A interrogação sempre fez parte dos nossos duvidosos dias.
Sabe-se que o hoje sucede ao ontem. O amanhã vai ser outro dia. O que virá amanhã, ou depois de depois de amanhã? Mais um destes pontos que nos lembram uma curva a esquerda, ou uma lombriga em dúvida, um cabide de dependurar roupa, que de quando em vez se parte, mas sustenta a roupa passada de pouco, antes de o dono vesti-la, pronto a enfrentar um novo dia.
Por falar em dia, que sol lindo acordou no dia de hoje, onze de abril, em plena semana santa! Essa terça-feira não tem cara de semana santa. Por que cara de semana santa? Muitos fervorosos adeptos do catolicismo podem me criticar.
Mas, dentro da minha imaginação fértil, como a terra da minha roça, pensem com olhos inquiridores, lembrando-se do significado da semana ora em curso.
A semana santa nos lembra a paixão, morte e ressureição de Jesus Cristo, que deu sua vida por nós, não sei se merecemos tal sacrifício. Não seria uma semana cinzenta, triste, com um desfecho feliz?
Os dias, do sábado que a precede, conhecida por sábado de Lázaro, apenas comemorado pelo Cristianismo oriental, ao domingo de Ramos, data da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, a segunda-feira santa, dia da prisão de Jesus, estendendo-se a terça-feira, em honra às sete dores de Nossa Senhora da Virgem Maria, a quarta-feira, quando se dá a procissão do encontro de Nossa Senhora das Dores e de Nosso Senhor dos Passos, a quinta-feira santa, celebração da crisma, da instituição da Eucaristia e do Lava-pés, a sexta-feira da paixão, da morte de Jesus, caímos no sábado de Aleluia, dia da espera, e, por fim o domingo da Páscoa, quando as crianças se esbaldam nos ovos achocolatados, que significa o dia da Ressureição.
Por falar em criança, também nomeadas de meninos e meninas, hoje, mais tarde que o costume, ao sair de casa rumo ao trabalho, antes das sete, terça-feira de sol a pino, por volta do meio dia deve esquentar mais e mais, já subindo a alameda que me leva a portaria percebi, algumas vãs, identificadas pelo nome Escola, entrando pelo portão do lindo logradouro onde vivo.
O transporte de alunos parte cedo em direção a várias escolas espalhadas pela cidade. Já outras levam as professoras. Sei, de antemão, que as tais topics, como são conhecidas pelos usuários, são dirigidas por cautelosos motoristas, pessoas de confiança dos pais, que amam seus filhos como Jesus nos amou.
Uma delas parou bem perto de mim. A porta de uma casa, quase minha vizinha, um garoto nela adentrou. Ainda sonolento aquele molecote esperto, de posse da mochila e merendeira, não sei o que estava dentro, por certo ovos de páscoa, e demais guloseimas, não sei se ele me reconheceu. E eu a ele ignorei.
Tentei fazer sinal ao motorista da topic, mas ele partiu. Em direção não apenas da escola, como do futuro que a criança esperta a ele esperaria. Ou o futuro aguarda a criança? Quem sabe ele, o tal menino da topic, se tornasse médico, engenheiro, baderneiro, agitador, ou até mesmo escritor?
Sei que todos nós podemos ser o que quisermos. Dentro da gente cabem, sem estar espremidos, não apenas bons profissionais de saúde, arquitetos de renome, advogados de bom nome, padeiros madrugadores, retireiros que sabem dizer por que motivo o leite é branco e a vaca é preta, até mesmo escritores de imaginação fecunda, como foi o grande João Guimarães Rosa, de Grande Sertão: Veredas.
No exato instante que a topic se foi, levando em seu bojo incontáveis crianças, foi que lucubrei, com meus botões.
Quem sabe, seria possível, caso eu entrasse naquela topic, de novo voltaria a ser menino, nem que por um dia apenas? Ou durante toda a semana santa?
Pena que a topic partiu. Meu sonho de retroceder no tempo ficou. E ali fiquei, estático na minha dor.
Vou continuar com as minhas sessenta e sete primaveras. Em pouco tempo estarei um ano mais idoso. No outono outono da minha velhice.
Mas, dentro das minhas fecundas ideias, muitos podem compará-las a treslouquice, ou gagazice, tomara o Alzheimer não tome conta dos meus pensamentos, tão prematuramente, quem sabe, caso eu embarcasse naquela topic, o motorista aceitasse a minha presença idosa junto aos meninos, conquistasse, não apenas a juventude de volta, como idem meus verdes anos tão lindos, como as flores do ipê amarelo que desabrocham em finais de julho, persistem agosto, e morrem no mais tardar setembro.
No começo perguntei: “quem sabe”? Deixo a resposta a vocês…