Num dia passado, numa árvore que fazia sombra à minha casa na roça.
Era uma árvore que nem sei se uma amoreira, um ipê bem pequenininho sem saber que um dia iria encher-se de florzinhas amarelas. Ou branquinhas e ainda se roxinhas seriam.
Num galhinho bem no alto, quase tocando o céu. Vi um ninho perfeito, feito de galhinhos entrelaçados bem finos da mesma árvore mãe.
Não pude ver o arquiteto, se engenheiro habilidoso, ou quem foi o mestre de obras chefe dos pedreiros que construiu com todo capricho essa casinha na árvore, a qual, em menino, pensava ser a casa onde morava Tarzan e sua amada Jane.
Desse ninho lá no alto daquela árvore percebi, usando um binóculo de grande aumento. Um pássaro preto enorme, ao lado de um ticoticozinho. Desses que não se deixam ver mais. Os vira-latas pardais tomaram seus lugares . Tomara que não à força de fortes picadas.
O tal passarinho grandão de cor preta jabuticaba madura. Ensinava seu filhotão a voar.
O miúdo tico tico a tudo observava sem nada opinar ou piar.
Elezinho deveria cobrar aluguel daquela casinha mais parecida aquelazinha adonde Tarzan se ajuntou a bela mulher inglesa, mais linda que um arco íris de mil cores.
De mérito do tico mais tico que gastou o que tinha e não podia na feitura daquela morada ninhal.
O incômodo inquilino apropriou-se do ninho que não era dele, sua fêmea nele botou três ovinhos, deles eclodiram três filhotões que gostariam de aprender a voar. O vôo solo foi quase um sucesso não fora a queda sem pára-quedas que os levou ao chão e se esboroaram.
Hoje, nessa tarde quase final de agosto. Outros meses oito, ao invés de me darem desgosto. Ao revés foram muito bons meus agostos.
A minha vida, nesses meus mais de setenta e seis. Em dezembro insiro mais um nos meus muitos anos.
Se tive alegrias, digo um cadinho de felicidade, foi quando vi meus três netinhos nascerem.
Hoje Theo não mais é menininho. Dez anos ele completou em vinte de julho.
Gael, tenista, futebolista de salão, bikeiro vencedor de muitos torneios de bike. É meu netinho do meio. Dom, nome bem escolhido não sei se por seu pai. Meu neto mais novinho, espero que ele cresça. Mas não deixe de ser menino. E tomara ele receba como minha herança, não em moedas de mais de milhares delas. E sim meu dom de ter como companhia essa minha. Das poucas virtudes que tenho, de pensar ser eu escritor e inda doutor.
Uma relação matrimonial, não carece de sermos casados, amasiados, ou até mesmo moradores da mesma casa. De convivência fácil ou difícil.
Há de se ter respeito, tolerância, um quezinho de amizade já que o amor de dantes pode virar desamor de agora.
E quando aquela união, que seja de muitos anos ou um cadinho apenas. Se metamorfoseia num ringue de luta livre ou de boxe. Cada um dos contendores no seu corner a espera do nocaute final.
Pra que sofrerem juntos? Continuando a se digladiar até um ir a lona e o outro cuspir, xingar, zoar na sua cara estapeada.
Quando um não quer, e o outro deseja, a briga continua. As ofensas vão de lado a lado como um bumerangue atirado por um vai e volta na mão, melhor que na cara do segundo.
Esse casal, de tantos anos de união, fraternal foram poucos, belicosos a maioria.
Valeria a pena tentar uma separação? Ou persistirem infelizes nessa união que mais parece uma desunião.
Já li isso nalgum lugar e gostei: “a separação não é uma tragédia. Tragédia sim é morrer lentamente num relacionamento vazio, doentio e infeliz”.
E lhes pergunto: “ existiria uma idade certa para tentar encontrar a felicidade? E, se existe a partir de qual idade ? Dos muitos anos, quantos? Apenas gente nova pode procurar encontrar e qual a chance de encontrá-la”?
Ao ver aquele pássaro preto filhote, eclodido do ninho feito pelo casal de tico ticos.
Tentando avoar sozinho. Com suas asinhas inseguras, trôpegas, toscas. Sem medo de cair e estatelar durinho no chão.
Eu, a procura da minha felicidade, que tentei anos e anos, procurei febrilmente em todos lugares. Ao lado da minha esposa, que dias felizes nos deram e hoje não mais.
Criei uma baita coragem, usando todo o destemor que tinha.
Agora demos nosso grito de liberdade, não libertinagem, pois minha esposa merece todo respeito desse mundo.
E, como aquele filhote de pássaro preto, recém saído do ninho do casal de tico tico.
Vou abrir meus braços, unidos mais embaixo pelas minhas duas pernas fortes. Minha cabeça pensante vai voar junto a todo meu conjunto- cabeça, tronco e membros.
E batendo asas voarei e espero não vomitar nas alturas toda bobagem que penso ter feito a você, minha esposa Rosa, Rosemirian se a conhecem desse nome.
Confesso que irei sentir sua falta minha caríssima esposa que hoje, nessa hora nos despedimos como marido e mulher.
Tenho esperança ainda, já que ela deveria ser a última a morrer.
Que, mesmo não sendo mais casados, não sabendo quais serão os termos de nossa doida separação.
Espero que, mesmo que eu perca sua companhia, que pra mim foi muito querida e amada anos antes.
Não perca nunca essa linda família que construímos juntos.
Não duvidem jamais, Bárbara, minha pequena grande jornalista. Mãe extremada de dois dos meus netinhos, Theo e Dom. Daniel, meu genro do coração. Stenio, essa baita conhecedor das leis que inda hoje me espera pra decidirmos juntos, sensatamente como vamos ficar, eu e minha esposa. Vanessa, essa gauchinha biscui, tão inteligente, doutora e pós doutora, muito mais que eu um simples médico, um doutor sem titulação devida.
Se me afastei de vocês, não por querer e sim pelas circunstâncias adversas que se interpuseram entre eu e minha Rosa.
Não me levem a mal.
Saltei do meu ninho. Minhas pernas asas tremeram. Mas, com certeza aprenderei a voar sozinho.