Quem ainda, lembrando-se do parente, aquele tio torto que morava distante, e em sua casa nunca apareceu de mãos estendidas para lhe ajudar no que precisasse.
Aquele tio parente distante de sua mãe. Que nem se lembrava dele nem sua cara feia. Sujeitinho desajeitado, desdentado, gengivas rosadas a mostra. Um boçal, amoral, condenado justamente pela justiça que o mandou a cadeia merecidamente. Por ter abusado sexualmente indecentemente de uma criancinha inocente. Prometendo dar a elazinha uma balinha de hortelã. E, de arma empunhada meteu-lhe uma bala diferente em sua fuça e a forçou a fazer sexo pela vez primeira a coitadinha.
O safado, que tinha uma bela grana num porquinho cofrinho, onde cabiam incontáveis moedinhas de um real. Achando-se o maioral, pensando-se impune por ter colarinho branco engomadinho e um advogadinho porta de cadeia logo o livrou de uma cela escura e fedorenta. Em má companhia de três estupradores; por sorte se livrou de ser estuprado. Pois seu amigo advogado advogou em sua defesa que ele era ainda não violado e não viado.
E esse tio pouco aparentado, uma vez liberto e não deveria, quando um parente de verdade, prestes a ser sepultado numa cova rasa e não profunda. E como custa caro o preço de um funeral. Não só o ataúde ou um caixão de madeira nobre como jacarandá e não feito de eucalipto tratado como mourões de cerca que deveriam durar uma eternidade e desmancham à primeira chuva caída finalmente depois de uma seca brava.
Esse tiozão, dizendo-se gostosão a uma mocinha que com ele subia pelo elevador. Ao se achegar a ela, com sua mão boba, que de tola nada tinha, relando de leve na sua bundinha. Levou um tapão na sua cara de pau. E mais um processo por importunação sexual entrou na quinta vara da justiça. Dessa vez, mais uma vez a ele nada aconteceu de pior. Foi parar na delegacia onde uma tia dele era delegada. Era um sujeito de tanta sorte que, se jogasse na loteria seu bilhete seria premiado com o prêmio maior que o da mega sena da virada.
Foi ontem o sucedido, funesto acontecido.
Por uma rede social, não aquela rede que balança na varanda avarandada de uma casa beira lago como a minha na minha rocinha em Ijaci.
Esse tio torto, cujo nome era Entortado não sei o quê e nem quero saber de quem pensa saber mais que eu. Entortado, Entorta Dinho em menino, ao levar uma cambota com sua bota novinha, caiu de banda, sem nunca ter tocado em nenhuma banda de música. O único instrumento que sabia usar era um apito quando apitava partidas de futebol num campinho cambeta numa rocinha num fiofó do mundo.
E como sofreu, e ainda se queixa da vida sua coluna torta pra baixo. Coluna torta pra baixo tem a primazia de olhar a terra ou o chão. Se o dono dela caminha não vê o que se passa adiante e pode dar uma topada num poste logo à frente.
Já a de coluna empinada pro alto tem o privilégio de ver o céu e dizer se vai chover o não.
Como estava escrevendo dantes esse tio torto de coluna vergada envergonhada pra baixo leu, não sei se no Face ou no tal Instagram, que pra mim estraga minhas lindas crônicas. Ao invés de postá-las corretamente comete a leviandade de mexer com minhas letrinhas e mal dizer que meus textos são muito compridos.
Que havia fechado os olhos definitivamente e que havia morrido um parente seu, não meu.
Ele pouco conhecia o defunto morto. Quando inda vivo menos ainda.
Ele, versado e conversado em velórios, embora nunca tenha sido candidato a nada nem a síndico (cínico sim ele era) do cemitério.
Vestiu sua maior cara fatiota e pra lá azulou como um lindo azulão cantador.
Chegou de taxi à porta do cemitério perguntando ao coveiro zarolho onde era a capelinha onde dormia e roncava pouco o defunto morto. Não sabendo se matado ou morto por causas naturais como a velhice.
O enterrador e feitor de covas, fundas ou rasas, olhando pro outro lado com seus dois olhinhos azulados. Um prum lado e o segundo pro outro, já que era vesgo. Quase cegueta e inda pra riba vinha pro campo santo de lambreta azul como a que tive na mocidade.
Virou e não desvirou sua carantonha feiosa pro lado e disse ao Entortado: “sei não e num quero saber”. E assou seu narigão e cuspiu no chão.
Aquele tio chamado Entortado, resignado ele não era nem abastado e sim abestalhado.
Foi veloz como uma mula manca ao velório velar sem vela seu morto que nem conhecia. Só de nome.
Lá, naquele lugar triste e onde pessoas riem e fingem chorar do morto e contam chistes da pessoa a ser enterrada.
Onde amantes, mulheres enlutadas chorosas, de olhos pintados, a gente não sabe quem é a legítima tampa da panela ou a estepe.
Havia duas salinhas contíguas em paz com elas mesmas.
Numa menorzinha estava um defunto morto? Meu colega, que deu o atestado de óbito sabe melhor que a gente.
Na outra outra pessoa mortinha da silva em boa hora não soubesse se seria esse seu sobre.
Seu, não meu Entortado entrou na primeira.
Lá dentro tinha um defunto descoberta sua cara a mostra aos visitantes.
Entortado, pensando erroneamente ser o defunto a visitar, deu um apertado e duradouro abraço na linda mulher que pranteava, olhos rasos d’água aquele defunto. Chorou copiosamente, mentiroso que sempre foi, lágrimas de jacaré comendo a presa incauta. De braços dados com aquela linda dama.
Comentou, exagerando até as milhares de virtudes do falecido.
“Que pessoa boa era seu marido!” Falou chorando compulsivamente esse mentiroso.
Essa linda mulher enlutada olhou pra ele sem entender nadica de nadinha.
“Meu senhor, o senhor sabe quem está nesse caixão? Não seria aquele defunto morto no outro velório”?
Esse de nome Entortado, veiaco e mais que safado, riu de sua orelha de abano a outra.
Saiu dali de fininho dizendo a linda senhora de luto: “me discurpa, é que chorei no defunto errado”.