Quem, como eu, já acordou com a barriga roncando. Com uma baita fome. De madrugada assalta a geladeira. Custa abrir a porta que estava emperrada. Lá dentro quase não tinha nada. Virou um restinho de leite azedo de uma garrafinha que ali estava sozinha e mais ninguém. Que dor de barriga sentiu, mal dando tempo de ir à privada. Exonerou seu intestino ali mesmo onde estava e pobre de quem vai ter de lavar sua cueca. No meu caso sou eu mesmo. Já que partir de agora terei de aprender a me virar sozinho . Pois vida nova me espera espero que de braços e pernas abertas já que não sei viver na minha própria companhia embora me admire muito.
Sentimentos abundam dentro de mim. Eles fazem fila à porta do meu coraçãozinho sofredor. Sinto tanta dor que nem ela sabe a paixão. Mesmo o amor, afeto, e tudo quanto são sentimentos de uma sensibilidade absurda que nós, escritores, vivemos no meio de ninhos de dor. Uma dor muito maior que quando temos um prego espetado por baixo da sola do nosso pezinho fininho como bundinha de nenê.
Por sorte minha. Não sei se eles, meus poucos amigos. Sentem por mim a mesma amizade que sinto por eles.
Uma amizade distinta. Que nem sempre precisa de um toque de mãos. Um abraço ou dizer docemente: “sou seu amigo. Acredita em mim”!
Tenho pouquíssimos amigos entre aqueles que se dizem humanos. Embora esses que compartilham nossos genes, pessoas, seres que são chamados racionais. Pessoas que viram as costas, pior ainda, maltratam animais. Cães que vivem nas ruas. Cavoucam sacos de lixo não maldade ou arte como criancinhas fazem. E sim para matar a fome de restos de comida que ali são deixados.
Já tive incontáveis cães. De todas as raças, cores, todos foram e inda são mansinhos.
Não irei citar nominalmente todos. Que já foram enumerados em outros textos. Para não encompridar muito esse escrito.
Hoje, domingo que antecede sete de setembro, feriado nacional. Deveria ser dia de descanso e de preparar olhos e pernas para o desfile de amanhã.
Que sábado maravilhoso passei dele para agorinha mesmo. Esse domingo sobre o qual espero que caia uma chuvica mansinha para tintar de verde a pastaria.
Gente da roça carece muito de água a cair do céu.
Antes de na minha rocinha chegar apeei minha caminhonete branquinha e agora sujinha de barro no curral do Zé Peleja.
Ele estava me devendo uma quantia pequena devida ao meu livro O Canto das Cigarras que ele pensa ter sido um presente e não foi.
Fiz catira proposta ele não aceitou. Como Zé Peleja é sovina como nem eu sou. Daria meu livro novinho a ele. Não carecia de me pagar noventa reais. Em troca a ele propus ficar com meu Canto das Cigarras e ele me daria um bezerrão prontinho ao abate. A raça não me importaria desde que pesasse mais de vinte arrobas. Ele não topou e inda por cima deu uma topada, pés descalços, numa pedrona dura ou mais que sua cabeça. Mugindo de dor me xingou daquele nomão cabeludo.
Acabei ficando no prejuízo. Lotei cinco garrafas pets de leite branquinho e já bebi quase tudinho.
Cheguei a minha rocinha, antes prejuizenta, antes das sete.
Tom Zé já estava lá falando alto mais que eu ( se é que se torna possível ).
Bahia, pedreiro não meia colher como eu nem sou. Ajudado por gente de confiança como penso Tom Zé ser. Com uma betoneira alugada fazia uma rampa pra que eu pudesse. Se meu dinheiro desse. Levar meu barco, meu novo Jet às águas maroladas da represa do Funil.
Que turma mais que boa ali trabalhava e eu só olhava. Meus olhos cheios de admiração. Como gente como aquela. De mãos sofridas, secas, rachadas pela cal que lhes come sem fome. Pedreiros, serventes, toda essa gente operosa, que constrói casas, prédios, qualquer tipo de obra não lhes mete medo e vivem disso.
Esses de nível mais baixo, bóias frias que esquentam a marmita num foguinho feito com restos de madeira. Uma vez a obra pronta têm de azular de lá e caçar serviço em outro lugar.
Sempre ao meu lado se postava educado meu amigo Clo.
Aquele cão fila, não um fila bóia qualquer e sim mais amigo que muitos que se dizem ser.
Clo parece bravo, mas é manso como um cordeirinho que pensa ser amigo do dono e um dia seu dono vai comê-lo.
Ele anda do meu lado como uma sombra. Quase não late com aquela bocona cheiinha de dentes pontudos, enormes. Se ele mordesse…
A linda Bia é nova no pedaço.
Foi-me dada graciosamente pelo Emerson que mora em Macaia.
Ela veio a minha rocinha pensando eu que seria namorada do lindo Clo.
Que ilusão. Ela veio prenha e de repente pariu uma ninhada de cinco cãezinhos filas purinhos.
Se fossem viralatinhas não faria questão. No meu entender vira latas também são gente; bem melhor que a gente.
Agora na minha linda casa beira lago moram Clo, Bia e mais nove filas boiazinhas. Cinco machinhos e quatro mocinhas au aus.
Bia me parece arisca e preocupada com o conceito que irei fazer delazinha.
Ela não me conhece bem e creio que não sabe que sou esse doutor metido a descritor.
Bia me olha desconfiada, da uma voltinha apressadinha pelas cercanias sem cercas e volta ao canil onde moram seus filhinhos.
Como ela tem fome! Se eu desse sopa ela me comeria, cru e frio. Sem mastigar.
Cada um tem seu jeito de amar.
Clo me ama incondicionalmente. Fiel, amigo, sincero penso ele ser embora ele não sabe dizer e nem late.
Bia é faminta. Não de palavras como eu.
Tadinha da minha linda cadela.
Bia está amamentando esses nove pirralhinhos famintos. Ainda sem tirar as fraldas.
Clo, o araçá, ama-me de puro afeto canino.
Já Bia tem por mim afeto faminto.