Luta não é, não foi, coisa a que fui acostumado, nem de ontem, muito menos no futuro há de ser.
A não ser uma briguinha de menino, nem me recordo se com o sicrano, beltrano, ou um fulaninho qualquer, que me esperou depois da escola, com raiva de mim, talvez por ter lançado um piscar de olhos inocentes a uma coleguinha pela qual ele tinha um chamego.
Dessa rusguinha de nada, sem sair qualquer um de nós com um arranhãozinho que fosse, um olho preto, um vermelhão na cara, tudo não passou de um bate- boca, quando, não sei se foi eu, ou ele, fizemos pose de lutador de boxe, cada um no seu corner, a exemplos de galinhos de briga sem esporas afiadas, ameaçando ir às vias de fato, tendo terminado o combate tal e qual começou. Um abraçado ao outro, ambos, mais outros coleguinhas, em direção ao campinho cambeta, a uma animada partida de futebol. Depois tomamos todos uma Fanta Uva, geladinha, e passamos a nadar no açude do arengueiro Seu Nicanor, onde afanávamos uvas recém-feitas rosadas, onde havia tilápias ariscas como éramos nós, nos bons tempos de antão. Não sei se foi o Tinoco, o Juninho ou o Expedito, numa das nossas puladas de muro um de nós, traquinas, levou um tiro de espingardinha de chumbinho no traseiro, machucado que de pronto sarou, depois de sair do castigo imposto por seu avô.
Chega de falar em embates, longe de serem combates, dos idos anos que, infelizmente, não voltam mais.
Hoje fui ter a roça. Que ainda é minha, eram as vacas, as galinhas, os porcos já viraram linguiça, e seus restos mortais repousam em latas de gordura, prontos a serem comidos, um dia.
Acontece, que, para felicidade geral tanto das vacas, bom dizer que as passei adiante a quem em verdade entende de ruminantes, o arrendador das minhas terras, de nome Roberto, marido de um esteio onde ele amarra a sua égua, a dona Lúcia. Mãe de quatro filhos lindos e obreiros que, a exemplo do casal de beijaflorzinho nascido num ninho na varanda dos fundos da minha casa, já empreenderam voo, tomando outros rumos, mas, de vez em quando na roça da casa Amarelazul ainda aparecem. Na intenção de matar a saudade dos pais.
Ali cheguei quase ao cantar das galinhas. Estava um tanto enferrujado, a cama assim faz comigo, por isso tenho receio da noite.
A primeira providência, depois de pagar a semana do mestre de obras, de nome Élcio, conhecido por Canivete, não sei qual a razão do apelido, morador, com sua linda esposa, nome mais do que justo, Bela, ela em verdade é linda, de uma casinha onde antes moravam meus vários, incontáveis retireiros, um a cada ano, tirador de leite branco da vaca preta é figura dinossáurica, já extinta, foi ir caminhando, a passos de tartaruga manca, a casa nova onde vou passar meus derradeiros dias olhando o lago da represa do Funil, num quarto do andar de cima, donde se pode repousar os olhos, após escrever furibundamente, o espelho d’água verde do lago anos antes formado depois de domesticar as águas corredeiras do Rio Grande.
A construção está no capítulo final. Falta instalar as portas, janelas, o piso, ainda não comprado, ir aos dois banheiros, um em cada andar, e por, fim, finalmente, sempre falta uma coisa, minha esposa sempre inventa moda, ela é modista famosa.
Mas o obreiro pedreiro Canivete prometeu entregar a casa pronta, com as chaves na porta, antes do mês seguinte. Para a inauguração vou preparar, com a ajuda de vocês, todos os leitores serão convidados ao rega-bofe, a uma alegre festa junina, tomara ela não atrase para julho, senão vira festa julina.
Na caminhada de hoje cedo, de fato foi um andar lento, tirando com meu i-phone novo incontáveis retratos da paisagem, inclusive selfies de mim mesmo, fui admirando a pastaria recém-formada. O Roberto quer em verdade transformar a paisagem, substituindo as pragas que exigem roçação constante, entra ano e se despede outro as pragas retornam, depois de matá-las usando um praguicida assaz conhecido pelos aniquiladores de pragas, o velho e bom Roundup, por um capim viçoso, de nome Braquiarão (não sei se vale a pena escrever o nome científico, penso que não).
Ia, cadinho a cadinho, ao ver os eucaliptinhos novinhos, alguns as formigas já jantaram, ou as folhas almoçaram, sem usar garfo e faca, tirando as plantinhas ervas daninhas, de nome picão, tentando deixar a salvo da concorrência, quanta incoerência minha, os jovenzinhos pés de eucalipto. Bem o sabia que os picãozinhos voltariam. Deixando seus espinhozinhos grudados as nossas meias, sujas, ao passar em suas bocas famintas.
Do lado direito de quem vai à casa nova, onde o Roberto tenta formar piquetes de capim novo (quem não aprecia “capim novo”, aquele fêmea novinha, de saia rodada, que, incautamente pela casa da roça passou, e dali não mais saiu)? Eu não vou dizer que sim senão minha amada Rosa vai me deixar passar a noite na rua. E eu não saio da barra da saia dela. Nem por um capim novinho.
Voltando atrás, não muito, ao ver as folhazinhas do capim braquiária nascendo, se tornando de um verde mais forte depois da chuva de ontem, no meio delas outras pragas verdes, as aroeirinhas, recém-roçadas, tentando tomar o espaço do capim novo, as sementes custam os olhos das vacas, confesso, sem medo da luta, não costumo fugir do embate, que só os fracos abate, os fortes, os bravos, não capitulam, não foi bem assim que Gonçalves Dias o disse. Não importa o que tenha poetado o grande poeta, um dos maiores da língua pátria. E sim o que tentei fazer com as pragas que infestam o pasto.
Em criança não fugia daquelas rusguinhas tolas. No máximo saía com um olho roxo, ou um galo na testa.
Mas, ao ver as ervas daninhas ameaçarem os pezinhos de eucalipto, o capim novo do amigo Roberto, prudente lembrar que a sua Lúcia ainda é a dona do pedaço, ser invadido pelas aroeirinhas safadinhas, que, ao relar em suas folhas me encalombo todo, voltei de novo a casa Amarelazul.
De posse do meu celular último tipo, cada ano sai um mais jovem ainda, ainda bem que a minha versão mais nova está esgotada, assim como quase todos os meus livros, salvo o Mugido de Vaca e Cheiro de Curral, fiz mais um retrato do casal Roberto e Lúcia. A dona Lúcia não aprecia fotografias, como seu pai, o Zé Antônio, adora se deixar fotografar.
Deixei a roça por volta das dez e meia da manhã. Depois de ajudar recolocar dois bois do Zé Peleja em seus devidos lugares. Ambos vararam cercas e foram parar no pasto recém-formado, embora sem diploma, em qualquer curso superior, a comer o capim do amigo Roberto. Caboclo amistoso, correto, como quase não se vê na cidade.
Olhando atrás, na porteira, sempre de tábuas abertas, afinei meu par de olhos em direção dos pezinhos de eucaliptos, ao pasto de capim braquiária, o denominado “ão”.
Sei que eles, tanto os picões, quanto os eucaliptinhos, jovenzinhos, sempre irão disputar o embate. Como também sei que o capim novo, de pronto semeado, já sendo visto viçoso depois das últimas águas de abril, vai combater o bom combate com as aroeirinhas de folhas verdes rajadinhas.
Estes múltiplos embates ainda estão longe do fim. Eu penso assim…
E quem vai sair vencedor? Nenhum deles, nem nós.