Tá virando moda, pena

Bem sei das idas e voltas da moda. As estações mudam e as roupas pensam ficar diferentes.

Entra o frio, despede-se a seguir. O calor aparece nas cores do verão. Cores berrantes, não com o mesmo berro mugido simpático da vaca, e sim as vestes se tintam em amarelo, verde cor de pasto depois de uma chuva mansa, o vermelho nos recorda a capa do toureiro, pobre touro Miura que vai ser sacrificado após o embate, fatal apenas para o lado mais fraco, via de regra. Da mesma forma as outras nuances de cores, da coleção de verão primavera, são quase sempre alegres, apesar de a moça linda, modelo de passarela, alta, esguia e aparentemente sem defeitos, a beleza que emerge da sua pessoa é coisa passageira. Sabido e ressabido que a velhice, em verdade é uma legítima e verdadeira fábrica de monstros. O que era lindo, na juventude, passa a ser coisa de filme de terror. O espelho que se mostra defronte a mim não me deixa mentir.  As rugas que me passarinham a face, a calvície onde antes estava um lindo topete passa a descalvar toda a testa ampla, a papada que confere ao queixo um aspecto dúbio pode ser consertada pelo bisturi do cirurgião plástico, mas logo despenca novamente, as cãs, apesar de lindas, formam um vistoso tapete ao redor das orelhas, o sulco naso- labial fica da profundeza de um abismo sem fundo. Assim é transformada, por mais que a gente tente mudar, a anterior beleza da linda dama, hoje balzaquiana, fica igual a uma lata de cerveja usada, amassada, vazia do líquido que tanta gente aprecia gelado pronta a ser reciclada, muito embora a gente, infelizmente, não o possa ser.  A nossa reciclagem nada mais será do que uma cova funda. E nossos restos mortais passam a ser comida dos germes da terra, incorporando-se a ela, em curto espaço de tempo.

Por falar em tempo, nos bons que se perderam na longevidade dele mesmo, nunca seria demais recordar de quando aqui, na minha querida Lavras cheguei, vindo da Espanha, sem ter visto as touradas de Madri.

Era maio de 1977. Apareci no Rio de Janeiro barbado, na face lisa uma  barba castanha e um bigode da mesma cor, cabelos cuidadosamente alinhados, vestindo um casaco de couro marrom, uma calça cinzenta de lã, em fragrante conflito com o calor que fazia na cidade linda, onde, atualmente, uma crise imensa contrasta com a beleza do lugar.

Meus pais no cais do porto esperavam o filho pródigo. Na época fumava cachimbo. Pois, embora nunca houvesse aprendido a tragar, as baforadas tiradas da cachimbada eram tranquilizadoras, frente ao inusitado que me esperava, em carreira solo na urologia, especialidade inovadora não apenas na cidade dos ipês e das escolas, assim como num raio de mais de duzentos quilômetros.

Ao chegar ao meu pouso final, depois jamais saí daqui, a não ser na intenção de uma viagem, seja para um congresso ou em férias, passei a trabalhar com afinco e dedicação nos três hospitais. Desdobrava-me entre cirurgias de longa duração, quase sempre ajudado por um enfermeiro que eu mesmo treinei. Não me acostumei, foi um ledo engano, a trabalhar em equipe. A outros colegas poucas vezes, a não ser nos dias de hoje, pedi auxílio quando de olhos focados no campo cirúrgico.

Com que saudade me recordo dos idos anos. Seja no consultório privado, fosse nos postos de saúde da vida, jamais recebi uma descortesia dos pacientes que ali me procuravam, sejam eles pagantes ou advindos do sistema único de saúde. Antes não existia o SUS. A gente cuidava com a mesma delicadeza tanto dos que pagavam pelo atendimento, tanto os menos favorecidos, os quais nos traziam frangos caipiras, dúzias de ovos postos em ninhos feitos  num galho mais alto da jabuticabeira, vassouras feitas ali mesmo, na roça onde moravam, mel puro, como suas almas da mesma qualidade, e uma infinidade de presentes que me escapam da lembrança.

E um sonoro “Deus lhe pague, acompanhado de um “bom trabalho”, ou até mesmo um agradável “obrigado doutor”, via de regra era a despedida, depois de um aperto de mão bem forte, por vezes um abraço bem dado, até mesmo um beijo por mim evitado.

Os tempos fraternos, infelizmente, se foram. E quem consegue botar freio no tempo? Se pudesse, e meu dinheiro desse, cuidaria desse grande detalhe. Impossível  conseguir tal feito maravilhoso. Até hoje, talvez no futuro se consiga. Mas não estarei aqui para constatar.

Estamos em meados quase de 2017.  Abril nos mostra a cara, hoje, sete de abril, caiu uma chuvinha mansa, que deve estar fazendo a alegria do homem do campo. A sua safrinha, de pouco plantada, deve estar ficando mais verde ainda. Logo logo os pezinhos de milho vão ficar grandinhos, em ponto de ir ao buracão, sob a forma de silagem.

Dias atrás fui sabedor de um acontecimento que se tornou mais e mais comum, nos infelizes dias dos tempos do ano em curso, nos anteriores, e nos próximos, irão ficar mais comuns.

Um colega da medicina, especialista ético, de ilibada conduta profissional, depois de negar um laudo que tornaria incapaz um paciente, o colega não julgou que sua doença era em verdade incapacitante, e não merecesse tal papel carimbado e assinado, com a finalidade única de conseguir uma licença longa por motivo de uma incapacidade fraquinha, assim que o paciente, de maus bofes, coisa comum nos tempos ruins que nos acenam, ao sair da sala do médico, depois da negativa, eu também faria o mesmo, passou a quebrar tudo ao derredor.

Não sei quantos quadros foram estilhaçados. Quantos enfeites foram quebrados, deles não restando caco sobre pedaços. Quanta descortesia foi passada.

Soube, por intermédio de outrem, que só não aconteceu a agressão a pessoa do experimentado profissional por pronta intervenção de sua diligente secretária. Que evitou  um mal maior.

Não foi esta a primeira e a derradeira vez que isso vai acontecer. Os BOs, as queixas crimes, estão espalhadas pelas delegacias de todo país.

Hoje, pensando nas idas e vindas da moda, no entra e sai das cores, do comprimento e descumprimento das saias,  ao ficar ciente e consciente da agressão sofrida pelo colega, sabe-se que incidentes iguais perambulam por toda parte, passo a me lembrar dos anos de antigamente. Quando a relação médico paciente era quase igual ao de um pai ao filho querido e respeitador, coisa que hoje não mais existe. Pena…

Tá virando moda a falta de respeito. Os pacientes cada vez mais culpam a pessoa errada pelo atendimento falho que o sistema oferece, atestando  que a saúde é dever do Estado e direito do cidadão.

E os nossos direitos, dos médicos? Quem vai cuidar deles? Ainda não sei. Se soubesse ditar a moda, caso fosse uma estilista famosa, confesso que roupa não me faz a cabeça, muito menos o corpo, ainda em forma, mesmo sabendo que a velhice é uma fábrica de monstros, a solução contra a dissolução, em minha tacanha opinião, seria voltar aos bons tempos de antigamente.

Sei que meu desidério é mais uma utopia minha. Das tantas cultivo nos fundos da horta, de um quintal que não mais tenho.

Mas, como vivo sonhando, acordado, durmo pouquinho, acordo com as galinhas, tomara, num futuro incerto, sei que não está perto, a distância que nos separa dele é mais longínqua que a terra das estrelas, o trabalho médico, de vital importância e relevância à felicidade humana, ainda vai ser reconhecido, não pelo salário vil que o serviço público nos remunera nos tempos hodiernos, e sim pelo respeito dos tempos de outrora, que em má hora se foi, tomara ele retorne, como quando voltei das terras de Espanha, na cidade maravilhosa meus pais me esperavam, e eu, do meu lado, esperava mais respeito e dignidade oferecido ao profissional de branco, que hoje não mais se usa, por motivos vários. Mais uma vez, pena…

 

 

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