Não é novidade quando falo, ou escrevo sobre reminiscências. Tudo ao derredor de mim lembra o passado. Não que me sinta velho, um sapato gasto, sola furada, que antes era negro e agora jaz, desbotado, a espera que eu o doe a um qualquer. Mas, do alto dos meus sessenta e sete anos, a essa idade segue-lhe um oito depois do sete, ao fim do ano, dezembro, ao seu começo, se já me sentia idoso vou me sentir um cadinho mais.
Embora minha saúde ainda esteja na ponta dos cascos, ou, exemplificando melhor, na ponta do tênis, desacostumado a fazer exames por fazer, muitos laboratórios clínicos me acusam de sonegador de exames, nada contra quem faz check ups a cada ano, existem os que repetem os exames mês a mês, pura desnecessidade. Bem sei que o exame da próstata deve ser feito, antes o de sangue, o PSA, a seguir o toque, quando o paciente apresentar sintomas urinários ou o tal PSA estiver acima dos limites considerados normais, há os que preconizam o toque e o exame de sangue a partir dos quarenta e cinco, já outros, mais prudentes, o indicam antes, principalmente se sintomas existem ou no caso de câncer de próstata na família.
Chega de falar na minha outra paixão, a medicina! Como parte dos meus leitores sabe, a urologia é a especialidade com que me casei. E a literatura a amante com a qual sempre sonhei.
É sobre o passado, as lembranças, as saudades dos verdes anos da minha vida, que volto a falar nessa manhã de outono, abril mostrando o amarelo luminoso do sol, o azul faiscante do céu, o secume do ar, que tanto mal faz aos meus pulmões e narinas que acordam entupidas, a respiração que se manifesta ruidosa, com uma chieira que me lembra bronquite. Embora essa doença, própria dos fumantes, nunca tenha se alojado dentro de mim.
No fundo de tela do meu computador que deve estar fatigado por tanta coisa escrita, de tempos recentes nela inseri uma fotografia minha, um cadinho antiga, a de minha saudosa mãe, quase ao fim da vida, e da minha elegante esposa, mais linda que dantes, quando a conheci.
Nessa imagem citada antes eu ainda tinha uma farta cabeleira. Quase um topete ainda castanho desfilava garboso por sobre a minha testa hoje mais descoberta, quase uma pista de pouso onde ainda nenhum avião aterrissou até hoje. Ainda sobre a foto que faz pano de frente na tela do meu computador uma barba mesclada de preto e branco cobre-me a face. Um ar galhofeiro se mostra no meu semblante, como se dissesse: “vejam, sou um velho ainda querendo se sentir menino, embora o menino que morava em mim se foi, faz tempo”.
A face da minha mãe, dela exala um ar sereno. A da minha esposa é composta por um sorriso como se dissesse: “estou muito bem, melhor que dantes”.
Sobre essa fotografia, que um dia inseri a frente de onde escrevo, ao ligar a máquina tão preciosa, fundamental para arquivar meus incontáveis escritos, desejo tecer comentários sobre Ah!, quando eu tinha…
Na época eu tinha uma barba, que um dia foi castanha escura, mas logo depois embranqueceu novamente. Os cabelos eram fartos, careciam, para ficarem bonitos, da ajuda de uma escova para se mostrarem do jeito que a foto mostra. O bigode já era mais branco que o castanho que antes se acastanhava bem mais. O cabelo farto, escuro, não era pintado, como até hoje não tento fazer o aspecto de jovem voltar atrás. O abdome era mais protuso do que o de agora. Era eu mais obeso. O atleta que se escondia dentro de mim ainda estava dormindo, preparando-se para despertar nos dias de agora. Na fotografia, feita há tempos atrás, não se podia ver a panturrilha. Agora, anos de 2017, ela ficou mais pétrea que o trilho do trem, quase igual aquele por onde fungava a Maria Fumaça, que foi engolida pelo passado e hoje repousa num museu, que conta e reconta a história lírica dos primórdios de quando o trem de ferro era um importante elo por onde escorriam as riquezas do Brasil.
Quando eu tinha vinte anos, no viço da juventude, talvez não tivesse a saúde que tenho hoje. De fato, sobre a glândula prostática, ela não era tão hipertrofiada como se apresenta agora. E não provocasse tantos sintomas miccionais.
Aos menos de vinte, em criança, talvez a pureza fosse mais difundida dentro do meu eu. Mas, agora, que sou idoso, não tanto formoso, só quem pensava assim já se foi, aquela grande dama que pousa junto a mim e a minha esposa, na fotografia que estampa a tela grande do meu computador sofredor.
Mas, para que ser puro, casto, se a idade, quase a similitude, já se apossou de mim? Agora, ao olhar as moças lindas, traseiros arrebitados, peitinhos perfeitos, sem serem empinados por silicone, ancas fecundas, boas criadeiras, mais tarde mães leiteiras, apenas o faço sem intenções malévolas. Olhar não paga pedágio, muito menos queima a retina da menina dos olhos.
Quando eu ainda tinha a esperança de enricar, que bom que a vontade passou. Agora, aos quase setenta, já que a derradeira esperança de ficar rico foi esquecida, só espero a riqueza dos descendentes que os meus genes herdaram, não de dinheiro, e sim de felicidade plena.
Quando a idade nova era consistente, não uma lembrança esquecida, eu jamais imaginaria que a felicidade se misturasse a singeleza do singelo. O simples e puro, encontrado nas boas gentes, mãos caludas, que vivem no cenário bucólico dos campos, tendo as matas como pano de fundo, ainda não fora descoberto, como um sintoma inequívoco de ser feliz, até que a morte apareça, com sua carruagem negra, puxada por corcéis da mesma cor.
Ah!, quando eu ainda tinha juízo, quando?, não sei, nem sequer imagino, confesso, sem medo de ficar de castigo, quantas e quantas vezes fiquei assentado a uma cadeira dura, a espera do aval do meu pai para me afastar dali, não chorava, muito menos fazia birra, meu costume era pedir um copo de leite morno, dizem as lembranças que eu, menino, odiava leite, agora não mais o renego, bem sei das dificuldades que o dono das vacas tem na produção leiteira, o tal juízo ainda não me deixou olhando o vazio. Não se despediu de mim.
Quando eu tinha meus pais por perto não lhes dava o devido valor. Agora, que eles se foram, sem minha licença partiram, é que pressinto, o quanto deveria me achegar mais a eles, dedicar mais meu tempo no zelo deles quando de mim precisavam, nas suas enfermidades.
Ah!, quando eu tinha, ainda a tenho de sobra, saúde, bem sei que um dia ela vai me abandonar, a exemplo do acontecido aos meus pais, desejo, através do testamento, em forma de um texto, não muito longo demais, pois as crônicas devem ser breves, como breve não deve ser a vida, quando eu morrer, já que um dia vou ter de morrer, como último desejo, por favor: não chorem ao derredor do meu caixão. Podem contar piadas. A vontade. De mulheres bonitas, fartem de darem risadas. De português, cuidado com o sotaque.
Quando eu tiver, não quando eu tinha, o pé na cova, mais um por favor. Não se olvidem do passado. Ele não deve ser sepultado. E sim ficar vivo, embora a morte o matasse. Um dia, quem sabe, quando eu disser, quando eu tinha, referindo-me ao antes, não deixem o antes morrer. Ele faz parte uníssona e indivisível de mim.