Quantas e quantas vezes…

Contar nunca foi o meu forte.

Dos números ainda quero distância, embora saiba que deles preciso.

Mas, lá vem outro mas, bem sei que escrever “mas” demais seja vício de linguagem, apesar de concordar com meus leitores que escrevo demais, falo de menos, não perco o desejo, quando o perder tomara o encontre logo, pois escrever para mim é tão vital quanto o amor que o mundo de hoje carece.

Para abrigar-me as contas, não se olvidar dos boletos que vencem sem parar, assim como lidar com numerais, deixo essa tarefa a quem tem competência, essa pessoa é conhecida por nome de flor, embora a minha Rosa seja rusguenta demais, adora um bate-boca, não tanto quanto aprecia o que sai dos meus dez dedos ágeis que inda agorinha mesmo tamborila o teclado negro do meu computador novo.

Foi a primeira crônica escrita no dia de hoje, exatamente às dezessete horas da tarde, desse domingo nublado, desse nove de abril, começo da Semana Santa. Ontem, sábado, escrevi uma apenas, pois o tempo nos finais de semana não tem tempo para cuidar de si mesmo. Nem o dono de mim mesmo, cujo dono de mim não sabe quem sou eu.

Quantas e quantas crônicas, quase todas frutos do cotidiano, saíram dos meus computadores tontos de tanto me aturar a escrever, creio, sem medo de equívoco, foram mais de dez mil. Ou menos.

Olhando daqui, da janela do sétimo andar, do consultório, onde mostro as duas caras que se amarram em mim, a literatura e a urologia pedem licença para viver em harmonia entre as duas, conto quantas e quantas vezes olhei pela janela, levemente protegida por um par de persianas verdes um tanto desbotadas pelos anos, aqui estou desde que o edifício das Clínicas foi edificado, fui o primeiro aqui estabelecido, não me recordo a exatidão quantos anos se passaram, sou péssimo com os números ; já dito, percebo parte inexata do meu passado, uma voçoroca onde brincava de pique-esconde nos meus verdes anos, a prefeitura da municipalidade, o campo de aviação mais e mais movimentado, o velho hospital onde ensaiei minha carreira solo empunhando o bisturi, a Rua Costa Pereira que, de tanto falar nela, quando aqui não mais estiver, for morar em outro mundo, talvez a câmara dos edis vote para que ela mude de nome, de Costa Pereira vire Rua Paulo Rodarte, com um Abreu entre aspas, pois meu saudoso pai merecia não apenas ficar entre aspas, como se perenizar em letra maiúscula, grande maiúsculo cidadão ele foi, e ainda o é, entre o Pai do Céu e seus anjos guardiães.

Quantas e quantas vezes brinquei por ali. Quantas e quantas incontáveis vezes chorei por lá. Quantas e quantas inúmeras vezes amei ali. Quantas e quantas vezes deixei meus amigos, muitos já não estão mais aqui, se transformaram em anjos azuis, ou em asinhas de beija-flores irrequietas, farfalhado no entorno dos corpinhos frágeis daqueles passarinhos lindos, em busca de polinizar as flores, tornando mais e mais lindas as rosas flores do meu jardim multicor, onde predomina o verde, a cor mais magnífica de todas, com seus tons sobretons de matizes mais díspares que Deus criou.

Quantas e incontáveis vezes por ali passei. Por aquela rua de tantas lembranças que só não se eternizarão por culpa de um singelo detalhe. A eternidade não é coisa palpável, palatável, domesticável, pois coisa linda como a eternidade não existe idade para se apegar a ela. Mesmo que a gente deseje, com fervor.

Quantas e quantas vezes amei e fui amado? Não sei. Pois somente agora, aos sessenta e sete anos, vim a descobrir a distinção entre amor e paixão. Sobre esse tema não quero, nem desejo, dar mais explicações. Já o fiz em crônica anterior, é só pesquisar em meu site – www.paulorodarte.com, e, entre as tantas que ali foram escritas, munido de paciência e afinco, um dia, não sei qual, o leitor, amante das letras e das palavras, descubra qual ensina a diferença entre paixão e amor.

Quantas e quantas vezes parei para escutar o murmúrio do silêncio. E só ouvi o buzinaço dos carros e o matraquear das pessoas, que proseiam sem dizer nada de novo.

Quantas e quantas vezes pensei estar agindo certo. Só depois de idoso descobri-me em logro.

Quantas e quantas vezes passei descompostura na pessoa errada, quando quem deveria ser posto em seu devido lugar esse alguém era eu.

Quantas e quantas vezes fui repreendido sem estar em erro. Pena que quem me puxou as orelhas não teve tempo para repensar que não sou eu o responsável pelos senões do mundo. Todos temos o direito de errar, não serei eu o julgador do que é certo ou errado. Para isso são feitos os magistrados togados.

Quantas e quantas e quantas vezes fui taxado de intempestivo, se não havia nenhum sinal de tempestade no alto.

Quantas incontáveis tantas vezes fui ludibriado, enganado, fui vítima da safadeza dos meus iguais, jamais fui passado para trás pelos animais tidos irracionais. Somente agora, quase vivendo a senilitude, aprendi que os irracionais são exatamente quem pensa que tudo sabe, e, ao revés, nada depreendemos, a não ser que, cada vez mais que somamos anos aos nossos passados anos e desenganos, nada mais nos resta, se não tirarmos a conclusão, sábia, que a verdade mora na simplicidade do singelo, na mão caluda do homem do campo, com eles aprendi, mesmo pensando na falsa cultura de que pensava ser possuído, de fato mais e mais sei que nada sei. Que bom que continuo aprendendo. Pois ainda não estou emburrecido, apatetado, olhando o derredor, como um dia vi, um velhinho, portador do mal de Alzheimer, com seu olhar vazio, a fitar o nada como se estivesse vendo o tudo.

Quantas e quantas crônicas saíram dos meus dedos, ditados por um comandante sem farda, sem galões dourados a embelezar lhe o uniforme, sem tentar impor obediência e ordem unida aos soldados rasos, que mora logo acima do meu pescoço curto, batizado pelo nome de Cérebro. Ignoro quantas foram.

Creio ainda restam muitas. Tantas, tantas, tantas, quantas e quantas, nem sequer imagino.

Oxalá me restem mais de outras tantas mil, mais disso, muito mais dez mil. O número que chutei antes, pois, como sempre cito, nunca me incomodei com os números. A eles prefiro as letras. Consoantes e vogais, de a a z, a elas somando-se as vírgulas, que nos permitem respirar. Depois de tantos escritos.

Quantas letras foram escritas nessa minha crônica? Diz o Word que foram 1092 palavras. Sobre as letras, quantas foram? Nem ele, o sabichão Word, dá conta de contar.

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