Já senti às costas mais leve o peso do mundo

Hoje, ao descer a rua, um pouco mais tarde que o costume, era seis e meia da manhã, outono seco, fresco, depois esquenta, deparei-me com um jovem magricela, feições alegres, indo em direção a estação rodoviária, levando uma enorme mochilas às costas.

De pronto retirei um dos dois fones de ouvido de onde eles estavam inseridos. Como usual escuto música de boa qualidade para tentar afastar de mim o ruidoso ronronar dos carros, os latidos de cães, as conversas de péssimo paladar, o murmúrio incômodo das buzinas, toda e qualquer balbúrdia que soa mal aos meus aparelhos auditivos. Mesmo assim por vezes não é possível. A azáfama da cidade despertando fala mais alto que o canto mavioso daquela cantora sertaneja, se não me equivoco trata-se de Roberta Miranda.

Fiz o jovem parar. Nem foi preciso fazê-lo perder muito tempo. Foi rápido o nosso colóquio.

A ele inquiri, de pronto, sem fazê-lo assustar-se com a interrupção brusca, com a seguinte pergunta: “essa mochila não é pesada demais aos seus ombros frágeis, o peso não faz mal a sua coluna delicada, o que leva em sua mochila enorme”?

Ele estacou imediatamente. Com um sorriso jovial assim respondeu: “em absoluto. Em minha mochilona carrego roupas, utensílios de higiene pessoal, coisas minhas, nada mais”.

E continuou, tinha tempo, o ônibus apenas saía em mais de hora e meia, e o rapaz já estava bem perto da estação onde os ônibus intermunicipais param e empreendem viagens novas, não é novidade a ninguém.

“Não tive a curiosidade de ver o peso da minha mochila. Ela deve pesar por volta de quinze quilogramas. E eu venho de longe, com ela às costas. Sou jovem, faço escaladas, subo montanhas as quais, da sua base, não vejo o píncaro. A caminhada de hoje cedo em nada se compara as minhas atividades de alpinista profissional, que me considero ser”.

E concluiu, depois de agradáveis minutos de prosa boa, afável, poder-se-ia dizer carinhosa entre ele e eu.

“Quando o senhor me parou para perguntar se a minha mochila não seria um peso pesado demais as minhas costas franzinas, a princípio estranhei. Não é comum, partindo de um desconhecido, de muito mais idade que a minha, me fazer parar na rua com um pergunta qualquer, a não ser saber as horas, onde fica tal coisa, se a tal loja abre antes de agora. Se deseja mesmo saber se a tal mochila é pesada demais aos anos que tenho na cacunda, forte, acostumada a subir altas montanhas em companhia de outras ainda maiores e mais pesadas, confesso que não. As coisas que levo dentro dela, roupas, o dinheiro pouco, o suficiente para ser feliz, levo na algibeira, numa carteira surrada. Não levo cartão de crédito, pois aquela coisinha de plástico me enseja a gastar mais do que posso, e minhas posses não permitem muitas extravagâncias financeiras, pois de momento apenas estudo, uma forma de ganhar a vida sem perder a alegria de viver. O peso da minha mochila, como o senhor vê, nada mais é do que um fardo leve demais frente a outros que a vida a frente vai me fazer suportar”.

Deixei o jovem ir adiante. Não lhe dei nenhuma reposta a sua fala inteligente. Nem tempo de tive de comentar os fatos de pouco anunciados pela mídia fofocante, a exemplo o assédio do qual tentou se desculpar um ator da rede Globo, muito menos sobre as últimas delações da operação Lava-jato, ou quem venceu os jogos de futebol da noite de ontem, e outras manchetes mais.

Segui adiante, na minha caminhada a um destino certo, o meu consultório onde o médico ainda existe, e o escritor se torna mais e mais atento ao cotidiano lindo que nos cerca, basta saber mirá-lo com as lentes especiais de que somos dotados, os de sensibilidade exacerbada, que enxergam numa flor que se abre um universo enorme de belezas maiores que a pobreza e a infelicidade que nos envolvem mais e mais.

Por falar em tristeza, em doenças, coisas afins, assim que minhas pernas peraltas passaram, já era mais de sete da manhã, perto de um bar muito frequentado, cujo nome pertence a uma linda ave chamada Cisne, um frequentador, amigo velho, apareceu correndo, assustado, pois lá perto jazia um homem caído ao chão.

Acerquei-me perto dele. Outras pessoas, solícitas, fizeram o mesmo. Por ser médico, embora não obrigado a dar plantões, mas assaz conhecido nas cercanias, fui o primeiro a tentar dar socorro ao jovem de face no asfalto.

Desvirei-o pelo lado certo. Ele estava caído de cara no chão.

Em sua testa se viam escoriações várias. Era um ferimento recente. Pelo visto, o senhor era ainda jovem, bem mais que eu, alguns anos a mais que o outro com quem conversei minutos antes. Aquela fora uma crise convulsiva secundária a epilepsia, doença da qual era portador, o jovem caído de testa no asfalto. Com a ajuda pronta de transeuntes embarcamos o senhor num carro que passava no exato instante. Não era uma ambulância, ou carro de bombeiro, qualquer viatura adequada a levar enfermos. Mesmo assim partimos, eu no banco traseiro, a segurar, pelos ombros, o senhor que já estava acordando do seu súbito desmaio.

Deixamo-no na Santa Casa, em mãos mais expertas que as minhas. Com a certeza de que ele vai ser bem medicado pelo plantonista que assumiria agorinha mesmo a urgência daquele hospital.

Agora, na certeza do dever cumprido, volto a falar sobre o fardo pesado que a vida nos faz carregar.

Aquele jovem, amochilado, alpinista, atleta, compenetrado e inteligente, com quem conversei minutos antes, achava a mochila leve demais.

E eu, com meus mais de sessenta anos, em mais três completo setenta, andando que nem criança, correndo furibundamente, nadando como pato de asas quebradas, qual seria o peso do fardo que o mundo deixa as minhas costas idosas? Mas ainda fortes o bastante para suportá-lo?

Seria um peso maior do que a mochila que o jovem alpinista carregava? Mais leve ou mais pesado?

No alto dos meus mais de sessenta e sete anos, ainda com saúde a vender, não por muito tempo mais, deixo, ao final do meu texto, um pedido, quase uma súplica: “por favor, não me lancem aos ombros um fardo maior que meus anos e desenganos conseguem carregar. Respeitem-me, não apenas a idade. E sim o desejo que ainda sobra dentro de mim de escrever, refém da sensibilidade maiúscula que muge dentro do meu eu”.

 

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