Nada, nada, além de mim mesmo

Quem ainda não se viu, num dia de nuvens cinzentas, céu escuro, ameaçava chover momentos antes, numa véspera de feriado prolongado, como nesta quinta-feira que precede dias de ócio puro, muitos viajam, outros refletem sobre a vida que têm levado, pensando na vida, não deixando a morte de lado, como hoje cedo, ao chegar ao consultório, agenda vazia, percebi, ao jogar farelo de ração aos peixinhos do meu aquário um deles boiando, guelras estáticas sem a cor de um vermelho rutilante que as faz parecer saudável, mortinho da gema. Parece, pelo estado avançado de decomposição do meu amiguinho escamoso, não sei dizer qual o seu nome científico, ele, ou elazinha, não tem nome pois não lhe fizeram carteira de identidade, que ele faleceu na noite de ontem para hoje. O peixinho listrado exibia na cauda sinais de antropofagia. Mordidinhas miúdas evidenciavam que em poucos minutos nem ser jogado da janela do meu sétimo andar seria necessário. Ele (elazinha), se o ou a, tivesse sido deixado ali, naquela piscina espelhada, fatalmente ele, ou ela, seria comido (a) pelos amigos da onça, incorporar-se-ia às pedras lisas do fundo do aquário, ou sua alma sobreviveria vagando a esmo pelas lembranças minhas, ou dos amigos que ali deixou, embora sejam poucos amigos, peixes não mostram sentimentos, nunca os vi chorando, ao revés dos tantos que em minha vida errática aqui, será?, derramarão lágrimas em direção ao meu ataúde branco, cheio de livros tantos, quero muitos deles, não precisam ser de minha autoria a me acobertarem o corpo inerme, não vestido num terno escuro, e sim de roupas adequadas às corridas longas, pois, caso não estiver morto, e sim fingindo estar, assim que me deixarem a sós abrirei o tampo do caixão, deixarei a terra mãe, vou pedir-lhe licença, e fugirei do campo santo correndo não apenas de mim, como das lembranças ruins que ficaram atrás.

Hoje, antes das seis da manhã, dessa quinta-feira, quase finada a semana santa, a ela segue-se a sexta-feira da paixão, logo o sábado de aleluia mostra a cara festiva, aparece o domingo da páscoa com suas guloseimas de chocolate recheados das mais finas iguarias. Já fui criança (apesar de ainda pensar que sou menino), e como gostava de apreciá-los, minha saudosa mãe deixava-os escondidos tais como os presentes de Papai Noel no qual acreditava piamente, naquele “está quente, morno, frio” que se usava antes, isso minhas recordações, ainda presentes no meu presente, pode atestar a minha verdade.

Como disse, de vez em quando mudo de assunto, mas logo retomo o leme do barco à deriva, voltando ao tema central da minha crônica matutina.

Pelo título dado de repente, antes, ao chegar a minha sala de escritor-médico-atleta-pensador, filósofo do cotidiano, ex-fazendeiro, poliglota estudioso de idiomas de uso constantes, um dia quero me versar em línguas mortas, quando eu morrer, quando essa fatalidade tiver de acontecer, “nada, nada, além de mim mesmo”, foi o que aconteceu na madrugada ao sair de casa.

Era quase seis horas da manhã. A cidade ainda não havia acordado de todo. Poucas pessoas se viam na rua. Gatos pingados, carros passados, os gatos bichanos moradores do meu condomínio ainda estavam ronronando, a procura de ratos para se banquetearem.

E eu deixei os portões do verde logradouro onde quero encerrar meu dias em paz comigo mesmo.

Nada, quase nada além de minha pessoa, irrequieta, sonhadora, se podia admirar nesta quinta-feira nascida inda pouco.

Ao chegar onde estou, como dei meu testemunho, ao esparramar ração na superfície borbulhante do meu aquário dei com um dos peixinhos morto. Retirei o que restou dele, mais da metade, e a fiz voar, pela janela do meu sétimo andar. Fi-lo na intenção, quase a mesma narrada antes. Quando ao meu funeral, disse fazer questão de não me sepultarem de terno, e sim de roupas apropriadas a corridas longas, não se olvidem do meu par de tênis preferido, esse que uso agora. Desculpem-me a esdrúxula comparação.

Ao lançar o peixinho falecido da janela, agora faz sol, céu azul, algumas nuvens claras empanam o brilho do astro rei, pensei que o tal peixinho morto, de pouco, pudesse fazer das suas escamas asas curtinhas, com as quais pudesse voar, assim ressurgindo à vida, como a ave Fênix assim o fez.

Mas, ao constatar o pobre peixinho esborrachar-se lá embaixo, no duro asfalto, por onde caminho sempre, tive frustrado o meu devaneio pueril. Deveria saber que peixes vivos não voam. Eles apenas nadam, com a mesma desenvoltura que a piscina azul me recebe.

Mas, quem não sonha não ama, quem não devaneia não vive. Quem não se apaixona deve morrer. E eu, nos meus bem vividos quase setenta anos, penso estar longe do juízo final, pois o juízo ainda não faz parte da criança que ainda mora dentro de mim.

Hoje acordei à hora costumeira. Ainda penso que a noite é um desperdício de tempo. Quantas coisas boas poderíamos fazer caso não nos recostássemos ao leito? Inúmeras, incontáveis tantas.

Ao chegar à rua, uma vez transpostos os portões do condomínio, depois de me despedir do porteiro e do ronda fumante, com um forte aperto de mão, uma vez na rua me percebi numa muda solidão. Nada, quase ninguém, era visto nos arrabaldes. Nenhuminha alminha, viva ou morta, não contam aqui as dorminhocas no cemitério, se mostraram aos meus olhos inquiridores.

Era apenas eu, e nada, além de mim mesmo.

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