Vamos deixando atrás

Por vezes sinto inveja dos peixinhos do meu aquário.
Eles têm vida curta. Quando morrem dispensam dispendiosos funerais. Ou são comidos mortos de fresco ou inda vivos por seus amigos, se é que podemos chamá-los assim.
São hábeis nadadores. Respiram debaixo d’água melhor que eu que perco fôlego numa corridinha nanica. Comem uma pitadinha de ração e não têm essa barriga flatulenta que quando solta gases todos têm de sair correndo. Todos meus peixinhos, fora os cascudinhos sugadores de mofo nas paredes do aquário, vivem dentro da água e não dispensam as borbulhas de oxigênio que saem de uma bombinha que se para de borbulhar todos têm de sair do aquário às pressas, senão…
“Sair pra onde, se do lado de fora da minha piscininha espelhada não posso viver sem água”?
Assim me disse um vermelhinho zangado, quando minha querida Zaninha, minha prestimosa enfermeira secretária, nesse ano que está mais da metade, ao fazer uma faxina no meu aquário, tirou todos eles de dentro d’água e os colocou num balde cheio de água purinha. Esse mesmo serelepe peixinho, nessa madrugada, quando aqui cheguei, nadando, de boquinha aberta, sempre faminta a espera da ração costumeira que iria espalhar na superfície de sua água cristalina. Com sua carinha de poucos amigos irritado me disse: “olha aqui seu médico escritor bobão. Se deixar a Zaninha trocar a água da nossa residência vamos, meus amiguinhos e eu fazer greve de nem sei o quê. Ah! Me lembrei agora, não mais vamos ensinar o senhor a nadar e vai se afogar aqui mesmo nessa nossa piscininha que da pé pros seus pés. Esses seus dois pés que não são tão grandes no máximo creio que calça uns quarenta e dois, se tanto”.
Peixes, bem conheço esses meus vizinhos aquarianos. Não tenho paciência de pescador, escrevo mentirinhas inocentes nesse meu computador. E nem sei contar lorotas de gente que vai pescar no Pantanal em barcos pilotados por gente que entendo do riscado. Gasta rios, não piscosos e rios de dinheiro em pescarias que duram uma semana, ou mais. Se pegam piranhas, não aqueles peixes dentuços que infestam e fazem festa em nossas águas doces de nossos caudalosos ou mansinhos rios. E sim aquelas piranhinhas moreninhas mato-grossenses, do norte ou do sul, que ficam nos barrancos e cobram baratinho por um programa, não da Xuxa, quando ela inda era bela e levantava audiência da rede Globo. E sim um programa que da ibope apenas na cama fingindo apreciar tal ato que, se dura mais de dez minutos essa pirainha levadinha faz seu taxímetro sair da bandeira rotineira e o preço sobe às alturas de uma pipa ao sabor da ventania chegar lá no céu ou antes encalhar num fio de luz estendido em postes bem mais altos que meus quase metro e mucado.
Dos meus peixinhos sinto esse tipo de inveja que lhes passo agora.
A gente, que nos dizemos humanos, muitos iguais de humanos nada têm.
Peixinhos do meu aquário, se aquela bombinha não borbulha mais, e não solta bolinhas de oxigênio a oxigenar a água desse aquário grandão. Os peixinhos acabam morrendo, uns mais rapidamente e outros, como os cascudinhos, lentamente.
Eles todos, esses meus amiguinhos, não sei se são meus amigos. Não deixam, quando velhinhos, como eu, essas borbulhas de ar dizendo-as serem saudade.
Gente, como eu, de rica sensibilidade, que por pouca coisa me sinto triste e desolado. De nervos nervosos a flor da minha fina e branquinha epiderme.
Se me xingam, me ofendem minha pele eriça, o resto dos meus brancos cabelos sobem, destampam minha calva, não engulo a seco. Não conto até mil e revido. Não com socos e não com a ponta do meu pé na canela doutro. E sim tento argumentar, primeiro com palavras educadas e até adocicadas. Mas, se do outro lado oiço baixaria minha pena pesa. Fica quase impossível alguém, que seja um Zezinho Ninguém ou um metido intrometido a besta de um radical petista. Que só aceita suas verdades e ignora as do outro lado mais ponderado. Digladiar comigo ou com meu umbigo, mais e mais sumido em meio a minha protusa barriga.
Nós, pessoas físicas ou jurídicas, nada tenho a declarar à justiça. Já tive dantes e espero não ter mais.
Nessa nossa vida, pra uns colorida e pra outros mais cinzentas que um céu nublado, cheio de nuvens escuras de onde felizmente deve cair chuva nesse secume que estamos passando.
Em nossa velhice onde tento me encontrar e não me acho. Olhando-me no espelho a procura de mim menino, só encontro esse velho. Que inda me tenho como médico. Se me aposentar da urologia, um dia sim aposentar-me-ei. No entanto esse meu lado, um amigo me disse ontem assim: “doutor Paulo, o senhor é um alquimista das palavras”. E não completou escrevendo e não sei se sou mesmo. Um médico bom retireiro das palavras que tira delas não leite. E sim um som mavioso do canto de sabiá cantador no alto de uma laranjeira carregadinha de flor e mais tarde cheinha de laranjas tão docinhas como um beijo de mãe.
Com a idade chegando, nossas cãs sendo tintas de branco, rugas aos montes dizendo-nos com suas ranhuras rasas ou profundas: “não tentes tirar-nos de sua face. Somos testemunhas oculares das suas histórias passadas, das suas dores e dissabores, dos seus casos de amor não resolvidos, das suas paixões recolhidas as quais te deram tanto prazer em tê-las vivido e agora infelizmente não mais”.
Deixamos pra trás saudades, amores, atos insanos e comportamentos infantis. De muitos deles não nos arrependemos. Doutros como gostaríamos de revivê-los e ver a pessoa a quem amamos, e dela não inda esquecemos. Pena que ela vive no passado e eu no presente. E que presente maravilhoso seria ter essa mulher de novo ao meu lado.
A gente, quando de mais idade, ao vermos a mocidade não ser vista nem numa luneta possante. Vamos tentando nos desvencilhar da saudade. Mas quem diz que eu seja capaz de tal feito. Quanto mais vivo mais e mais essa palavra, sem sinônimo em outro idioma, me cavouca as entranhas e me faz amargar a boca.
Tenho vontade de não sentir tanto. Entretanto, quando a mim dizem algo que me constrange, uma coisinha de nada que, pros de coração duro nada representa e pouco acrescenta. Pra mim, infelizmente não gostaria de ser desse jeito. Qualquer palavrinha, e como as amo e idolatro. Se dizem uma palavra áspera em minha direção, tento me esquivar da tal, mas ela vai e volta como um bumerangue e me atinge em cheio meu sofrido e sentido coração.
Gostaria de deixar lá atrás, bem atrás daquela moita de bambu, aquele bambuzal de trás da minha casa onde morei junto aos meus pais. Uma ruinha sem saída, um beco, uma ruinha curtinha, não esse beco sem saída onde hoje moro. Não sei ainda por quanto tempo, pois pretendo me mudar.
Esse monte de saudade que tanto dói dentro de mim e me faz tão mal. E por mais que tente me acostumar a ele, não consigo.
A gente vai deixando atrás, nessa estrada longa ou curta que se chama vida. Na idade em que me acho. Nesses meus bem vividos setenta e seis anos, muitos deles sofridos e doutros mais alegres tentando buscar felicidade em endereços incertos.
Espero que na minha estrada até então percorrida. No final dela não encontre tantas pedras pelo caminho. E sim muitos leitores que tenham apreciado ou pelo menos passado olhos num escrito meu.

Deixe uma resposta