O dia seguinte

O hoje sucedeu ao ontem. O amanhã vai passar a ser outro dia, assim que o dia de hoje for sepultado. E que será do amanhã? Mais um dia como o de hoje, dez de abril, cheio de sol, começou quente, e deve ficar ainda mais com o passar das horas, no meio do dia vai fazer um enorme calor, embora o verão ainda não esteja presente.

Assim são os dias. As noites, as madrugadas, as alvoradas.

O amanhecer é mais radiante nos campos verdes da roça. Lá, em meio a pastaria recoberta pelo orvalho, caso tenha chovido no dia anterior, aí sim. A grama verde fica mais verde ainda. A roça de milho novo nos faz extasiar os olhos. O alarido das maritacas verdinhas anunciando a chegada das jabuticabas maduras, não há quem não se deixe encantar. As vacas, saindo do curral, pisando barro esterco fresco, elas são as maiores produtoras de sujeira limpa, não há quem duvide. A porcada grunhenta, faminta, como sempre, aguarda impaciente o fubá de milho novo a lhes servir de alimento, distribuído fartamente pelo dono deles, amigo entre aspas, pois quando obesos os porcos vão servir de alimento a quem os alimentou, tempos antes. O casal de cavalo, os animais mais lindos que Deus aqui inseriu, num momento de rica inspiração, percorre em galope veloz o espaço a eles destinado, escoiceando o ar, relinchando, quais crianças em seus folguedos em dias de férias de fim de ano. Nada como o amanhecer no campo. Na cidade a poesia se perde, o verde se esconde, cedendo espaço ao negrume do asfalto, ao burburinho dos carros, que, nesse começo de semana santa fica menos evidente, véspera de dias feriados, para fechar a semana com chave de oração e reflexão sobre a morte do Deus de todos nós.

Comecei meu texto com o título sobre o dia seguinte. Ou day after, num inglês de quase domínio de todos nós.

O mundo já conheceu incontáveis days afters. O da deflagração da bomba de Hiroxima Nagasaki, que selou o destino da segunda guerra mundial, o da paz que se seguiu depois, pena que ela não dure para sempre. Os países do mundo, todos os seus povos, embora dizendo que amam a paz, logo recolhem a bandeira branca, e de novo algum afoito se lança a guerra, por um pretexto qualquer.

O ontem foi deixado para trás. Ontem eu tinha exatamente sessenta e sete anos e alguns meses, ou dias. Já hoje, pela manhã, bem cedo, quando saí de casa, não mais tenho apenas sessenta e sete anos e alguns dias. São mais dias que no dia de ontem. Logo o day after meu vai ser de mais idade, adeus mocidade, ela não se deixa ver mais.

O dia seguinte do homem da roça se torna quase igual. As mesmas tarefas costumeiras, o ordenhar das vacas, alimentá-las, apartá-las dos bezerros, dar de comer aos porcos e as galinhas, o que muda é o cenário. Se molhado ou risonhamente ensolarado, tudo vai depender da estação do ano, se inverno, que se confunde a estiagem, se o verão, molhado pelas águas que se desapegam do alto, se se anuncia a primavera, aí, tanto faz que seja molhada, seca ou em qualquer roupagem, ela é linda em que veste for. Já o outono, onde estamos, de temperaturas amenas, a ele me confundo, pois me sinto no outono outono da minha velhice.

O dia seguinte da meninice é a perda da inocência. Embora existam jovens adultos, idosos, como a minha querida irmã Rosinha, que, aos mais de cinquenta anos ainda preserva, dentro dela a candura de uma menina.

O dia seguinte do adulto, de boca faminta, o espera o ancião. Muitos deles não demonstram a idade que têm. Pois desfrutam da eterna juventude, por serem alegres, apesar da procura da fonte da eterna mocidade não seja mais uma utopia dos humanos.

O day after da tristeza via de regra não se chama alegria. Nem ao menos recebe o epíteto de felicidade, pois ela é coisa que não se encontra todos os dias. Embora a procure sempre, não a encontrando nos lugares mais procurados e sim a acho em outros onde nunca pensaria que ela, a tal felicidade, pudesse se mostrar a luz do dia.

O dia seguinte ao da felicidade da mãe, após a parição de um filho, em nada se equipara. Embora a tristeza imensa quando o filho morre, contraste em altos decibéis à alegria da primeira.

O dia seguinte ao de hoje, nem sempre vai ser o amanhã. Simplesmente por uma singela razão.

Hoje estamos vivos. A ver a beleza do sol intenso que do alto assopra, o azul do céu que acompanha o amarelão do sol, ao colorido do verde que tinta a pastaria.

Mas, amanhã, caso a vida se for, para mim, para o senhor, para o menino, para o adulto, para o idoso, não vão existir outros dias seguintes. Pelo menos aqui, neste mundo lindo que nos rodeia, e a gente se mete a besta, tentando transformar os dias seguintes, maravilhosos que são, em dias feios, tristonhos, quando a tristeza e a infelicidade mora dentro da gente. E nós, mesmo querendo, não conseguimos metamorfosear a beleza do dia seguinte. Pois, uma vez mortos, sepultos sob a terra, o nosso dia seguinte, mais ou mais tarde, que tarde mais, será sem dias seguintes.

Duvidam? Eu não.

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