Pra ele o mundo tinha a exata dimensão daquela bola

Tempos avoam quando alguém, desafiando a opinião de todo mundo, provou, por a+b, que a forma do mundo era redonda.

Eu, em criança, pensava: caso a gente fosse caminhando, indo, andando, em direção ao horizonte, por anos infindos, ao chegar a onde a vista descansa, não parando nunca, será que iríamos chegar ao Japão? Pois meus professores diziam: “fique calmo garoto. Se você, andarilho que sempre foi, e nunca vai deixar esta mania, ao rodar a barriga do mundo pode cair de bruços logo lá, no fim do mundo”.

Eu persistia no meu entendimento obscuro. Era criança, ainda cria, tanto nas pessoas, quanto no pobre mundo que hoje mudou tanto, tanto, que, no andar da carroça, quando idoso ficar (não digam a ninguém que já estou), a forma do mundo não mais será o de uma bola de futebol, esporte bretão que tomou conta da cabeça de todo mundo. Menos da minha, que rodeia o mundo, mas torce por uma bolinha menor, atirada pelas raquetes, de nome de um calçado que uso sempre, não precisa explicificar que se trata do esporte maior, nomeado de Tênis.

Por falar em mundo, na forma redonda, e na bola que rola nos gramados caprichados, e noutros tantos ralados, os de várzea, hoje, ao tomar o ônibus em direção à zona norte da cidade, onde atendo a urologia, a minha especialidade, no tal Ame, ambulatório de nome pomposo, mas se trata de um mero postinho de saúde desapetrechado de quase tudo, menos de calor humano, as atendentes que vivem lá, enfermeiras dedicadas, mal pagas, são especialistas não em cardiologia, ortopedia, gastro, neuro, ou outra qualquer. São em verdade especialistas em tratar bem as pessoas, cuidar dos seus curativos, amenizar dores, sufocar angústias, aplainar desamores.

Uma vez no ponto de ônibus, pertinho da porta principal da Santa Casa, outro nosocômio mais idoso que a própria cidade onde mora, assim que o coletivo apareceu, pertinho do ponto onde a gente embarcaria, dei de cara com uma dupla incomum.

Era uma pessoa obesa, olhinhos puxados, andar titubeante, agarrado a uma bola de plástico, muito parecida a usada nos campos de futebol.

Na hora percebi ser um portador de uma trissomia do cromossomo 21, ou Síndrome de Down, Mongoloide, nome impróprio, quase não mais usado. Na sua maior expressão de gravidade.

Quem o acompanhava, atado a uma fita crepe, era uma senhora morena, que me passou a imagem da mais pura paciência.

Fiquei a observar a entrada do rapaz dentro do circular.

A senhora, depois vim a descobrir ser sua irmã, que carregava uma bolsa pesada, não tive a curiosidade de perguntar o que estava dentro, não conseguia enfiar o jovem obeso, que, como um boi bravo relutava a entrar na embarcação. Ele temia encontrar algo inimaginavelmente feio dentro do ônibus.

Foi preciso upa para fazer entrar o rapaz deficiente na parte da frente do transporte coletivo, que tantos bons serviços presta a população.

Enfim tivemos sucesso.

Ele entrou, a seguir segui-lhe os passos.

A irmã do rapaz quase desistiu do seu propósito, não fosse a solidariedade dos demais passageiros.

Ele ocupou dois bancos, logo às costas do motorista. Eu passei a roleta e fui na parte de trás.

O jovem, que depois me fez saber ser portador do nome Heron, não se desgrudava daquela bola redonda, do formato exato do planeta onde vivemos.

Deixei os dois irmãos num ponto mais próximo de onde desembarcaria. Não fui testemunha, mais uma vez, da dificuldade da sua irmã no apeamento do ônibus da Autotrans. O certo é que eles conseguiram se desvencilhar da lotação. Como aconteceu a mim, pontos depois.

Agora, horas mais tarde, já no achego do meu consultório, ao me lembrar do rapaz, do Heron, agarrado fortemente à bola, da mesma forma do mundo, foi que passei a escrever esta crônica. Com o título, bastante sugestivo, como vai escrito no começo.

“Para o Heron o mundo tinha a exata dimensão daquela bola”.

Pra mim criança, também…

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