“Inês morreu? Não sabia, de que foi? O que aconteceu tadinha. Era tão novinha”…
Quem não conhece essa expressão, Inês é morta, vou explicar a vocês.
Ela vem da história de Inês de Castro, personagem histórica portuguesa do século XIV, que teria sido assassinada por razões políticas, antes do seu amado, o futuro rei Dom Pedro I de Portugal conseguir impedir sua morte.
Daí surgiu a ideia: “agora não adianta mais- Inês já está morta”.
Resumindo, Inês é morta-agora é tarde, não tem remédio.
Já leram essa expressão? : “o que não tem remédio remediado está.”
Tenho observado, com meus dois olhos observadores, creio não só aqui na nossa cidade como outras.
Nessa crise de dinheiro, deixemos a moral pra falar depois, já que se avizinham as eleições. Cuidado com seus votos.
Quem mora aqui nessa minha e de vocês, lavrenses ou não. Se de mais idade tenho quase certeza convicta que sim. Sobretudo aqueles que usam as pernas como eu. E tem o costume saudável de ir à padaria da esquina, uns passinhos apenas da garagem onde deixam seus carros. Me permitam um adendo, rápido como um raio: “aqui e penso em outras localidades, tem família que mora de aluguel, pagando alto preço por aquele imóvel caindo aos pedacinhos. Esse pai ou mãe desmiolados ostentam três ou mais carros na garagem e não tem casa própria. Esses infelizes, que pensam ser felizes, não conseguem realizar nem metade de seus sonhos. Quando aqui cheguei, em tempos idos, em um ou dois, se forem mais anos me perdoem. Minha primeira providência foi juntar uma bela grana, comprar uma furreca semi, quase nova. A seguir, como já tinha um lote num bairro ex chique. Hoje mais parece um enorme acampamento lamentável de estudantes que zoam a noite inteirinha perturbando os pobres moradores que têm de acordar cedinho para ir ao trabalho. Enfim minha primeira morada foi erguida a duras pelejas”.
Sabem onde quero chegar? Aqui já apeei.
Estava deixando escrito isso.
Se me virem andando de carro pelas ruas atapetadas de veículos, lhes peco, multem-me e pagarei a taxa.
Por favor, minha gente amiga e outros não tanto.
Quem me conhece não me esquece jamais.
Esse Paulo Rodarte, tem Expedito de Abreu também na minha certidão de nascimento.
Acho-me, e outros pensam o mesmo, figurinha carimbada aqui e nos arrabaldes.
Os de mais idade conhecem meu lado médico urologista. Creio que muitos de aqui já sentiram a pouca espessura, por que não dizer pequena estatura do meu dedo indicador da mão direita. Esse dedo duro, enxerido, que entra ainda em cada lugar escuro, insalubre e de pouca predileção aos que se dizem machões.
Já meu lado de menos idade. Essa minha metade a qual chamo escritor.
Ela veio de tempos idos, justamente no ano dois mil. Na noite exatinha que meu saudoso pai morreu. De lá pra cá não parei mais e penso estar aumentando minha produção literária.
Acredito mesmo que tenha uma diarréia letrada. Não irei nomear toda minha lavra pois, muitos já a ela foram apresentados. Pena que uma minoria teve a audácia de pôr a mão na bolsa da esposa. Ali encontrar a mixaria de oitenta, sessenta e até noventa reais pra comprar um livro meu. Não tá sendo fácil vender livros pros meus amigos leitores.
Tenho um vizinho mão de vaca na minha roça, ao qual dei o nome de Zé Peleja. Caboclinho trabalhador que anda fazendo negocinhos, passando manta nos outros. Em menos de dez anos ele vai ser dono de todas as terras produtivas ou não por lá.
Sua esposa, mulher amada, não sei seu nome exato nem apelido, um dia me disse assim: “doutor Paulo, meu marido amado, quando o senhor manda no zap dele suas crônicas e ele as recebe. Meu Zé Pelejinha, como tenho um xodozinho por ele, deixa de tirar leite branquinho de uma vaca pretinha (não sei a razão dessa diferença de cor). Ele esconde na tulha, assenta num saco de ração, abre seu texto no celular e só volta ao curral depois de um tempão a ler seus escritos”.
O tal Dorival (Zé Peleja, Pelejinha é seu filho mais velho) nunca teve coragem de comprar qualquer dos meus livros. Tive de doar esse novo, O Canto das Cigarras ao Zé Peleja pai.
Mas não fica sossegado não Zé. Sabe aquela linda bezerrota nascida no mês passado? Aquelazinha cuja mãe enche dez baldes pela manhã? Assim que ela desmamar vou pegar ela pra mim em troca do meu livro. Dessa vez quem vai levar manta? Eu ou ocê?
E por que esse título Inês é morta?
Espero que não seja minha querida prima de Volta Redonda, nossa amiga do Face Inês Veloso como ela se deixa ver nessa rede social.
Se ela morresse morreria mais uma linda Abreu, sobrinha do meu saudoso pai.
Tiãozinho, tido por Tiãozinho do Aristeu, sujeitinho inté que bem apessoado e muito apresado. Dizem que aquele que tem pressa come cru e quente. Eu sou assim e não me desminto.
Quando, inda menino, enrabichou-se por uma meninazinha vizinha.
Foi amor ao primeiro beijinho furtado e outros mais foram roubados.
Ele aos vinte e seis e elazinha aos quinze.
Que bocona ela tinha. E que corpo roliço, durinho, duas lindas e lisinhas pernas custavam segurar tudo aquilo.
Tiãozinho do Aristeu, não arisco e despachado todo domingo pulava a cerca divisória. Quantas vezes saía do outro lado com a calça rota e o saquinho ferido. Mas não perdia tempo.
Essa linda mocinha se chamava Solange, Sol para facilitar a leitura.
Se medissem esse Tiãozinho e a Sol eles dois tinham quase a mesma altura. Isso se esse Tião subisse numa escadinha, empinasse seus dois pezinhos, aí sim. A bundinha murcha daquele hominho iria ficar grudada na bela bunda da Sol.
Anos se foral lépidos como um casal de seriema correndo atrás de uma cobra pra cobrar dela uma conta grandona.
A bela Solange casou, mudou,teve três filhos, e depois separou.
Tiãozinho deixou suas vaquinhas tatus com cobra mansa. Passou nos cobrinhos suas terrinhas. Foi o Zé Peleja que comprou baratinho.
Escafedeu-se pra cidade, não dormia de noite pregando seus olhinhos nos livros.
Trintanos se foram e ele se tornou médico escritor.
Ele nem se lembrava da sua namoradinha Sol.
Até num domingo de primavera, quando ele, escritor de meia pataca e médico especialista em tocar, não o coração dos pacientes e sim uma zona proibida, insalubre onde se amoita a próstata. Saiu uma notinha num jornal da capital: “doutor Tião do Aristeu, urologista, não ativista em política. Lança seu sétimo livro, uma coletânea de crônicas de nome Resmungos e Gracejos.
Sabem de quem ele recebeu bem traçadas linhas vindas da capital das nossas Minas Gerais?
Da sua ex Sol, hoje mulher empreendedora, boa leitora, linda mais ainda que dantes.
Doutor Tiãozinho, animadinho, mandou seu livro pelo correio a sua ex. Cobrou não só o valor do livro como a despesa da encomenda.
E o que era pra ser bom se tornou bem melhor.
Os dois reviveram, em escala bem acima, aquele causo de amor trintanos depois.
Encontros se repetiam em cidades próximas adonde Tiãozinho morava.
Era uma paixão avassaladora que nem vassoura de palha queimando na fogueira de São João.
Quis o destino que o enamorado, apaixonado casal se apartasse, cada um na sua cidade.
Sol na dela e Tião aqui.
Sol, desiludida, sem a companhia agradável do seu Tião, acabou se casando de novo. Que novidade! Era isso mesmo que ela deveria ter feito já que Tião relutou, chutou o balde e a ela desprezou ficando nos braços de outra mulher que não era ela.
Agora, nessa hora madrugada, Tião, não aquele Tiãozinho novinho, medicosinho sonhador.
Querendo reatar aquele velho caso de amor.
A bela ainda Sol, nos braços de outro, quando esse doutorzinho escritor tentou dela se aproximar.
Dela recebeu essa missiva em duas palavras apenas: “Inês é morta.”