A presença de um homem, uma sombra misteriosa, no clarume do dia de hoje

Hoje faz sol. Em plena sexta-feira da paixão, aqui, na casa beira-lago da represa de Camargos, de águas límpidas, meio esverdeadas, em companhia de gente amistosa vinda da capital do meu estado, onde morei em tempos idos, após uma rápida visita a outro lago de águas menos transparentes, como é minhalma, dei de pernas e rodas da minha pratinha valente no pôr do sol do dia de ontem.

Aqui queria passar o final de semana avantajado. Seriam mais três dias olhando as águas feitas reféns de mais uma barragem, contendo a poder de laços de concreto e ferro as águas hoje domesticadas do Rio que um dia foi chamado de Grande, agora apenas tenta correr em intervalos curtos, ele logo para, não relincha nem corcoveia, contida a sofreguidão do rio pelo desejo incontrolável do homem pela modernidade, sem energia elétrica ele não sobrevive, já eu sou refém não apenas da sensibilidade como me aprazem tanto a saudade quanto as reminiscências mais puras.

Assim que aqui parei, confesso sou possuído por uma hiperatividade comparável ao farfalhar de asas de um beija-flor, e não consigo descansar, pois não me sinto cansado, da vida então, muito menos, deixei a moto-aquática do meu filho na garage de barco, desembarquei da caçamba da minha caminhoneta que quase não anda, somente aos finais de semana a faço rodar, um bote inflável semi-novo, comprado a menos de dois meses, se tantos, e o fiz navegar por aquelas águas revoltas, sossegadamente, sacando selfies a cada instante, sentindo a paz com que sempre sonhei, poucas vezes encontradiça, somente em tempos como esses.

Logo que estacionei minha caminhonetinha prateada no portão de ferro que não costuma abrir uma das suas bandeiras, como precisava de ajuda para enfiar o Jet Sky no abrigo do sol e da chuva, como estávamos apenas eu e o caseiro Valdir, o filho Careca não tinha idade nem força suficiente para nos ajudar, do outro lado do muro de pedra, o qual limita a casa do meu irmão da minha, foi que meu par de olhos atentos descortinaram uma pessoa, até então desconhecida, do outro lado do muro.

Fiz sinal ao meu sobrinho Fernando que nos prestasse ajuda. Mas quem acorreu em meu auxílio foi um desconhecido meu, não dos que estavam na casa que foi do meu pai Paulo José de Abreu.

Logo ele, só mais tarde fui introduzido ao seu nome: Alex, não conta o sobre, de pronto pulou o muro baixo, e me ajudou na primeira tarefa do dia de hoje, quatorze de abril, sexta-feira santa.

Foi quando conheci o amistoso e bem humorado Alex.

“What is your name”? Foram estas as saudações iniciais assim que ele estendeu a mão em um aperto forte, entrelaçando os dedos com os meus.

Alex é o filho ausente do sogro do meu sobrinho, recém chegado dos Estados Unidos da América, em tempos recentes comandados por um presidente meio amalucado, cujo nome a mídia todo dia comenta, como se fosse tresloucado.

Logo nossos santos se cruzaram. Alex era tão louco quanto seu interlocutor escritor.

Depois de uma partida de sinuca, da qual saí vencedor, ficamos, ele e eu, a trocar nossas inconfidências mineiras, depois de uma hesitação da parte dele, não da minha.

Falamos de tudo um cadinho.

Primeiro fui eu o falador. Relatei-lhe todas as minhas peripécias pela capital mineira. Ele, Alex, a tudo escutou atentamente.

Somente ao final do meu relato, após muita insistência, ele comentou parte de sua história, desde o nascimento a separação dos pais, a mudança traumática para a América, sendo a mãe brasileira dona da sua guarda, os serviços e trabalhos que na América deixou, o incidente com o aneurisma cerebral que pouco deixou sequelas, as paixões e amores que passaram-lhe pela vida curta, ele poderia ser meu filho, os traumas ainda grudados firmemente em suas entranhas, a volta ao país de origem, quando ele foi deixado à porta da casa do pai que tanto ama, da mãe postiça a qual adora, da nova família que deseja, com o coração aberto, sôfrego de amor, reconstruir os laços de família que deseja assumir nem que seja a última ventura dessa vida.

Hoje, quatorze de abril, ao vê-lo servir de garçom e churrasqueiro na casa vizinha a minha, e da minha linda família, ao comprovar-lhe toda a beleza e pureza d`alma, todo dedicado aos sobrinhos, lindas e ativas crianças, o clarume do sol se dissipou.

A presença daquele homem, de nome Alex, pra mim antes desconhecido, uma sombra misteriosa, ele ainda não conseguiu mitigar toda a curiosidade que ainda me ensarta no peito, mais tarde, quase noite, tomara a nossa conversa continue, deixando os pontos de interrogação de lado, para que a cinzentice do céu, de hoje, ajude a descortinar o azul do alto, não apenas seja capaz de estreitar-nos os laços de amizade. Que ela seja para sempre, até quando a sombra da dúvida de quem seja o Alex se dissipe enquanto durar a eternidade.

Amém…

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