“Mas não sou…
Gostaria de ser como você, não tão grande, da mesma idade sua, já passando da idade de se aposentar ainda não parou de trabalhar e pensar. Desfrutando dessa saúde quase perfeita não fossem umas coisinhas perfeitamente ajustáveis. Tais como uma gripezinha insossa que só lhe faz de quando em vez espirrar, tossir encatarrado. Ter vontade de mandar seu nariz pras cucuias. De tanto que ele vive entupido e tens de tirar melequinhas de dentro dele com seu dedo. Não esse que usa para tocar a próstata dos seus pacientes. Quando ainda eles te procuram e te acham aqui mesmo onde estás agora. E sim outros quaisqueres. Queria ter um cadinho apenas da inspiração que te cavouca por dentro. Um quezinho da criatividade que tu tens quando escreves um romance ou mesmo uma das tantas crônicas que já deixaste escrita. Sua disposição para fazer das suas pernas andejas seu único carro. Essa caminhonete branca sempre parada à porta do prédio onde ainda mora já que na próxima semana deves mudar de endereço. Queria tanto ser um pouquinho só igualzinho a você. Mas infelizmente você é essa pessoa de mais idade. E eu apenas mais um pretendendo ser igual a você”.
Essa prosa boa, uma das melhores que já tive nos meus muitos anos . Foi no dia de ontem. Numa hora mais tardia, quando a tarde pediu licença a noite para dar lugar a ela. Pois estava cansada de ser tarde e cobiçava ver a lua despontar entre as estrelas na escuridão de mais uma noite. Era um bando de meninos, que não sei se me esperavam próximos ao portão daquele maravilhoso clube que não apenas faz parte do meu passado. Entra meu presente adentro. E espero que junto a mim compartilhe meu futuro. Dando-me de presente mais saúde, alegria, horas felizes na academia. Nas quadras de tênis onde disputei aguerridas partidas em dupla com meu pai. Infelizmente não tenho a primazia de fazer aulas desse esporte, no meu entender o melhor dentre os melhores com meu filho Stenio. Um baita advogado e tenista. Do qual espero dias melhores e que deixe como legado ao seu filho, meu netinho querido de nome Gael. Um cadinho de suas inúmeras virtudes. Sua seriedade, ética, competência profissional bom entendedor de leis como ele é. Exímio professor de tênis. Opinião não só minha e de todos que o conhecem.
No mesmo dia de ontem. Antes de chegar a passadas lentas a esse clube. Depois de um dia inteiro assoberbado de coisas a fazer pela cidade. Aqui, como de rotina, tenho tido minha agenda vazia de pacientes e lotada de inspiração a escrever.
Desdobro-me entre esse computador onde a inspiração suspira por crônicas. Um pretinho a minha direita metamorfosei-o-me em romancista.
Ao passar por uma praça agora encoberta pela escuridão da madrugada.
Vi, com esses meus dois olhos, um enxerga melhor de perto. O segundo me permite ver ao longe.
Um lindo ipezinho carregadinho de florzinhas brancas.
Ia por um passeio a fim de chegar depressa a esse clube de nome LTC.
Ouvi uma vozinha ali pertinho falando-me essas palavrinhas.
“Doutor escritor Paulo Rodarte. Atravesse a rua com cuidado. Vai por onde tem faixa de pedestre para não sair enfaixado do outro lado. Achegue-se a mim. Não tenha medo, pois, jamais irei te fazer mal. Sou uma das florzinhas prestes a cair dessa minha árvore nanica. Esse pequeno ipê que pela vez primeira floriu. Olha nos meus olhos. no miolo dentro das minhas pétalas branquinhas. São dois como os dois que o senhor tem. Pare um cadinho! Tenho lhe visto sempre apressado. Respire profundamente. Encoste seu nariz sempre entupido na minha carinha. Sinta meu cheiro. Por certo o senhor não vai sentir odor de sovaco fedido nem de um pum mais fedorento ainda dentro de um elevador apertado como o do seu Edificio das Clínicas. Uma grande árvore, minha maior amiga. Com a qual dizem termos tido um caso. Essa velha Tipuana aqui do lado. Entre seus galhos mais altos. A pobre tem de se manter, dada a idade provecta abengalada senão vai se deitar no gramado desse jardim e virar lenha pra fogueira. O senhor sabe o que ela me contou e não pediu segredo? Se eu fosse você, com essa idade bem mais alta que o Edifício Empire States que já foi o mais alto do mundo. Depois de viver quase cem anos ao lado de uma mulher. Bem mais bonita que o senhor. Com a qual teve dois filhos lindos e eles lhe deram três netinhos mais lindos ainda. Mesmo levando suas vidas divididas entre quatro paredes entre rusgas, discussões, diferenças de opiniões, desavenças conjugais. Não seria melhor pensar um pouco mais antes de decidir pela separação? Tenha cuidado antes de tomar a decisão final. Se se arrepender e voltar atrás ela pode não querer viu? Como te alertei, ao atravessar a rua, vá pela faixa zebrada senão podes levar um coice das linhas iguaiszinhas as das zebras listadas. Se eu fosse você não tomaria essa decisão tempestuosa. Quando tiver de sair à rua, se o tempo estiver cinzento leva o guarda chuva. Antes prevenir a tomar o remédio errado. Bem sei que nada sei. Dizem que quem está na chuva tem de se molhar. O senhor, na sua idade, sem saber e sei que não tens muito tempo a viver. Pra que tentar mudar de vida? Continua escrevendo, acordando com as galinhas. Segue o conselho do seu velho e amado pai quando ele, prestes a se aposentar como gerente de um banco que tem o mesmo nome de nosso Brasil. Deixou-te como lição de vida esse dito: “não aposentes nunca meu filho. O ócio, não entendas bócio. É o começo do fim”. Se eu fosse o senhor, doutor Paulo Expedito Rodarte de Abreu. Repensaria sua decisão. Aquiete-se. Sossega leão”…
Já passava das seis da tarde. O céu escurecia. Estava atrasado para malhar na academia.
Depois de um dia cansativo que me fez pensar muito mais do que tenho pensado.
Olhei pra aquela florzinha enxerida despetalada do jovem ipê e a ela respondi não muito contrário aos seus sábios conselhos.
“Ainda bem que não sou você sua florzinha metida à besta. Se conselho fosse bom não seria dado de graça sua desgracinha metida. Seria vendido bem caro”.
Saí dali pensando com meus botões. E nem olhei pra trás pra ver se a florzinha branquinha do jovem ipê estava falando sério ou não.