Qual a maior dor do mundo nos seus entendimentos?
Uma topada de pés descalços numa pedra dura no meio do seu caminho? Numa caminhada solitária a beirada de um belo lago?
Quando, desavisadamente cai, de repente, alguma coisa pesada, de uma prateleira de um supermercado ou de uma estante lotada de livros. E, uma mão vinda de não se sabe donde, empurra um dos livros mais pesados. Pode ser Dom Quixote de Cervantes, ou até mesmo um livro que conta histórias da passagem de Jesus nosso Deus por aqui na terra antes de ser imolado na cruz por aqueles infiéis. Seres ditos humanos nos quais confiava e eles. Nós mesmos, em tempos díspares. Apunhalamos aquela pessoa de olhos tristes, caminhar lento, com a face crispada de sentimento, aquele que não se deixa ver, mas existe. E pode ser visto em cada pedra em nosso caminho. Numa curva da estrada, numa reta, subida ou descida, numa florzinha despetalada de um velho ipê. Dos tantos que se deixam ver por aqui nesse tempo seco de agosto fechando olhos para dar entrada a setembro.
Já deixei escrito distintas vezes e repito: “ por mais que as dores existam. Eu, como médico especialista. Eu mesmo já tive uma pedrinha que desceu me fazendo contorcer de dor no seu deslocamento rim à bexiga. Outras pedras de maior tamanho, impossíveis de nos livrarem do incômodo que sua existência inesperada. Esse cálculo renal , nem calculem o mal que ele faz as nossas vias excretoras no seu caminhar dos rins até do lado de fora. Os pequeninos podem sair espontaneamente. Os grandões têm de ser sacados à fórceps como um bebê teimoso que não nasce pelas vias normais e um médico, de nome obstetra. Um parteiro titulado e diplomado em medicina. Tem de cortar o ventre da mamãe. Uma cirurgia feita em extrema precisão. De nome cesariana ou cesárea, que intima a mãe de fresco a ficar internada por tempos que variam caso a caso. Tudo isso para dizer que a dor é inevitável. Já o sofrer, no meu entender opcional. ”
Esse meu costume, pra mim quase uma catarse, uma obsessão, de acordar sempre a mesma hora. Não fazer hora e aqui chegar inda com a lua tentando acordar depois de uma noite bem dormida no cantinho da sua caminha com o sol. Pôr pra funcionar meus três sonolentos computadores. Dar de comer aos meus peixinhos que se dormem podem afogar nesse aquário a minha direita. Esse meu saudável, que me mantém vivo e pensante. Ah! Se não fosse a escrita fazendo parte de minhas entranhas. Esse meu dom de escrever. O que seria de mim? Um médico inconformado com os rumos tomados pela medicina. Que hoje se moderniza tanto que não podemos acompanhar seu ritmo frenético. Escrever pra mim, não faz doer nem meus dedos que digitam esse negro teclado desse meu primeiro computador. Onde escrevo crônicas, se contá-las todas perfazem mais de vinte e mais outros que perdi a conta. Onde ainda tenho meus pacientes fichados num programa de nome dado por uma pessoa engenhosa que sabe como poucos entender de computação.
Mas, pro Zezinho da dona Tiana. Aquela pessoinha lisinha na carinha, de mãos cascudinhas como não é a casca dos cascudinhos que se escondem entres as pedras no fundo desse meu aquário tantas vezes citado em minhas historinhas quase infantis.
Zezinho e sua ficante, em tempos idos não existia esse termo pra mim grosseiro. Quando, no rela rela do jardim ajardinado. Dois, quase menininhos ainda, elezinho aos treze, menos alguns aninhos. Enrabichava seus olhinhos pro ladinho de uma mocinha sobre a qual diziam ser pudica e deveras não era. E relava sua mãozinha não tão boba na perninha cabeluda ( que falta de higiene. Pasmem! Não e que a Tianinha não raspava, nem o sovaco cabeludo. Nem ainda as duas perninhas tão cobiçadas pelos garotos travessos de antão.
O namorido, não dolorido, durou menos que a florada dos ipês.
Tudo teve começo no tal famigerado rela do jardim.
Nos domingos domingueiros. Sob um sol de frigir ovos na terra nua e crua daquela cidadezinha pititinha de nomezinho. Pra descomplicar o nome daquele arraial, que passou a ser distrito de Itumirim. Um nome inapropriado, já que tenho como macuco. Não matuto por ser adequado a quem mora no mato. Macuco quer dizer- matuto, caipira, caboclo, roceiro, sertanejo, interiorano.
Não sabia que sabiá era cantador e que matuto era sinônimo de macuco.
Pra mim macuco seria aquela coisa que gente que não toma banho, além de feder, pode ser rejeitado pelas damas. Uma coisinha que gruda na pele e que só sai com esfregão usando sabão pra ensaboar o corpo inteiro. À hora do banho, que não seja apenas aos sábados e dia após outro, seguidamente.
Seu Zezinho, não o meu e sim da dona Sebastiana. Para abreviar e facilitar a leitura vamos chamá-la de Tiana.
Depois de mais quase cem anos de namoro. Um cineminha junto a mãezinha, dona Fulana, mãe da espertinha Tianinha. Na matinê somente lhes era permitido. E quem comprava um sacão de pipoca era a dona Fulana. A qual exigia que o desinfeliz José, que nunca tinha grana a ela devolvesse a importância paga ao saco de pipoca e as duas latinhas geladinhas daquele refri de nome coca e mais uma cola. Vai que cola e não descola…
Zezinho, assim que concluiu o segundo grau, mal e mal. aos seus dezessete aninhos. Com sua carinha não mais lisinha como bundinha de nenê lotadinha de espinhas e não espinhos de roseira. Sua, inda não suada não ficante e sim namorada. Acostumou-se a espremer as espinhas. Uma, grandona inchada como uma enxada enorme no narigão do Zezinho. Prestes a dela sair pus como um grande abscesso inchado, vermelho como pimentão madurão. Essazinha deu um trabalhão pra ser tratada. E como doeu a espremida. Doeu mais que uma enxadada no dedão do pé.
Quando Zezinho completou dezoito aninhos e Tianinha três a menos, Zezinho passou num botequinho copo sujo e cuecas dos frequentadores mais sujas ainda. Sabedor que ali vendiam aliança de casamento. Pediu ao dono para ver um anel de ouro genuíno dos mais baratinhos.
Comprou, não pagou e ficou no fiado.
Embrulhou aquele trenzinho num papel de pão e levou pra casa a fim de pedir a mão e o resto do corpinho ainda não em forma de barril de shop desses de mais de cem litros.
O pedido foi aceito com algumas muitas condições.
Desde que Zezinho, noivinho e novinho. Não a traísse, pois traíra, adúltero, pulador de cerca ele tinha fama justificada e de fato era.
O casório foi cheio de pompa e pombinhas brancas avoando sobre o altar da igrejinha no centrinho exato de Macuco arraialzinho, distrito de Itumirim aqui pertin da minha cidade.
Os primeiros trintanos de união o relacionamento só não foi pior já que pior que isso não conheço.
Dona Tiana, além de madona era ciumenta pra chuchu. Não sei se a chuchua tem ciúme do seu marido o chuchu metido a tiozão gostosão Sukita.
Seu, não meu Zezinho era muito submisso a sua Tiana dona Sebastiana, prendada desde novinha em tudo inté mesmo na cozinha.
Mas essa ciumeira danada, pra lá de justificada, azedava mais e mais a relação que ia de péssima a muito pior.
Na cama de casal, nem na de solteiro eles se acertavam.
Quando Zezinho tomava aquele remedinho azul e via sua pipa subir às baixuras sem vento.
Tiana virava pro canto, dizia-se com enxaqueca, roncava, soltava puns e dormia de bunda pra cima.
Zezinho, pensando-se novinho, um mocinho igualzinho aquelezinho de dantes. Aos seus dezoito e menos aninhos. Não aguentava mais viver sua dura, triste, infeliz vida.
Seria possível, exequível, aos mais de quarenta anos de casados.
Chutar aquele balde. Jogar seu bloco na avenida, sambar outros carnavais. Sair voando pelos ares tal e qual um beija flor solteirinho da silva. Recomeçar tudo de novo igualzinho um pintinho pondo a carinha de fora do ovo onde foi chocado.
Naquela madrugada, setembro metendo-se calendário adentro.
Zezinho, decidido a procurar felicidade noutro rincão. Distante do seu chão aquele arraialzinho de nomezinho pra mim não apropriado, Macuco.
Assentado ao vaso sanitário. Não para urinar ou defecar e sim para pensar e matutar.
Olhou pro seu dedo anular onde aquela aliancinha baratinha comprada e não paga naquele boteco copo sujo.
Pensou na vida dura, sem alento, em meio a ofensas e ressentimentos ao lado da sua não mais querida dona Tiana.
Num ímpeto tentou tirar sua aliança do dedo esquerdo da mão desse mesmo lado.
Seu dedo mais gordo, a tal coisinha miudinha, de cor douro dourado.
Não quis sair, relinchou, fincou seus pezinhos que não tinha.
Enfim Zezinho conseguiu tirar a aliança do seu dedo. Coisa que nunca tinha feito dantes.
Tempos se foram, poucos.
O dedo do Zezinho inda está inchado, vermelho e muito doido.
E doloroso também ficou seu coração.
Ontem estive com ele. A ele perguntei: “seu dedo ainda dói muito?”
Ele me respondeu com olhos rasos d’água: “não sabia que doía tanto”…
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