Matusalém, bem mais, é um objetivo procurado não apenas por cientistas renomeados, assim como por quem nada entende de ciência, me cito como exemplo.
Ir remando de trás para frente, de velho se tornar outra vez menino, assunto já posto num filme de nome “o curioso caso de Benjamin Button”, por mim comentado em outra crônica, trata-se, até nos dias de hoje uma utopia maravilhosa.
De vez em quando pensava ser possível. Já que cuido da minha saúde como o roceiro Jacinto cuida da sua égua Cigana, sua amante das horas certas e incertas, o motel deles é um cupim abandonado, numa matinha sombreada, pensava prolongar-me a vida até quando Deus dissesse não.
Acontece, ao me olhar no espelho, responsável delator da perca da mocidade, ao ver nele minha barba branca, as rugas passeando-me pela face inteira, sulcos profundos nos canto dos olhos, a papada que tento esconder num lifting que não deu certo, nem o fiz, a perda dos cabelos que tão bem cuidados eram, o ar fatigado que meus andejos anos ensejam, não me resta constatar senão o quão velho estou.
Bem que me tenho esforçado para tentar driblar a senilitude manifesta. Não ando de carro. Sou refém de uma dieta rigorosa. Alimento-me a cada três horas. Exercito-me na academia de segunda a sexta-feira, nos sábados e domingos tiro o fim de semana para ser feliz. Sei que quase sempre não consigo. Mas persisto na busca da felicidade, assim como Ponce de León procurou a fonte da eterna juventude, e não conseguiu seu intento.
Já ontem, dia dezessete de abril, penso ter conseguido, afinal, encompridar meus dias.
Já passei dos sessenta anos. Sete anos mais. Em breve estarei setentão. Em pouco tempo, caso alguém, que me fita do alto, não me chamar ao lado dele, e dos meus pais e de tantas pessoas boas que no céu estão, chegarei altaneiro aos oitenta. Mas desejo mais. Seria muita pretensão da minha parte dizer que vou passar dos cem. Mais que Matusalém viveu.
Mas, otimista que sou, com certeza vou chegar aos quase duzentos correndo pelas estradas dos arrabaldes, como hoje faço. E vou continuar a escrever furibundamente como nos dias de hoje, meus amigos do Face podem atestar.
Ontem minha querida esposa me deu uma notícia, a princípio ruim. De péssimo gosto, foi o pensado no momento.
Mas, cabeça fria, depois de muita reflexão, foi a minha querida Rosa a incumbida de saber com quantos anos iria me aposentar do serviço público, tanto no posto de saúde da Chacrinha, quanto pela prefeitura, na especialidade de Urologia, num outro lugar distante de onde escrevo e atendo aos doentes particulares, de um convênio ou outro. Para ali me desloco não pelas próprias pernas, e sim de ônibus circular, gratuitamente, pois tenho a carteira de idoso, o qual ainda não me considero.
Ontem, afinal, ela me fez sabedor da novidade.
Pela prefeitura, no exercício da Urologia, daqui a longos seis anos mais estarei aposentado. Conto agora com sessenta e sete. Fazendo as contas poderei ficar a ver navios na praia seca da minha roça aos setenta e três anos, quase quatro. Pelo Estado, no posto da Chacrinha, aos setenta e um anos de existência. Profícua, sonhadora e escrevinhadora.
Hoje acordei refém de uma premonição estranha. E se eu morrer antes de me aposentar? Se caso não conseguir chegar aos mais de setenta? Por certo não conseguirei gozar os benefícios da tão ingrata, de ganhos tão insignificantes da maior idade, do “dolce far niente” da aposentadoria por idade ou tempo de trabalho?
Mas, afinal, me resta um consolo. Aos mais de setenta e quatro anos estarei assentado, comodamente, a um banco de jardim, observando as borboletas nos seus voos breves. E olhando por baixo da saia das mocinhas de pernas grossas, para constatar se elas não usam nada a esconder-lhes a vergonha que quase não existe mais.
Teria conseguido encompridar meus dias aqui na terra sendo aposentado aos mais de setenta e tantos?
Se não, bem que minha querida amada esposa tentou.
Afinal, a notícia da qual fui sabedor no dia de ontem não foi tão ruim assim. Finalmente uma notícia boa, entre as tantas podriqueiras que a mídia nos informa, cotidianamente…