Escrever é bom em demasia. Passar horas perdidas teclando as teclas negras do computador, letras e números em branco, não vejo as horas passarem. E quando o livro fica pronto é o mesmo que ver o nascimento de um filho, considero este dia festivo algumas vezes melhor. Não deixo o editor em paz. Visito a gráfica maternidade não sei quantas vezes ao dia. Namoro as páginas, reviso meus textos, deixo a capa a cargo do meu diagramador. Via de sempre a aprecio. Não mudo a paisagem referente ao título.
No dia do lançamento me preparo todo. Não visto terno por não apreciá-lo. Já disse que gostaria de ser sepultado com uma roupa justa. Daquelas próprias a corridas longas, nos pés o melhor par de tênis que tiver, vestindo no rosto a expressão de tranquilidade, própria de quem morreu em paz.
Mas, toda história tem um mas, para torná-la incapaz, a hora de desovar o estoque enorme de livros, nunca consegui editar uma segunda edição, embora quase todos os meus filhos livros já estejam esgotados, o próprio autor não se avexa em passá-los adiante, não tenho o costume de dar de presente livros, depois do dia do nascimento, após a mídia arrefecer o entusiasmo, como se torna missão impossível vender um deles, naqueles pacotes-embrulhos que lotam o espaço debaixo da escada de onde moro.
Hoje, sábado de aleluia, estou numa casa herança do meu pai. Ele adorava passar dias solitários numa casa vizinha, que hoje ficou ao meu irmão. Agora os filhos e netos, bis, ele não teve a ventura de conhecê-los, como eu, minha saudosa mãe, e meu querido irmão, e a nossa irmã Rosinha. Ainda me lembro, olhos rasos d água, de quando o trouxe aqui, em sua casa, em seu carrinho tantas e tantas vezes abalroado, e ele, que gostava de passar dias e noites a pescar lambarizinhos nas beiradas de um píer que ele mesmo construiu.
Foi a última vez que estive com ele em sua casa beira-lago. Ele estava numa cadeira de rodas. Olhar perdido no vazio do nada.
Hoje, sábado de aleluia, véspera do domingo da páscoa, em companhia de quase a totalidade da minha pequena família, inclusive o último dos moicanos, meu netinho Theo, trouxe da minha coleção de livros encalhados, de nome Mugido de Vaca e Cheiro de Curral, unzinho exemplar.
Não tinha esperança de passá-lo adiante. Mas perseverei.
Uma vez na água límpida e em paz da represa de Camargos, a bordo do meu bote inflável, ecologicamente correto, fui navegar na placidez do lago.
Levei meu Mugido de Vaca e Cheiro de Curral a bordo. Tinha receio que ele se afogasse, num descuido meu, caso meu barquinho de borracha adernasse.
Eu nado bem. Creio que mugido de vaca sabe nadar. Mas, cheiro de curral, por certo não se dá bem em águas profundas.
Sabia, de antemão, que um bom amigo, o Devanil, há muito tempo não visto, que estava em sua casa bem perto.
Apontei a proa em direção a casa dele. Fui a bordo do meu bote inflável. Que, no meio do caminho teve o motor parado. Por culpa da bateria descarregada.
Ainda bem que o par de remos e o remador deu conta de singrar as ondas. Não do mar revolto, e sim das águas plácidas da represa de Camargos.
Foram pequenas milhas náuticas da minha casa a do Devanil. Meu ex companheiro com quem jogava tênis e como eu acabou parando. Meu filho Stenio perseverou.
Em dez minutos vendi-lhe o único exemplar de meu derradeiro livro. Não vou mais declinar-lhe o nome. Não é preciso, basta se lembrar de mugido de vaca e o apetitoso cheiro de curral.
Voltei a remo, no meu bote, sem meu livro. Com cinquenta reais no bolso de uma bermuda listrada, que quase noite foi usada na travessia de lado a lado de aqui a outra margem do lago.
Como disse, no começo, torna-se quase impossível desovar todo o estoque daquele supra citado espécime, dos quinze que já publiquei.
Sou obstinado, não obtuso, escritor, pensador, metido a nadador, falante em pelo menos seis idiomas, a língua da roça dela não faço troça. Quando entre os mugidos de vaca, sentindo nas narinas o doce sabor de cheiro de curral, falo “quais iguar” a eles todos, sem dizer “uai e trem bão”.
Hoje comecei a navegar em mares já antes navegados. Nas águas lisas da represa de Camargos. Cometi a façanha de vender mais um livro. Em pouco tempo?, conseguirei vender os que restam. Fui primeiro com o motor ligado, mas logo a bateria fracassou.
Mesmo remando contra a corrente, após aportar no porto seguro do amigo Devanil, sentindo no fundo do peito como ele ficou feliz com o livro entre os olhos, bom leitor ele o é, se pudesse voltar no tempo, e continuar na minha cruzada Quixotesca de tentar incutir cultura onde ela inexiste, faria tudo de novo.
Mas, pena. Nem todos são como o amigo Devanil. Um porto seguro, um ombro amigo, um leitor assíduo. Amigo meu e de outros tantos amigos, como me senti, no meio dia de hoje, amigo dele…