Por onde anda o peixe vivo? Teria ele morrido?

Já disse tantas e tantas vezes, nunca seria demais repetir, que as reminiscências fazem, fizeram e hão de fazer parte tanto das minhas memórias, ao mesmo tempo norteiam o meu futuro, indicam o caminho a seguir.

Aquela rua, que me olha pelos fundos, hoje transformada, transfigurada, mudada, como todos nós mudamos, não apenas faz parte inequívoca do meu passado, não desejo e não quero que fique sepultado, assim como, ainda hoje, o menino idoso que ainda mora dentro de mim por ali passa, ao ver a tarde quase morta, lá venho eu, de novo, a falar da morte, embora a vida me atraia tanto quanto a linda mulher que não se veste apenas com vestes coloridas, ricamente ornadas de pedras preciosas, e sim com os mesmos trajes com que veio ao mundo, aliás, nada.

Ali, naquela casa que me olha pela janela dos fundos, à Rua Costa Pereira de número 152, moraram meus pais, meu irmão Fred, e minha outra irmã, de nome Rosinha, na ingenuidade fagueira dos seus mais de cinquenta anos, embora ainda seja chamada de Rosinha. Sobre ela já disse: “anjos não morrem. Eles se perenizam ad eternum, embora a eternidade seja puramente mais um devaneio meu”.

Hoje, na volta de um posto de saúde de nome pomposo, situado na zona norte da cidade, nas proximidades do campo do Fabril, não pelas próprias pernas e sim pelas rodas seguras da Autrotrans, ônibus habilmente conduzido pelo motorista de nome Geraldo, pedi-lhe que me deixasse nas proximidades do campo santo. Prefiro este epiteto a cemitério.

Não tinha a intenção de ali parar. Mas o fiz.

Entrei portão adentro daquele logradouro que tanta paz me traz na intenção de visitar o túmulo dos meus pais. Parei alguns minutos a orar pela paz que tanto almejamos, pelos seus descendentes, até a geração do meu netinho Theo, o qual meu pai, seu bisa, não conheceu. Nem ao menos a minha mãe Rute não teve a felicidade de botar os olhos naquela linda criança, que vive aqui pertinho do meu consultório, onde o urologista ainda mora, ao lado do escritor fecundo, o qual a terra não vai engolir. Meu corpo sim, mas minhas obras vão estar ainda a olhar o passado com a mesma saudade que me cavouca o peito, e não me deixa deixar de cortejar o passado, não por não querer e sim por não poder.

Desta feita não fui a outro túmulo em outra alameda daquele campo santo. Ali restam não apenas saudades. E sim as ossadas já incorporadas a cal, dos meus avós Rodartes, e do meu tio Rui, a quem desejo prestar mais essa homenagem das tantas que ele já recebeu.

Foi ele a quem chamei de Peixe Vivo. Talvez me lembrando da música que imortalizou um presidente, meu colega de especialidade, JK, foi ele quem concretizou Brasília (creio que depois se arrependeu, pelas podriqueiras que começaram a ser descobertas dali).

“Como pode um peixe vivo viver fora d’água fria. Como poderei viver, como poderei viver, sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia. Os pastores dessa aldeia fazem prece noite e dia. Como poderei viver”…

Rui Rodarte, filho do casal Rodartino Rodarte e Umbelina Alvarenga Rodarte, nome do prédio que meu pai edificou, no lugar onde eles moraram, perto da caixa d’água que dá começo à rua, casarão que eu mesmo ajudei a demolir, como neto mais velho dos primos, e levei todos os escombros a minha roça em Ijaci, menos a poeira da saudade, que se esvaiu do caminhão, era dono de um cartório situado no antigo prédio remodelado do Fórum, hoje destinado às pequenas querelas, agora em mãos sábias e generosas do primo Luiz Carlos Rodarte, irmão do Pedro, meu dentista predileto, cujo consultório ainda mora no mesmo lugar onde moraram nossos avós.

Como primeiro sobrinho do tio Rui, o qual era epitetado de Cabrito, não sei por qual razão, fui incumbido de escrever sobre ele, embora a minha capacidade nem de longe se equipare a sua bondade e conhecimento das causas cartoriais.

Tio Rui morreu em minhas mãos. Depois de um mal súbito que teve começo em Cruzília, segundo o primo Luiz. Ainda me lembro de quando o operei da glândula prostática, quanto trabalho ele me deu. Não tanto quanto estive com a bexiga aberta o seu irmão mais novo, o tio Rúbio Rodarte, xodó da minha mãe Rute. Creio, por ser o caçula, era também da vó Belica, a do jardim elevado, com suas roseiras floridas, com que carinho das rosas cuidava.

Tio Rui nos deixou bem cedo. Aos sessenta e sete anos, da minha exata idade, ele daqui partiu. Deixando não apenas saudades, das pescarias, não me lembro bem, mas o seu sucessor, primo Luiz, disse-me a pouco que fomos nós três, tio Rui, eu e o dono do cartório, agora nas dependências do clube de Lavras, a uma cachoeira, quase perto da casa de Camargos, que o Paulo José de Abreu meu pai, nos fez presente, a mim e a meu irmão Fred.  Não sei quantos, e se pescamos algum dourado ou surubim. Ou se foi no anzol de cobre, mera história ou conto de pescador mentiroso. O fato é que o Cabrito, ou tio Rui, marido da querida Dorinha, Dodó, como os que a amam a chamam, que é mantida viva e risonha na casa da Rua Costa Pereira, por onde sempre passo, quando encontro o portão verde aberto, idem adorava ir a São Paulo, ali passar dias olhando pro alto os arranha-céus, principalmente na esquina conturbada da Avenida São João com a Ipiranga, ir ao prédio do Mappin, talvez para comprar uma quinquilharia a dar aos filhos, nominados antes.

Luiz Carlos Rodarte, tabelião conhecedor do assunto, versado em leis, hoje mesmo me afirmou ter aprendido o ofício com o seu progenitor. E que sentia muito não ter convivido com a idade avançada do pai, sem poder ter visto a barba branca do tio Rui.

Rui Rodarte, não uma lenda, e sim tabelião provado e comprovado, mesmo considerando-se a curta permanência entre nós, que em sua cidade natal deixou amigos fecundos, também foi produtor rural em Ingaí. Pena que jamais pude conhecer os mugidos de vaca e cheiro de curral que ali se escutavam e sentiam.

Rui Rodarte, pai do Luiz Carlos e do Pedro, avô da Natália e do Pablo, se aqui estivesse contaria com noventa e um anos. Bem que poderia!

Não afeito ao esporte, talento não passado aos filhos, Rui padecia com a sua asma brônquica. Usava a tal bombinha famosa. Não vivia sem ela e a querida tia Dora.

Para finar, pergunto: “como pode o peixe vivo viver fora d’água fria”…

Já eu confesso, de peito e coração abertos, não posso viver sem as minhas lembranças, principalmente as que da minha janela se avistam…

 

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