Pra estarmos vivos e sobrevivermos às intempéries da vida, mister se faz muita coragem, perseverança, paciência, estoicismo e outras virtudes mais.
Covardes aqueles que, por temor fogem das batalhas que a vida nos põe a frente. Não guerras insanas como as que tem infelizmente acontecido por aí. Felizmente distantes de nossas fronteiras. Pugnar, como ter coragem de viver uma vida distinta da que estamos acostumados. Assentados confortavelmente à cabeceira da mesa. Que seja na sala de jantar. Ou até mesmo na cozinha a espera de o almoço pronto de pouco ser servido em pratos limpos por nossa secretária de um lar que perdeu a identidade. Um lugar onde o diálogo em palavras amistosas foi sepultado em covas profundas. Aquele não mais doce lar azedou e ficou amaro como a vida do casal que não mais se tolera e a presença de um incomoda aquele que não devia ficar incomodado.
Como continuar numa relação, mesmo que seja antiga, vem da mocidade, passando pela fase adulta e chegando, não se sabe como, nesses tempos conturbados de agora.
A intimidade desmoronou. A pra mim essencial cumplicidade se foi e não deixou endereço pra onde se mudou. O amor, se existia, partiu célere como uma flecha desferida por um arco. Não de beleza como de um arco íris multicor e sim duro. De cordas firmes que, se retesadas pelas mãos fortes do arqueiro. Atinge à distância aquela maçã vermelha fragilmente equilibrada na cabecinha trêmula de uma menina que se diz corajosa. Mas treme inteirinha só de pensar que a seta pode errar o endereço e matá-la inda no começo de sua vidinha que mal começou.
A vocês lhes pergunto: “existe uma idade certa pra procurar a felicidade? Se ela existe me indica o endereço, o CEP e o número da casa, ou apartamento. Teriam vocês coragem de jogar tudo pelos ares, mudar de vida, mesmo não sabendo o que os espera aqui nessa vida ou noutra se é que ela existe deveras? Teriam vocês que me conhecem. E a mesma pergunta faço aos desconhecidos. Existe uma idade ideal para terminar uma união, mesmo que durante quase meio século? Nos seus entendimentos a gente somente seria capaz de mudar de casa, de apartamento, de rua ou até mesmo de cidade. Na mocidade ou na fase mais produtiva depois de termos começado, com sucesso nossa vida profissional? Sim o não”?
Quem me deu a reposta foi um passarozinho, de nome simplesinho João de Barro.
Aquele pequeno grande arquiteto ( Fumarius rufus cientificamente conhecido), essa avezinha bem brasileirinha. Vestido em plumagem marrom –avermelhado, medindo menos de metro e mucado(dezoito centímetros de pé e de asinhas abertas ou fechadas).
Tem a peculiaridade de construir seu ninho em casinhas de barro. Aquela pequena habitação, posta segura num galho alto de uma árvore. Não sei se eles têm predileção por uma ou outra espécie qualquer. Já vi essa casa ninho em jabuticabeiras, abacateiros, até mesmo em outras não frutíferas como uma velha e grande amoreira, que dava sombra à porteira de minha rocinha. Essa vetusta amoreira, onde vi essa casa ninho feita de barro, com sua portinha feita num dos lados protegida dos ventos. Da chuva e até mesmo dos raios solares que podem esquentar muito lá dentro onde um dia eclodem, dos ovinhos Joões de Barrozinhos filhotinhos. Que um dia irão seguir e estudar na mesma faculdade dos pais. Tornando-se artífices, engenheiros que sejam arquitetos da natureza a mim parecendo melhores que outros enganadores que constroem prédios toscos. Sobre alicerces inseguros que, ao primeiro tremor de terra desmoronam e vem ao chão.
Estive presente, ao ver, num galho bem no alto de uma velha amoreira. Árvore mais que centenária, não fui eu quem a plantou. Do ladinho da porta de entrada da minha casa beira lago, represa linda do Funil.
Numa manhã de primavera, setembro aparecendo ao final de agosto. Depois de mais uma noite insone como de outras vezes.
Ao acender as luzes da grande varanda que rodeia a frente da minha casa.
A escuridão predominava e mal me deixava ver a represa e nem mesmo o belo salão. A frente dele uma piscina de água azul da corzinha exata do céu que agora se deixa ver da minha janela.
Ouvi um canto, que pouco encantou meus ouvidos por ser um canto triste.
Procurei e não avistei de onde vinha esse trinado.
Era uma vozinha de um passarinho.
Não mais que um piado miudinho, nanico.
Olhei pra cima até a altura que podia enxergar. Olhei pra velha amoreira, pras outras árvores vizinhas e até mesmo pra dentro de minha casa e nada de ver de onde vinha esse canto. Pra mim cheio de tristeza.
Depois de umas boas horas de procura afinal, ao ver num galho mais alto da velha árvore. Uma avezinha de cor de barro de tonalidade vermelha. Ela, não sei se ele ou ela, ao me ver achegou-se pertinho de mim.
Era um João de Barro segundo o cadinho que sabia dessa bela espécie de passarinho.
Nunca havia tido uma experiência tão gostosa quanto aquela daquela madrugada passada na minha morada, sozinho, à beira da represa do Funil.
Sabia que pássaros são ariscos, a maior parte deles são.
No entanto aquele João de Barro, que entoava um canto triste era uma exceção.
Ele pousou na minha mão direita, cantando baixinho, quase um murmúrio rouco meio louco.
A princípio quase não acreditei ser possível aquele súbito pousar em minha mão um pássaro qualquer que fosse.
Já tive e agora não tenho mais, uma calopsita, a qual dei nome de Zezinho e ela não era ele e sim elazinha.
Se fica difícil definir sexo dos anjos em pássaros como calopsitas muito pior ainda.
O fato que me inspirou e me fez suspirar nessa linda manhã de setembro. Foi a amistosa e ao mesmo tempo triste conversa que tive com esse João de Barro que na minha mão assentou na varanda da minha casa beira lago.
Passados uns segundos da minha surpresa. Me pareceu que ele, o João de Barro não estava, nem temeroso muito menos surpreso comigo.
Foi ele quem começou a prosa num piar quase inaudível.
Parece que ele me conhecia.
“Doutor, o senhor pode me dar ouvidos uns minutos? Moro ali na minha casinha feita por mim mesmo, sozinho. Trazendo um barrinho de longe, de um brejinho distante, pois aqui não tem um. Deu-me um trabalhão para construir minha casinha. Não sou arquiteto, pedreiro, mestre de obra e nem sabia como fazer uma casa. Inda mais num galho de árvore. Quando jovem tinha uma namoradinha lindinha. Era tudo que queria. Ela era uma João de Barro como eu só que mais bonita ainda. Três anos nos separavam. Namoramos dez, juntamos nossas penas e passamos a morar juntos uns mais de quarenta. Nunca, nem no começo nos bicávamos. Ela cantava de um jeito e eu doutro. Não piávamos na mesma língua. Sozinho, como disse ao senhor, construí essa casinha tosca de barro para vivermos, eu e ela, em paz. Mas quem disse que iríamos viver pacificamente se equivoca. Agora ela, aquela João de Barro mudou de cor da amarronzada pra escura como o céu da cor da noite onde passamos em claro. Minha ex namoradinha, de dez anos de convivência, à princípio amistosa e agora de amigos nada temos. Só de me ver tem o prazer de se queixar de minha pessoinha que voa e canta triste. Vivemos juntos há quase cinquenta ou mais anos. Não temos mais diálogo. Quando acordo ao lado dela vejo um inimigo pronto a dar um tiro de chumbinho no meu bico. Até escondi minha espingardinha depressão noutro galho dessa árvore onde moro. Não sei não. Se ela encontrar ai de mim. Vai voar penas minhas pelos ares. Estou cansado de só levar desaforo pra dentro dessa minha casinha que sozinho construí com o maior capricho. Pior pra mim seu doutor Paulo Rodarte. A danada da minha esposa, essa Joana de Barro ( de raiva mudei até seu nome). Se faz de vítima e joga nossos filhotes contra mim. Me desculpa por te importunar tanto. Precisava tirar um cadinho desse barro entalado no meu bico. Criei coragem e vamos separar nossos ninhos. Dei a ela essa minha casinha de João de Barro que fiquei tempos construindo hoje inda moro aqui, num galho alto desse velha amoreira. O senhor, doutor Paulo, médico escritor, teria coragem de fazer o mesmo”?
Voltei à cidade, pensando na coragem desse João de Barro valente. Teria eu a coragem de fazer igual?
Assim o verão no próximo verão.
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