Queria fazer da vida

Quem somos nós para ditar o ritmo dessa música chamada vida?
Que tanto pode ser melodiosa, horrorosa. E por que não linda quando encontramos vida afora uma parceira. Dançarina, pezinho tanto de valsa ou de tango. Que nos acompanha ritmadamente nesse enorme salão de festas que tem nome de vida.
Não tenho queixas dessa palavra, linda, de quatro apenas letrinhas, que se contrasta a outra. De uma letra mais, aos meus ouvidos escutadores ressoa antagonicamente, ao revés. A qual, de cinco letras soa inevitável, inquestionável, uma das poucas verdades que, quando chegamos ao final da estrada. Que seja numa curva sinuosa, numa reta interminável.
A gente, indiferentemente ao nosso desejo. Eu, você, tu ou ele, ao volante de um carro desgovernado. Numa pista molhada pela chuva. Tão desejada nesse secume que estamos atravessando a chuva cai. Nosso carro derrapa, sai da estrada, atravessa a pista e rola barranco abaixo. E, no meio do caminho a gente, velhos ou meninos, perdemos nosso bem mais precioso. Pra mim não é o dinheiro, bens materiais. Sim aquilo que nós, médicos, profissionais que zelam por aquilo que tenho por mim o bem de mais alto valor. Coisa que, só quando a perdemos damos-lhe o devido valor.
Qual a palavra que melhor indica o que estou tentando lhes dizer?
Se não sabem deixo aqui escrito seu nome – saúde.
Se considerarem vida como um rio, se caudaloso ou de águas límpidas sossegadas. Que rumo, direção, gostariam de dar as suas vidas?
Um barco à deriva? Quase naufragado nesse mar revolto como pode ser nossa vida?
Ou um rumo menos escorregadio como quando. Caminhando num piso molhado, ensaboado Mesmo estando descalços. Prevenidos contra possíveis quedas com pisar seguro. Tropeçamos, caímos. Mesmo tendo força pra nos levantar a um passo adiante escorregamos de novo. E por não sermos mais tão jovens. Nossa infância se foi à distância. A juventude nem mais se lembra da gente. Uma dessas quedas pode causar uma fratura complicada de nossa bacia. Sermos intimados por um ortopedista a ficarmos imóveis num leito de hospital. Sem movermos nossas pernas. Inermes, olhos fixos no teto claro vendo moscas zumbirem não nos deixando descansar. Já que não mais somos jovens. Meninos, meninas então, nem sonhando.
Lhes pergunto: “que vida é essa? Nessa nova condição de pacientes impacientes para voltarmos à atividade. Ao achego das pessoas que amamos mesmo se elas não nos ame. À nossa correria que tanto nos faz falta. À liderança como exemplos que fomos e não mais somos nem seremos mais. Sei, e se outros não sabem somos descartáveis como coisas sem utilidade como aquele sapato velho que não permite ser ressolado e deve ser jogado no lixo.
Vida pra mim só tem sentido se nos sentirmos livres, como agora me sinto. Liberto das amarras de um casamento falido. Não dessa família tão linda que ajudei a construir. Espero que ela não pense que eu. Nesses meus bem ou mal vividos setenta e seis. Pretendo encompridar minha vida não a poder de comprimidos que me façam sentir jovem novamente. Já que não me tenho como velho, rabugento penso não ser. Caduco, demente, mesmo que pensem de mim tudo isso e mais outras coisinhas menos elogiosas. Sinto-me inteiro, completo, sagaz e creio que não me falta gás para abastecer o resto de meus dias. Meses e anos que tenho a curtir essa minha vida que se renova nessa e em outras horas.
Quero fazer da minha vida. Nos poucos anos que inda me restam. Não sei quantos e nem quero saber. Olho pro agora. Tento enxergar apenas o hoje. Esse idílico momento em que estou escrevendo. Esperando que amanhã seja igual ao ontem e o hoje. Uma enorme montanha de crônicas da minha lavra. Uns romances mais e que termine logo esse Ucrânia que tenho ao meu lado direito nesse outro computador negro.
Desejo fazer da minha vida um imenso gramado onde o verde exala seu verde. Não para que jogadores de futebol milionários engordem suas fortunas e nadem em suas piscinas lotadas de mulheres desnudas bundudas tomando champanhe de ótimo pedigree.
Espero, e não me desespero, fazer da minha vida esse campo estar lotado de alunos. Menininhos e menininhas de favelas pobrinhas. Tendo aulas de tênis dadas por bons professores como meu filho Stenio.
Gostaria de fazer da minha vida não um ringue de box e sim um campo de paz.
Queria plantar roseiras sem espinhos. De poder adubar a terra sem usar pesticidas ou defensivos usados na agricultura que não machucassem tanto o meio ambiente. Inconsequentes aqueles que fazem uso deles.
Queria dar ao resto dos meus dias um país melhor onde se viver. Deixar de legado aos meus netos. E a outras crianças que já vivem e estão por vir. Cidades mais verdes onde o sol não nos castigue tanto como agora. Uma sociedade mais justa e por que não mais igual. Fraterna onde abraços se tornem mais frequentes . Onde se possam ver, pelas ruas, lojas mais cheias de compradores. E onde possamos caminhar por passeios mais asseados. Que pedestres sejam respeitados seus direitos. Usem e não abusem das faixas zebradas por onde deveriam atravessar ruas e avenidas movimentadas. E cuidado aqueles, como eu, andarilhos andadores. Gente bem acostumada a usar as pernas no seu caminhar costumeiro. Ao atravessarem faixas de pedestres. Tomem cuidado para não sair delas enfaixados. De pernas quebradas e sua coluna rota e ser condenado a passar o resto de seus dias numa cama de enfermaria num quartinho de hospital. Espero ser mais confortável que aqueles leitos usados pelos pacientes do SUS.
Queria, e quero, como aquela avezinha, desse nominho “quero-quero (Vanellus chilensis).”
Esse passarinho nem brasileirinho, que vive especialmente nos campos e áreas abertas, de médio porte. Peito preto, barriga branca e asas acinzentadas. De um canto característico que parece dizer “quero-quero.”
Quero sim, e muito, dar a minha nova vida um melhor sabor. Dar cores mais coloridas ao cinzento que mora ainda dentro de mim. Dar, a mim sem me esquecer os outros, uma pitadinha animadinha de felicidade. Ver sorrisos de verdade emergir de dentes, mesmos desdentados. Que tal doar dentaduras aos que não tenham a sorte de ter dentes perfeitos. De fazer sorrir os tristes. De me fingir de palhaço num circo sem lona numa praça pública de uma cidadezinha qualquer.
Gostaria ainda, nesse meu restinho de anos que tenho pela frente. Espero não serem poucos. Quem sou para pedir que viva, se com saúde e clarividência. Para, nesse momento pra mim tão gostoso. Quase no final desse meu texto de hoje.
“Meu paizinho do céu. Não sei se o senhor conhece esse meu pai que me deu a vida. Seu nome, consulte aí no seu fichário que deve estar guardado por algum anjinho de asinhas brancas e uma coroinha da mesma corzinha na sua cabecinha. O nome dele é Paulo José de Abreu. Acredito que ele se parece comigo. Tem a mesma testa ancha, o mesmo olhar sonhador.
Por favor, lhe peço.
Gostaria tanto de dar a minha quase finda vida um melhor sentido.
Não fica sentido comigo não. É só um favorzinho mais, menorzinho.
Permita-me, não vou te pedir de novo. Se não me atender não irei gostar do Senhor menos.
Mas me faz uma caridade caridosa.
Desejo muito viver uma vida melhor. Ser menos tempestuoso, teimoso e turrão. Ouvir mais e, que tal, falar menos e escrever menos ainda”.

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