De tristezas em alegrias a gente navega nessa embarcação chamada vida.
Bendita bipolaridade! Esse maravilhoso estado em que nos achamos, vendo nosso humor, ora subindo pelo elevador, ora descendo pelas escadas tortuosas e inclinadas quando esse elevador da pane e encalha no meio do caminho.
Bipolares têm momentos de pura alegria. Entremeados de alguns onde a tristeza predomina.
Poetas, que não sou, não sei rimar e apenas cometo a leviandade de escrever em meus textos coisas que chamam os entendidos de “aliterações fonéticas.” Essas repetições, no meu caso não intencionais de sons consonantais em palavras próximas, criando ritmo, musicalidade ou dando ênfase ao texto.
Mas, fazendo uma revoada de asas voando aos meus momentos altos, e outros lá embaixo. Ora meu humor sobe às alturas outra hora baixa ao rés do chão. Do mesmo jeitinho lindo de quando um avião sobe ao céus e depois aterrissa numa pista segura orientado o piloto por aqueles que na torre de comando dizem com segurança onde esse enorme avião pode pousar sem chocar com outros em terra.
Bipolaridade no meu caso pra mim é coisa boa.
Quando escrevo estou em altos vôos avoando num lindo céu de brigadeiro.
Felizmente, continuamente, nesses tempos de agora tenho me mantido nesse lindo céu de brigadeiro mandando pra dentro de minha boca comilona esse docinho de mesmo nome- brigadeiro.
Já estive avoando, planando, em nuvens baixas. Nesses dias minha enorme, altíssima, grandessíssima, inspiração me deixou desolado. Aterrissei no chão, quase as asas do meu avião, e as minhas se partiram em frangalhos. Fiquei como uma viola, em cacos. Cada pedacinho de mim nem com lente de muitos graus dava conta de enxergar.
Em up, como agora e em outras horas, brinco com um, se menino ou menina pra mim tanto faz. Sinto-me como um palhaço sem perdidas ilusões. Ando pelas ruas, em altas e baixas horas, bulindo com alguns passantes, fazendo gracinhas como aquele palhaço despedido do circo de lonas rotas, furadas por baixo e por cima, pelas de baixo entram criancinhas sem pagar entrada. A fim de assistir ao espetáculo que já não é mais o mesmo desde que eu, esse palhaço que faz micagens com as letras. No olho da rua, sem onde morar, passa a ser um vendedor de sorrisos. E, quando esse palhaço que mora dentro de mim, no meu caminhar costumeiro, usando essas minhas duas pernas andarilhas, mudo minhas passadas e passo a ser um vendedor de sorrisos. Levando dentro da minha bolsa sempre a me acompanhar , apensa ao meu ombro, dependurada ao meu pescoço grosso, livros meus.
Palhaços de verdade riem por fora e por vezes, não encontrando criancinhas a rirem de suas micagens, sozinhos em casa choram por dentro e por fora.
E eu me pergunto, mesmo não vestido de palhaço. Apenas agindo como um deles a contar causos, escritos ou falados, contando chistes e passagens iláricas de minha vida de médico. Desde quando aqui cheguei, depois de um ano inteirinho em terras da linda Espanha, precisamente de Madrid. Quando, no começo das minhas andanças pelos caminhos tortuosos e difíceis da Urologia. Que mais e mais se moderniza e não temos como acompanhar. Nós, esculápios de mais idade. Minha querida turma de medicina da Universidade Federal de nossa linda Minas Gerais, celebramos quase cinquenta mais dois anos de graduados. Infelizmente cerca de trinta ou menos colegas agora exercem medicina entre os anjos e nosso protetor Deus no céu. Quando, a minha chegada ao porto do Rio de Janeiro, naquele calorão de mais de trinta graus. Eu cabeludo, enfeitando minha feia face um cavanhaque marrom, um lindo topete quase fazendo sombra a minha testa não tanto ancha como agora, quase calva minha cabeça. Pitando sem tragar um cachimbo de onde exalava fumaça de apetitoso odor, não sabor. Era um medicosinho metidinho, um tanto temido pelas prestimosas enfermeiras dos três hospitais onde trabalhava dias sem noites onde pudesse descansar. Usando nos pés um par de tamancos que faziam “tlec tlec” naqueles pisos limpos dos hospitais. Inda não sabendo, como agora sei, o quão é gostoso ter esse dom maravilhoso da escrita.
Naqueles idos anos não me sentia, nem inda descobrira minha bipolaridade. Manifesta anos agora e dantes pouco tempo atrás. Era apenas mais um doutor, sem titulação devida, pois não fiz nem mestrado muito menos doutorado e sim apenas mais um médico de residência terminada, aqui em nossa linda Belô e completada dois anos depois na Universidade Complutense de Madrid, Fundación Jiménez Diaz, Clinica de Nuestra Señora de La Concepción, Escuela de Posgraduados.
Aprendi, na minha bipolaridade manifesta em tempos de agora, e em outras horas mais tempranas. Desde que fiz da minha enorme e que me tem feito tanto bem. Desde aquele dia enlutado e triste quando meu pai foi velado na sala da nossa casa hoje feita lembranças que daqui se deixa ver onde ela era. Nessa linda manhã domingueira quase agosto fechando os olhos. Pra deixar entrar setembro.
Como palhaço que não sou e sim um palhaço que pensa ser escritor e ao mesmo tempo médico.
Tenho meus momentos de alegria onde procuro encontrar a felicidade. Pena que ela não se deixa ver nem sua metade. De corpo inteiro nem em sonhos.
E onde ela se esconde, pergunto e repasso essa mesma e incômoda pergunta a vocês.
Eu, nas minhas roupas de palhaço, não as tenho usado. Uso sempre a mesma dependurada no cabide do meu quarto onde tento dormir e poucas horas consigo.
Me alegro, agora me sinto alegre, sorrindo por fora e por dentro.
Mas, a exemplo daquele triste palhacinho de um circozinho mambembe.
De lonas furadas por baixo, onde crianças adentram sem pagar entrada a fim de assistirem ao espetáculo, que já foi espetacular.
Saem derramando lágrimas sentidas como as minhas. Ou um choro de alegria como agora enfeita meus olhos. Se claros, escuros, verdes como os da minha querida mãe Rute. Ou azuis da cor desse céu que nessa hora sorri pra mim.
Como um palhaço, doutor sem o ser de verdade. Já que penso ser como um doutor pela metade. Metade de mim inda sou médico, urologista. Embora a maioria pensa estar eu aposentado da medicina. Apenas mais um escritor não reconhecido como um certo Paulo que penso e sei que já vendeu milhões e mais milhões de livros. Pra mim não tão perfeitos como os de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski.
Eu, cronista sempre usa o eu como protagonista e não antagonista dos seus escritos de nome crônicas. Tentando ser mais um romancista já que tenho alguns romances já escritos e outro por terminar esse de nome Ucrânia, que nem na metade chegou.
Tenho meus momentos de introspecção e apatia.
E dentro da minha bendita bipolaridade, feliz sou eu, um médico, escritor. Até mesmo, como um palhaço, um pseudo vendedor de sorrisos. Tenho pra mim o direito sagrado de ter ao meu lado momentos de pura tristeza.