Que bom que a escola voltou!!!

Ontem, ao brincar com meu netinho Theo, olhando-o em sua inocência pura, olhinhos claros, tentando bulir com tudo ao derredor, distribuindo gratuitamente um sorriso aberto, de vez em quando tentava falar, palavras ininteligíveis, murmúrios, sussurros, ao assistirmos pela Netflix programas infantis, desenhos animados musicados, muitas canções eram do meu tempo: “o pintinho amarelinho, atirei o pau no gato, a canoa virou, a galinha do vizinho”, e tantas mais, de repente, não mais que de repente, me vi nele. Fui longe em minhas lembranças, de quando fui criança, agora um idoso, com alma de menino, entrou nas cantigas de roda, com a mesma quase desenvoltura de outrora.

Quantas e tantas vezes devaneei. Que bom seria voltar nos anos. Viver ao revés, de trás pra frente, como o filme Benjamim Button retratou, estrelado por Brad Pit, um menino que nasceu idoso, foi indo em direção à juventude, a meninice, até voltar ao útero de mãe ( se não foi bem assim que me corrijam).

Em quantas e tantas ocasiões me imaginei chupando jabuticabas ainda por  madurar, disputando-as com os marimbondos e maritacas verdes-mata, quase caí do galho, só não aconteceu por ter meu pai a me amparar.

Quantas e quantas vezes me vi, olhinhos atentos e claros como os do meu netinho Theo, a brincar de patinete e finca, fazer cricar entre elas as bolinhas de gude, jogar bete com meus amigos, muitos já se foram, deixando o oco de um vazio imenso entre nós, ex-criancinhas ingênuas, pena não sermos mais.

Quantas incontáveis vezes me pilhei de castigo, por um ato falho, assentado a uma cadeira dura, desconfortável, ali fiquei horas a fio, cabeça baixa, mas, graças ao meu copioso choro da cadeira fui permitido sair, não sem antes prometer emendar-me, o que em verdade não ocorreu.

Ah!, que quantidade de vezes tantas, as recordações longínquas me pegaram pelos cabelos louros, como os do meu querido neto Theo, fazendo traquinagens tantas, artes que não me deixam as lembranças, pena que as mesmas de agora não recebam o perdão dos meus pais. Pois deles nada mais restam senão lembranças ternas, fotografias em preto e branco, saudades tantas, que não cabem todos eles na crônica de agora cedo.

Quanta nostalgia sinto, como se um punhal me fosse ensartado fundo no peito, resvalando o coração, ao pensar nos idos anos da escola, naquele uniforme verde e branco, nos dias de frio havia um casaco de mangas longas, sempre um tênis de não tão boa marca como os de hoje, aprendendo as primeiras letras, tantas que hoje sei,  números fingia que os apreciava, em verdade desgostava-os demasiado.

Quantas e quantas vezes, naqueles anos fecundos e fugidios anos, quando ainda era jovem menino, morando naquela rua que daqui se permite ver, a casa dos meus pais pelas costas, outros amigos de infância, moradores de casas vizinhas, o velho hospital agora bem mais moderno, o clube do trampolim que quase me fez ir prematuramente ao céu, por um salto falho bati a testa antes coberta por um topete que virou um descalvado na beirada dura da piscina, clube onde jogava tênis em companhia de meu pai, a seguir meu filho nos sucedeu bem melhor, descendo a rua, por outra mais íngreme, chegava a outro bairro mais jovem, onde construí outra casa enorme, que se mostra de frente a minha janela, ao tiro de guerra do qual fui dispensado por ter entrado na escola de medicina, mas daquele bairro bom, hoje se transformou, da minha rua Padre Frederico Bangber a outra que lhe continua em casas feitas repúblicas de estudantes, como eu fui, um dia longe.

Hoje desci a rua em hora temprana. Como acostumado estou, depois que a criança que morava em mim deixou de ser.

De quando em sempre passo por uma escola estadual, onde adentei, por várias vezes, para ler crônicas a alunos do ensino médio.

Essa mesma escola fechou as portas por ensejo de uma greve dos professores, motivados por justas reinvindicações. Passou tempos de portões e janelas cerradas.

Hoje as janelas e portões de novo se abriram. Ao passar em suas imediações vi alunos, amochilados, esperando, olhinhos e ouvidos atentos, a exemplo do meu querido Theo, que a escola voltasse a funcionar. A greve, a paralização, haviam feito mal aos seus aprendizados.

Passei por um monte de alunos com a seguinte exclamação: “que bom que a escola voltou”!

Eles sorriram em minha direção. Muitos não entenderem a minha exaltação. Mas sorriram.

Foi muito bom que a escola viu retornar as aulas.

Foi ótimo que os alunos, os professores, os cuidadores dos alunos e dos professores, por certo comungam da mesma satisfação.

Mas, com certa nostalgia, por que não tristeza, ao passar pelo portão daquela escola, a me ver no espelho, constato, com enorme pesar, que o velho que hoje mora em mim continua cada vez mais idoso.

Para os alunos da escola ela reabriu as portas.

Já para a mim, sênior, cada vez mais, não sendo capaz de voltar no tempo, como o Benjamim Button, não posso repetir a exclamação de antes, feita ao constatar que a escola voltou.

Eu, mesmo que eu queira, não consigo retroceder nos anos, e voltar aos verdes anos de dantes.

 

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