Aquela beijaflorzinha que recém deixou o ninho, felizmente, trouxe em suas asas maternais um filhotinho a cara do avô beija-flor

Há tempos tenho observado, entre admirado e convencido das maravilhas que a mãe natureza cria, primeiro um ninho de passarinho, que depois se mostrou ser de um casal de beija-flores, preso a uma folha de planta, de nome ráfia, escondidinho na varanda de minha casa.

Varei dias, semanas se despediram, e lá estava eu a vigiar o tal ninho, depois de constatar que dentro dele repousavam dois ovinhos clarinhos.

Todos os dias, pela manhã ali não passava, para não incomodar um dos pais debruçados sobre os ovos, a espera, ansiosamente, do dia e hora de dali, daquela casquinha frágil, saírem os dois passarinhos.

Um dia, creio que dois meses depois, assisti, extasiado, ao voo inaugural de tanto um, o primeiro, em seu voo solo, batendo as asinhas inseguras, esgueirando-se pelos ares, indo de encontro a um muro perto de onde nasceu. A seguir sucedeu o mesmo ao irmão, mais serelepe, que pousou num arbusto perto, depois desapareçam ambos dos meus olhos e dos pais.

Dois meses se foram, desde aquele momento mágico.

Minha amiga, secretária do lar, de nome Ângela, a mesma que me contou do ninho primeiro, noutro dia, aliás foi trasanteontem, que outro ninho havia sido feito, não no mesmo lugar, e sim noutro vaso de ráfia perto. Ali dentro estava apenas um ovo. Não dois, como no casso daqueles dois beijaflorzinhos. Que não mais voltaram ao pequeno lar onde nasceram, acredito, dentro da minha descrença, que os pais beija-flores nunca mais abraçaram os dois filhotes de dantes.

Ao contrário dos pais dos seres humanos que mantém em sua guarda os filhos meninos, crianças, até que elas consigam avoar por conta própria. E muitos ali ficam, mesmo preparados para encarar a vida, nas barras das roupas e do conforto da casa dos pais.

Um dia tive a felicidade, cinco anos após meu primeiro passarinho filhote nascer, não num ninho e sim numa maternidade própria ao nascimento de seres humanos, um passarinho, não um beijaflorzinho, por ser lourinho, nunca vi um pássaro louro, no máximo de cor amarela, não sei quando foi, com exatidão, sou péssimo para guardar datas e nomes de pessoas, minha amada passarinha, quase uma águia, uma falcoa, anunciou a segunda choca.

Desta feita era uma passarinha que se via no útero- ninho, da minha esposa passarinha.

Nove meses se passaram. Tempo longo demais para de o ninho eclodir um passarinho, mas, conhecedor dos caprichos da mãe natureza, em nosso caso foi diferente.

O primeiro beijaflorzinho saído do mesmo ninho- útero da minha querida passarinha já era quase um pássaro adulto, embora com apenas cinco aninhos. Em seu voo se percebiam incontáveis galos em sua testa ancha, por querer voar entre mesas e coisas pontudas.

Assim que nasceu minha beijaflorzinha femea (trata-se de redundância falar que beijaflorzinha, com a no final, é feminha), com que alegria nós dois, o casal de beija-flores adultos assistimos ao fragmentar da casca do ovo- útero da sua mãe passarinha, valente fêmea, que inda hoje cuida dos dois filhotes, já adultos, com o mesmo desvelo que uma mãe valente cuida do filho ainda despreparado ao primeiro voo.

Assim que nasceu nossa beijaflorzinha a nossa avezinha piava, cantarolava, ao revés de quando nasce um passarinho, que ainda não aprendeu a cantar, nem ao menos pia.

Ela, de nome esquisito para um pássaro, foi batizada com o nome de uma mulher brava.

Era, desde cedo, uma beijaflorzinha especial. Ativa, artiosa, ao mesmo tempo comportada. Não voava alto ao nascer. Mas, depois que passou a ser beija-flor mocinha, acabou voando solitária, pelos destinos do mundo.

Ainda me lembro, peito recheado de emoção, quando a minha passarinha empreendeu seu primeiro voo solo. Não o fez com asas próprias. Elas eram frágeis demais para voar tão longe.

Minha pequena passarinha aproveitou um ônibus que partia da rodoviária, perto do nosso ninho, para voar rumo a outra cidade, linda como era ela, maravilhosa como dizem todos que a conhecem.

Quando assisti a minha passarinha irrequieta, como as asas dos beija-flores, a tomar o busão para tão longe, tomado de comoção, quase dei voz de prisão ao motorista do veículo que a levaria para tão longe, fiz um BO, sob a alegação de que ele seria um ladrão de beijaflorzinha.

Anos se passaram. Como a minha pequena beija-flor mulher não mandava notícias, assim os pássaros caminham, não a gente, eu deixava a porta da cozinha da minha casa, olhava o ninho vazio e as saudades aumentavam. Tive a tal síndrome do ninho vazio. Pois meus dois passarinhos já moravam noutras plagas.

Mais tempo fiquei longe da minha beijaflorzinha.

Afinal, para gáudio tanto meu, como da minha mulher alada e armada de asas firmes para voar, mãe pássaro extremada, minha beijaflorzinha mudou-se para outra cidade. Onde primeiro ela pousou, depois de deixar o ninho.

Foi ali que ele conheceu outro pássaro da mesma espécie, a Trochildae. Sorte dela, e nossa, pois, no Brasil existem 108 gêneros e 322 espécies de beija-flores e eles se elegeram como marido e mulher beija-flor.

Era um macho beija-flor meio arredio. Quando o seu beija-flor, de bico empinado, longo e ameaçador, usava o mesmo elevador que nós, os ainda não avós beija-flores, parecia que o tal passarinho não nos apreciava a plumagem. Era meio avesso a amizades, aquele pássaro moreno, parecendo estudioso e de gênio forte, sempre amochilado, mal mostrava o sorriso, sisudo por demais, jamais pude descobrir de que cor seriam seus dentes (ah!, ia me esquecendo, beija-flor não tem dentes).

Anos mais se foram, na bruma nevoenta do tempo.

Um dia soube que minha beijaflorzinha havia encontrado seu pássaro macho ideal. Fiquei um tanto enciumado, confesso, a princípio. Depois aceitei o inevitável, todo casal, seja de qual espécie for, deve procriar, construir o próprio ninho, para dali nascerem outros filhotes, alados ou dotados de pernas e braços.

Foi o que aconteceu a minha beijaflorzinha especial. Ela e seu par, por sorte dos avós beija-flores, construíram um ninho porto seguro aqui mesmo, pertinho de onde escrevo.

Desse ninho branco, não do mesmo porte do ninho feito na folha de ráfia nos fundos de onde moro, um dia, oito ou mais meses depois, ainda mora no ninho prédio muito bem feito, bem maior e confortável que aquele que, um deles se tornou um ninho vazio, um lindo beijaflorzinho louro, sem penas, sem bico, sem asas. Seu nome é Theo.

Hoje, cinco de abril, minha beijaflorzinha faz anos. Não sei, de beija-flor fêmea mulher não se alardeia a idade.

O fato retrato é que estamos, tanto eu quanto minha esposa alada, de nome Rosa, Rosemirian, para ser mais exato, estamos muito felizes em comemorar essa efeméride ao lado dos dois beija-flores, aliás, são quatro. Falta ainda um pequeno detalhe, para se tornar completa a nossa felicidade, que já é bastante. Mas não basta. Que de meu outro beija-flor, o macho, apareça mais um ovinho, que sejam dois, para daquele ninho outro passarinho bater asas, em direção a alegria de ter dois filhos e genros lindos, como os beijaflorzinhos recém-saídos do ninho da folha de ráfia na varanda da minha casa.

Se disser que o beijaflorzinho nascido da minha beijaflorzinha que sabe escrever como o pai é muito parecido ao beija-flor avô, posso estar faltando com a verdade. Mesmo assim perdoem-me a ousadia.

Afinal hoje, cinco de abril, é o dia do fazer anos da minha pequena jornalista, linda passarinha, de nome Bárbara, nome de passarinha mulher brava, mesmo assim ela fica doce com o beijaflorzinho Theo nas asas hoje seguras a empreender um voo solo, mas, tomara ela e seu beija-flor cirurgião plástico fiquem por aqui mesmo, bem pertinho da janela do meu consultório, onde escreve feliz o avô do Theo, um dia, quem sabe, a família dos beija-flores aumente, pra quantos, só o deus dos beija-flores sabe…

 

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