Ao acordar num dia como o hoje acordou, céu azul, temperatura amena, em ascensão, em pleno outono, e eu no outono outono, prestes a se tornar primavera, a eles seguem o verão e o inverno frio, não sei qual das estações aprecio mais, não sei como as pessoas podem ser infelizes. O que se torna mais e mais comum, nos dias que nos amparam, com suas horas de muito trabalho, para uns ele falta, não falta serviço, basta ter força de vontade de empunhar a enxada, o cabo da foice, e ir com eles enfrentar o ócio, e assim ir ganhando a vida, deixando os dias infelizes, por falta de ganhar o suficiente para sustentar as muitas bocas que o esperam na casa alugada, aluguel atrasado, contas em cima da mesa, a maior parte vencida, boletos em atraso, as lojas a espera de recolher a mercadoria, a linda televisão comprada a prestação, o forno novo ainda sem uso, o guarda-roupa vazio, a espera de dias melhores, que nunca chegam.
Eu, montado no meu otimismo latino, na minha alegria incontida, tentando fazer dos meus quase setenta anos no máximo uns vinte, embora tenha momentos e introspecção e apatia, quem não os tem?, acho a vida linda. Apesar de bem saber que a beleza da vida, manifesta nos mínimos detalhes, seja na mãe beija-flor construindo seu ninho numa folha qualquer, num local aparentemente abandonado, e dali saírem dois beijaflorzinhos de pouco nascidos de dois ovinhos, a empreenderem seu primeiro voo solo, e nunca mais voltarem a ver a beija-flor mãe adulta, mãe de incontáveis passarinhos, oveira fecunda, que não se queixa da vida, pois ela, pássaro irrequieto, tem uma missão louvável de polinizar as flores com seu bico comprido. E não tem tempo nem disposição de reclamar de nada. Pois ela, a exemplo de certas pessoas, com as quais convivo, tendo tudo, não lhe faltando nada, passam a vida perdida entre os queixumes, de cara amarrada, ao invés de sorrir na direção de outrem, passam por eles com a velocidade de um tufão, exatamente como uma nuvem cinzenta, embora o céu de hoje esteja mais claro que as asas azuis de anjos.
De tempos recentes conheço uma senhora. Ela, pela aparência demonstrada, deve ter menos anos que os tenho, por volta da volta de cinquenta e poucos. Já perto dos sessenta.
Sempre que subo pela alameda que leva a minha casa à portaria do condomínio, onde quase sempre me despeço com um fraternal bom dia de todos os serviçais presentes, seja o porteiro de plantão, fosse o varredor madrugão, do vigia noctívago, de quem for visto nas imediações, ela, a tal senhora que acorda cedo, passa por mim e me cumprimenta, ela passou a assim proceder de tempos recentes, quando eu passei a lhe saudar com um amável “bom dia”.
Já puxei conversa com a tal senhora, doméstica de uma casa da qual não sei o endereço. Soube de prosa curta anterior, que ela não consegue dormir a contento. Passa as noites em claro, contando as estrelas, fazendo de conta que elas são os mesmos vagalumes que contava aos montes quando nos bons tempos em que vivia na roça dos pais. Infelizmente, por falta de futuro para as mulheres na roça, logo, aos dezesseis anos, teve de se mudar de ali, para a casa da avó, que morava numa casinha tosca na periferia da cidade, onde ambos moramos.
Passou anos estudando tentando ser alguém. Foi até a quarta série do primeiro grau. Degrau sem futuro para quem tem ambições mais altas.
Trabalhou em tantas coisas que nem se lembra de quantas. Foi balconista de uma loja. Que logo foi à bancarrota, a dona nada entendia de roupas, pois, mulher de vida fácil que era na primeira chance se despia delas, vendia o corpo melhor que vendia roupas. Como ela não queria seguir o exemplo da patroa, era ainda virginal, sonhava com um príncipe encantado, o qual jamais apareceu montado num cavalo branco, em breve foi jogada no olho da rua.
Perambulou sem rumo pelas ruas da cidade. Ficou anos sem conseguir trabalho. De carteira assinada, era um sonho inadiável.
Até que passou, aos mais de quarenta, pela portaria do condomínio onde hoje trabalha com afinco. Ali conseguiu não apenas emprego decente. Exerce a função de cozinheira, faxineira, jardineira, lavadora de carros, uma faz tudo como tantos em nosso país onde tantos nada fazem, e vivem em mansões paradisíacas, graças às benesses de cargos políticos, dos quais se locupletam, fato devido a nossa proverbial incapacidade de não sabermos votar, público e notório em qualquer latitude por onde passamos.
Já tentei receitar àquela senhora, de olhos turvos, olheiras cinzentas passeiam-lhe ao derredor dos olhos, alguns fármacos para que ela consiga dormir pelo menos cerca de cinco horas, já que mais seria impossível. Ela trabalha muito. Faz das vinte e quatro horas do dia outras mais. Alonga o percurso dos ponteiros do relógio para, ao invés de vinte e quatro, quarenta e oito, ou mais.
Soube, por ela mesma, que tal remédio, de tarja preta, não faz efeito. Como quando contava vagalumes na roça dos pais. Aí ela dormia otimamente bem.
Hoje passei novamente ao lado dela.
Já estava de fora dos portões do condomínio quando passei pelo seu corpo cansado, mal dormido. Na portaria estava o profeta Valdeci. O lavador de carros, passeador de cães, amigo de todos, dono de uma perspicácia e inteligência ainda maior que a minha. Só não consegue falar seis idiomas. Como eu tento dizer que falo.
A senhora faz tudo trazia um cigarro apagado num dos dez dedos da mão.
Parei um segundinho miúdo para saber como ela estava. Na mão direita ela trazia um saco de pães fresquinhos. Não pra ela, e sim para a patroa.
Como de hábito, sempre que avisto alguém fumando, faço-lhe uma advertência sobre os malefícios do cigarro. Bem sei que malho em ferro frio. Mas tento. Embora a iniciativa de mudar o mundo seja uma tarefa hercúlea, e não sou tão forçudo assim.
Logo que me despedi daquela senhora, quando a inquiri sobre o fumo, ela assim afirmou: “fumar é a única diversão que me resta”.
Deixei a tristonha dama com uma dúvida, quase convertida em certeza.
Se o fumo é a sua única diversão, ao ver o lindo dia que despertava, a minha, ao revés, trata-se da vida. Linda que ela é. Basta saber enxergá-la com olhos atentos, felizes por existirmos.