Quem, no dia de ontem, sete de setembro, não teve o prazer e o privilégio de assistir, nem que seja um cadinho. Que seja na praça principal de sua cidade, ou mesmo um arraialzinho perdido onde alguém perdeu as botinas que de tão velhas não voltou pra encontrar e calçar de novo cheinha de chulé.
Como eu tive a felicidade de ver aquela farra das fanfarras. Que me fez recordar meus bons tempos do Instituto sobre o qual dizem bem dito: “a gente pode sair do Gammon, mas ele não sai de dentro da gente”.
Naqueles idos, perdidos e impossíveis de serem encontrados. Mesmo na tentativa malograda de fazermos uma viagem imaginária ao passado. Pegando carona numa máquina do tempo. Que contratempo… Isso só acontece na minha cabecinha ocada lotadinha de invencionices minhas.
Na gloriosa fanfarra daquele instituto só sobrou pra enfiar na minha boquinha uma flautinha docinha. Esse nome flauta doce não sei a razão que a batizaram com esse nome. Já que de doce ela não tinha nada. Aonde eu assoprava era uma coisinha sem gosto de nada. E o som que saía daquele instrumento de sopro nada se parecia a uma melodia igual a uma valsa dolente que não apenas encanta a gente como nos faz bailar horas e outras num salão de baile num belo clube como o daqui de Lavras onde dancei incontáveis vezes na minha mocidade perdida.
Chega de falar em reminiscências. De cultuar o passado. A ele não consigo voltar mesmo que queira. Agora, nessa quase aurora da minha vida. Só me sobra, não com muita sobra, nos meus mais de setenta. Faltam apenas quase quatro para chegar aos oitenta. E nem sei se lá irei chegar. Melhor nem saber e ignorar o que me reserva o futuro. Quando eu tiver de morrer, contra a minha vontade. Se eu estiver de olhos fechados, com minha respiração em suspenso. Tentem me ressuscitar não dando um murro forte em meu peito. Sim, peçam a uma linda mulher. Se ela não estiver presente procurem uma mais linda ainda nos arrabaldes. Como eu não posso pedir, já que semi morto estarei. Supliquem a ela, em meu nome, que ela deposite seus lábios nos meus. Faça um boca dela na minha, que se transforme num beijo que só vai terminar no instante mágico que eu abrir meus olhos. Olhar nos olhos dela e reviver novamente.
Andando ao redor dessa praça, cheinha de curiosos. Nesse dia feriado. Sem nada a fazer a não ser admirar a farra das fanfarras. A exibição de poderio de nossas forças armadas. O lindo desfile dos estudantes de centenas de colégios. Não os particulares e sim municipais e estaduais. O bater pernas compassadas de entidades educacionais e assistenciais. No palanque armado assistiam ao desfile autoridades de nossa comarca, militares e civis. Candidatos andavam as nossas costas. Fingindo-se nossos velhos conhecidos embora pra mim nunca vistos. Deixando santinhos nada santos em nossas mãos. Caçando votos. Inda bem não serem caçadores de animais.
Lá em cima. Nas proximidades da Santa Casa, onde teve começo o desfile.
Já estava prontinho a atravessar a rua em direção ao apartamento onde inda moro.
Quase onze horas, cedo ainda para o almoço.
Em meio à multidão, crianças de colo, velhos, moços e mocinhas lindas e feinhas. Pais de família que me eram ou não familiares.
Deparei-me com um mocinho, pra mim um dos que me pareceram aqueles filhos cangurus. Meninotes que passam dias inteiros sem nada a fazer. Num dolce far niente ( doce fazer nada).
Ou pichando paredes, arriscando a própria vida escalando, como homens aranhas que não são. Se bem que gostariam.
Cabulando aulas deixando seus provedores encabulados. Pensando estarem às escondidas fazendo de conta que pitam cigarrinho de palha e ao revés. Quando a polícia passa o cheiro de maconha exala no ar.
Esses moleques inconsequentes, da geração “nem nem” ( não confundam com neném). Eles não querem pra si mesmos um neném as suas costas. Pois não têm condição de tratar, nem educar. Mal educados que são.
Esse cabeludinho, todo tatuado, aquele rebeldezinho sem causa. Embora tenha casa. Ali, se chega logo sai. Ou por conta própria ou expulso pelo pai zangado. Com carradas de razão. A razão, pensa o moleque tatuado sempre fica do seu lado. Sempre dezarrazoado (essa palavra acabei de inventar e espero logo faça parte de um dicionário).
Nos pés ralados uma sandália pedindo por uma novinha em folha. E esse danadinho molequinho atrevido até que tem dinheiro surrupiado do bolso vazio do seu infeliz pai. Bem que podia comprar um tênis de bom pedigree. Mas ele me disse que gosta, e muito de se parecer a um “neo-hippie”. Não aquele que tem pelas horas de ociosidade as melhores que vive e pensa continuar do mesmo jeito desajustado. Vendendo quinquilharias em passeios sem asseio em praças públicas. Defecando em latrinas químicas naquelas casinhas improvisadas que são retiradas depois da festança ir embora.
Dei uma paradinha no passeio pertinho de onde inda moro.
Preocupado com o porvir de nossa linda nação de nome Brasil.
Nesse ano dos milagres, véspera de eleições. Não confundam eleição com ereção. Uma coisa é uma a outra vem em segundo.
A primeira termina em outubro. A segunda deveria terminar após o ato sexual falido. Por azar de uns acaba no meio, ou antes do ato propriamente dito.
Vendo aquela farra das fanfarras. Estudantes, pessoinhas purinhas ou não. Sonhando com um futuro mais alvissareiro e acordando em meio a esse pesadelo em que o país se encontra. Não carece ir longe, basta olhar pro próprio nariz. Olha em direção a Brasília ou a qualquer cidade, perto ou distante. Melhor ficar de olhos fechados e ouvidos atentos. Ou então fechar ambos e permanecer surdo, cego e mudo as maracutaias que pululam em nosso entorno.
Na curta prosa que tivemos, eu e o cabeludo riponga. A ele perguntei não preocupado com a resposta que ele iria me dar.
“O que o senhor espera, espero que não desesperado. Pra você mesmo e pros demais. O que vai ser das crianças, dos jovens que não mais sou. Num futuro dos que irão viver em nosso país amanhã”?
O tal, pensando ser o talzão (nada a ver com o Tarzan, rei da selva).
Me disse num muxoxo chocho, entre dentes de ouro e a maioria podre.
“Tô nem aí. Que o barril de pólvora exploda. Se a vaca for pro brejo eu não vou desatolá-la nem que a porca tussa. Pra mim quero sombra e água fresca se estiver calor. Se for um dia frio melhor água quente ou morninha inda melhor”.
Não sei e nem quero saber o nome daquele tatuado riponga.
Dei-lhe o nome de “Sombra e Água Fresca.”
Se vocês acharem outro melhor rebatizem-no, por favor.